15 de setembro de 2019

Bioética: Passado, Presente e Futuro

Rilva Lopes de Sousa Muñoz

A ética é uma disciplina filosófica referente às noções do que é bom e ruim, certo e errado. Bioética é a aplicação da Ética no campo das Ciências da Vida. Os profissionais da ética e da bioética fazem perguntas relevantes para a reflexão dos profissionais da saúde, autoridades, pensadores de políticas públicas e da academia, enfim, da sociedade como um todo. Os bioeticistas fazem mais perguntas do que fornecem respostas.
Lopes (2014) destacou, em seu artigo "Bioética: Uma breve história - de Nuremberg (1947) a Belmont (1979)", uma frase de Epiteto (55-135 dC), filósofo estoico que viveu no início da era cristã, que diz: “Primeiro, aprenda o significado do que você diz, e só então diga”. O referido autor comenta que existem termos que parecem simples, mas quando se deseja defini-los, surge certa confusão, lembrando  também que Santo Agostinho (354-430 d. C.) falou sobre isso, a propósito do tempo, quando questionou, em sua obra "Confissões": “O que é o tempo?’ Ele refletiu, surpreso, e disse: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se me perguntam, e quero explicar, já não sei.” (LOPES, 2014). Então, questiona-se, em analogia à pergunta desse filósofo: o que é a bioética e o que esta nova disciplina aportou ao corpo de conhecimentos humanísticos? Por outro lado, quem se qualifica como “bioeticista”?
Quando Hipócrates escreveu sua máxima primum non nocere ("primeiro, não faça mal"), ele estava lidando com um dos principais problemas ainda enfrentados pela medicina: o papel e o dever do médico. Com o advento da ciência no século XVII, surgiu um campo acadêmico para refletir não apenas as questões importantes e antigas levantadas pela prática da medicina, mas também os problemas éticos gerados pelo rápido progresso na tecnologia e na ciência. Quarenta anos após o surgimento desse campo, a bioética agora reflete as profundas mudanças na medicina e nas ciências da vida.
A difusão e o impacto na sociedade e no cotidiano da vida humana da tecnologia levaram a uma crescente conscientização de que ciência e tecnologia não podem ser consideradas acima ou além do domínio dos julgamentos de valor e, portanto, da ética. Foi assim que a Bioética surgiu em resposta ao desconcertante desenvolvimento pós-guerra, empreendimentos em biologia, medicina e biotecnologia. Até agora, os historiadores não têm pesquisado neste campo. A maioria dos registros sobre o “nascimento” da Bioética foi escrita pelos próprios bioeticistas ou por cientistas sociais, alguns dos quais tornaram-se bioeticistas.
Os bioeticistas fazem perguntas no contexto da medicina moderna e da saúde. Eles se valem de uma visão pluralista de tradições, tanto seculares quanto religiosas, para gerar discursos civis sobre questões controversas de diferença moral e outras com as quais a maioria das pessoas concorda. Eles fomentam o conhecimento público e a compreensão da filosofia moral e dos avanços científicos na área da saúde. Eles observam como a tecnologia médica pode mudar a maneira como experimentamos o significado de saúde e doença e, finalmente, a maneira como vivemos e morremos.
  A bioética é multidisciplinar. Combina filosofia, teologia, história e direito com medicina, enfermagem, política de saúde e humanidades médicas. Insights de várias disciplinas são trazidos para a interação complexa da vida humana, ciência e tecnologia. Embora suas questões sejam tão antigas quanto a humanidade, as origens da bioética como um campo são mais recentes e difíceis de capturar em uma única visão. Wilson (2013) considera que existe uma relutância dos historiadores em se envolver com a Bioética, com base em uma leitura incorreta do campo, que é apenas redutível à ética aplicada, e se ignoram suas perspectivas históricas. Os historiadores acreditam que sua tarefa é recuperar a vida de indivíduos, culturas ou grupos sociais do passado e não se sentem à vontade em extrapolar isso para o presente, uma vez que a Bioética é uma disciplina recente. Contudo o mesmo autor considera que a Bioética, como um ponto de encontro interdisciplinar, deveria interessar aos historiadores, que poderiam contribuir com os debates bioéticos sob uma nova perspectiva. Os historiadores consideram que descontextualizar a ética na medicina seria crucial para ajudar os bioeticistas a adquirir autoridade profissional e pública. 
Historiadores da ciência e da medicina documentaram questões morais associadas a práticas médicas e biológicas específicas - por exemplo, experimentos envolvendo seres humanos, vivissecção, vacinação compulsória, aborto e transplante de órgãos - mas poucos têm procurado se envolver com a bioética. A única colaboração real ocorreu no final da década de 1970, quando vários historiadores americanos discutiram o contexto histórico das questões éticas contemporâneas em revistas e instituições bioéticas (WILSON 2013).
Uma cronologia de alguns eventos marcantes mostra a década de 1970 como a do florescimento da Bioética. As primeiras instituições bioéticas do mundo foram o Hastings Center e o Kennedy Institute of Ethics, fundados em 1969 e 1971, respectivamente. O primeiro de uma série de leis federais e comissões de bioética foi criadao nos Estados Unidos em 1974, dando origem ao influente Relatório Belmont, que resumiu os princípios fundamentais e diretrizes promulgadas para experimentação em seres humanos, e que ficou pronto em 1978. O mesmo ano de 1978 trouxe a importante The Encylopedia of Bioethics. A visão de que a Bioética era uma forma de ética aplicada foi lançada em 1979 no livro de Tom Beauchamp e James Childress, “Principles of Biomedical Ethics”, texto fundamental, publicado em 1979 e que ajudou a afiançar a operacionalidade do "principialismo", a ideia de que os princípios éticos "universais" poderiam levar à resolução de casos moralmente complexos. Beauchamp e Childress alegaram que os problemas éticos poderiam ser resolvidos através da aplicação de quatro princípios: autonomia, não maleficência, beneficência e justiça.
Portanto, institucionalmente, a Bioética é um produto da década de 1970. Mas as influências para seu surgimento são históricas, vêm de mais longe no tempo. De fato, a ascensão de a Bioética carrega um marcador sistêmico da história americana, implicando um impulso sociocultural que remonta à fundação da nação. Como seus análogos históricos, bioeticistas fundadores expressaram profunda preocupação com os avanços tecnológicos irrestritos na área biomédica, pelos cientistas que constituíam parte de elite que celebra os indicadores de “progresso”, incluindo o progresso tecnológico, industrial e até o que alguns chamam de “revolução biológica” (STEVENS, 2014).
A raiz mais contemporânea da Bioética está fundamentada nas décadas de 1950 e 1960. Os turbulentos anos 1960 e seus legados marcantes de desafios à autoridade (por exemplo, ativismo dos direitos civis, protestos contra a guerra do Vietnã, ambientalismo, feminismo de segunda onda, direitos dos pacientes) foram altamente influentes na ascensão e institucionalização da bioética. 
Eles apontam também para o impacto da conscientização humana, os escândalos experimentais no pós-guerra, os infames casos de pesquisas com infração ética grave, como os de Willowbrook e de Turskegee, assim como às revelações de Henry Beecher em 1966 sobre 22 casos de estudos realizados no período pós-guerra que continham violações éticas importantes.
Os três principais conjuntos de fatores que concorreram para o surgimento e desenvolvimento da Bioética foram os seguintes:
(a) os dilemas e escândalos envolvendo a pesquisa biomédica, mesmo após terem sido firmados, na comunidade científica internacional, os princípios para regular a pesquisa com seres humanos, a partir da Declaração de Helsinki, e após o Julgamento de Nuremberg - exemplos emblemáticos de pesquisas que infringiram gravemente a dignidade humana e a ética foram:

- Estudo Tuskegee de sífilis não-tratada em homens negros, um projeto desenvolvido pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos ao longo de 40 anos (1932-1972);

- Estudo em que médicos infectaram, propositadamente, com o vírus da hepatite B, cerca de 700 a 800 crianças com retardo mental, com o objetivo de desenvolver uma vacina;

- Estudo em que pesquisadores injetaram células hepáticas cancerígenas em vinte e dois pacientes idosos e senis em 1964 com o propósito de aprender mais sobre a relação do sistema imunitário com o câncer.

(b) o rápido progresso científico na área biomédica: os grandes e vertiginosos avanços científico-biotecnológicos aliados à ausência de uma postura ética em relação ao uso dos recursos biológicos vieram demonstrar que a ciência nem sempre se faz a favor da pessoa - as normas éticas tradicionais tornaram-se insuficientes e, por vezes, inadequadas, para a atualidade

c) A ampla mobilização da sociedade civil organizada, em particular a norte-americana, em torno da transformação dos valores sociais no Ocidente - A bioética é um produto típico da cultura da segunda metade do século XX, quando movimentos sociais marcaram sua participação ativa na discussão da agenda do bem-estar humano, tais como liberdade, segurança, saúde e distribuição de recursos materiais.

Também foram importantes os dilemas relacionados à assistência médica, como ocorreu na criação do Comitê de Seleção de Hemodiálise de Seattle – “God Commission”).

Por outro lado, eventos mais gerais também foram propulsores do surgimento e desenvolvimento da Bioética. O desenvolvimento da bomba atômica, por exemplo, também implicou no surgimento de uma política da dimensão não neutra da ciência. A bomba atômica fez muitos cientistas questionarem os usos da pesquisa científica. Outros fatores ligados à II Guerra Mundial, de forma semelhante, representaram marcos profundos na base sobre a qual se erigiu a Bioética. 
Qual a influência da analogia nazista para os recentes debates médicos sobre a eutanásia? A história da eugenia estaria sendo revivida nas modernas tecnologias genéticas? E o que a história trágica da talidomida e sua recente reintrodução para novos tratamentos médicos nos dizem sobre como os governos resolvem dilemas éticos? São questões inquietantes que inevitavelmente remetem ao que já foi vivido no passado em relação aos funestos eventos da II Guerra.
No sentido dessas questões, a Bioética na perspectiva histórica mostra como a compreensão da História da Medicina ainda hoje desempenha um papel relevante na pesquisa e no pensamento  político na atualidade. Os pesquisadores passaram a ser vistos como o "Dr. Frankenstein", pois poucos haviam se disposto a alertar o público sobre os riscos morais de engenharia genética humana. O segundo exemplo histórico diz respeito ao debate público que se seguiu na década de 1970, quando começaram a se instituir medidas heroicas para neonatos prematuros ou com deficiências (STEVENS, 2014). 
Aparentemente, todos os dias a sociedade enfrenta um novo desafio ético levantado por uma inovação científica. Engenharia genética humana, pesquisa com células-tronco, transplante de face, biologia sintética - todos eram ficção científica apenas algumas décadas atrás, mas agora são todos realidade. Como a sociedade decide se essas tecnologias são éticas? Por décadas, os bioeticistas profissionais serviram como mediadores entre um público ocupado e tomadores de decisão, ajudando as pessoas a entender suas próprias preocupações éticas, estruturando argumentos, desacreditando alegações ilógicas e levantando questões promissoras. Esses bioeticistas operam em vários locais, como a tomada de decisões em hospitais, instituições que realizam pesquisas com seres humanos e a recomendação de políticas éticas ao governo. Contudo, os formuladores de políticas estão menos inclinados a seguir o conselho de profissionais da bioética (bioeticistas), pois muitos debates bioéticos simplesmente se tornaram políticas partidárias com duelos entre bioeticistas conservadores e progressistas (EVANS, 2012).
 Embora essa crise esteja contida na tarefa de recomendar ética ao governo, existe o risco de que ela se espalhe para as outras tarefas conduzidas pelos bioeticistas. Os debates sobre bioética foram originalmente dominados por teólogos, mas passaram a ser desenvolvidos posteriormente pelos profissionais emergentes da Bioética, devido ao envolvimento sutil e lento do governo como principal consumidor de argumentos bioéticos. No entanto, após a década de 1980, as opiniões do governo mudaram, fazendo argumentos bioéticos não parecerem tão legítimos. 
O transplante de órgãos, a diálise renal, os respiradores e as unidades de terapia intensiva (UTI) possibilitaram um nível de atendimento médico nunca antes alcançádo, mas esses avanços também levantaram dilemas éticos assustadores que o público nunca havia sido forçado a enfrentar anteriormente, como quando admitir um doente em uma UTI ou quando tratamentos como diálise podem ser suspensos em doentes com doença renal terminal em cuidados paliativos. O advento dos contraceptivos e as técnicas seguras para realizar abortos também aumentaram os dilemas éticos. Ao mesmo tempo, as mudanças culturais colocaram uma nova ênfase na autonomia e nos direitos individuais, preparando o terreno para um maior envolvimento do público e controle sobre os cuidados e tratamentos médicos. 
Os debates públicos sobre o aborto, a liberdade contraceptiva e os direitos dos pacientes têm ganhado força, e a bioética tornou-se uma área legítima de atenção acadêmica. As mudanças culturais colocaram uma nova ênfase na autonomia e nos direitos individuais, preparando o terreno para um maior envolvimento e controle do público sobre os cuidados e tratamentos médicos. 
Nos seus primeiros anos, o estudo de questões bioéticas foi realizado por  autores de departamentos universitários tradicionais de religião ou filosofia. Esses estudiosos escreveram sobre problemas gerados pela nova medicina e tecnologias da época, mas não faziam parte de uma comunidade discursiva que poderia ser chamada de "campo acadêmico". Individualmente, estudiosos trabalhando isoladamente, começaram a legitimar questões bioéticas que merecem rigoroso estudo acadêmico. Mas a bioética se solidificou como um campo somente quando se alojou em instituições especificamente dedicadas ao estudo dessas questões. 
A bioética acadêmica nasceu com a criação do primeiro "centro de bioética" mas, ironicamente, surgiu por meio da criação de uma instituição que não fazia parte da academia tradicional. A primeira instituição dedicada ao estudo de questões bioéticas foi um centro independente de bioética, propositadamente removido da academia com suas rígidas demarcações de estudo acadêmico. A instituição foi o Hastings Center, fundado pelo filósofo e teólogo Daniel Callahan, juntamente com o psiquiatra Willard Gaylin, que criaram a instituição para ser um centro interdisciplinar dedicado exclusivamente ao estudo sério de questões bioéticas. Com os departamentos acadêmicos funcionando como ilhas dentro de uma universidade, parecia que um trabalho verdadeiramente interdisciplinar era impossível. O Hastings Center foi fundado para criar um espaço intelectual para o estudo dessas questões importantes sob múltiplas perspectivas e áreas acadêmicas. 
A segunda instituição que ajudou a solidificar o campo da Bioética foi o Kennedy Institute of Ethics, inaugurado na Universidade de Georgetown em 1971. Os fundadores tinham objetivos semelhantes aos do Hastings Center, apesar de colocarem seu centro na academia tradicional. Enquanto alojado fora de quaisquer departamentos acadêmicos em particular, o Instituto Kennedy parecia mais um departamento tradicional, oferecendo programas de graduação e estabelecendo nomeações de professores segundo um modelo universitário.
A partir desse começo modesto, o campo da Bioética explodiu, com dezenas de universidades seguindo o exemplo, criando instituições cuja única função era o estudo de questões bioéticas. Seu crescimento foi impulsionado pelo surgimento de novas tecnologias, como o coração artificial e a fertilização in vitro, além de novos desafios, como o do HIV/AIDS. A Bioética está agora permanentemente no mapa acadêmico e no discurso público.
A Bioética continuará a se expandir e a ser considerada importante porque as ciências biológicas continuarão em seu vertiginoso desenvolvimento. Políticas éticas serão necessárias em todas as instituições. Códigos e leis, nacionais e internacionais, políticas e profissionais, precisarão ser desenvolvidos e, em seguida, continuamente aprimorados e atualizados. Não há fim à vista para novos papéis para os profissionais que conhecem a bioética. 

Referências
Evans JH. The History and Future of Bioethics: A Sociological View. Oxford Scholarship Online, 2012

Lopes AG. Bioethics – a brief history: from the Nuremberg code (1947) to the Belmont report (1979). Rev Med Minas Gerais 2014; 24(2): 253-264 2

Wilson D. What can history do for bioethics? Bioethics 2013; 27(4):215-23

Stevens MLT. The History of Bioethics: Its Rise and Significance.  Reference Module in Biomedical Research, 3rd edition. San Francisco State University: San Francisco. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar.org/411c/465786abd8240a3b6e2745df1c9338f22c79.pdf


Imagem: https://www.europewatchdog.info/en/international-treaties

Conhecimento Humanístico em Medicina: Questões Propostas


1- A crise da atual medicina ocidental refere-se à crise de seu paradigma dominante, o qual se identifica com o Positivismo, que... (Assinalar com V ou F):
(a) Ressalta o papel da sociedade, da cultura, da comunidade científica e da própria história na abordagem do processo saúde-doença
(b) É um paradigma mecanicista por pressupor que a saúde e a doença podem ser explicadas pela negação do dualismo mente-corpo
(c) A medicina científica tornou-se hegemônica ao se mostrar antagônica à práxis capitalista
(d) Contribui para a formação de uma profissão médica com um elevado grau de poder e prestígio -
(e) Está associado à medicina baseada no hospital e na alta tecnologia

2- Leia o trecho citado a seguir:
“Galileu, talvez mais que qualquer outra pessoa, foi o responsável pelo surgimento da ciência moderna. O famoso conflito com a Igreja católica se demonstrou fundamental para sua filosofia; é dele a argumentação pioneira de que o homem pode ter expectativas de compreensão do funcionamento do universo e que pode atingi-la através da observação do mundo real.” (Stephen Hawking, “Uma breve história do tempo”) 
O “famoso conflito com a Igreja católica” a que se refere o autor corresponde:
a) À decisão de Galileu de seguir as ideias da Reforma Protestante, favoráveis ao desenvolvimento das ciências modernas.
b) Ao julgamento de Galileu pela Inquisição, obrigando-o a renunciar publicamente às ideias de Copérnico.
c) À opção de Galileu de combater a autoridade política do Papa e a venda de indulgências pela Igreja.
d) À crítica de Galileu à livre interpretação da Bíblia, ao racionalismo moderno e à observação da natureza.
e) À defesa da superioridade da cultura grega da Antiguidade, feita por Galileu, sobre os princípios das ciências naturais. 
(Fonte: Vestibular Unesp, 2008)

3- Utilize o texto e a figura a seguir para responder a esta questão.
"O Corpo Humano: real e fascinante". Este é o título de uma exposição realizada na capital paulista. O texto a seguir  foi retirado da programação cultural desta exposição.
“Reunindo 16 corpos e 225 órgãos verdadeiros, a mostra revela a crueza da anatomia humana. Dividida em nove segmentos (para representar cada segmento do organismo), a exposição começa com a estrutura interna de um esqueleto, que contém mais de cem juntas. As realizações do homem na medicina também estão presentes na seção ‘o corpo tratado’, onde estão próteses de quase todas as partes do corpo.” (O Estado de S. Paulo, 13 de abril de 2007)
Tanto a exposição anunciada pelo texto quanto este quadro de Rembrandt (figura no topo desta postagem):
(a) Destacam a relação entre as experiências científicas e as manifestações religiosas
(b) Representam a arte contemporânea, caracterizada pela denúncia contra a banalidade da violência
(c) Mostram a permanência do interesse sobre o funcionamento do corpo humano, do Renascimento aos dias atuais
(d) Indicam o retrocesso das técnicas médicas relacionadas ao estudo da anatomia humana
(e) Podem ser vistas como representações artísticas, não mantendo vínculos com experimentos científicos
(Fonte: Vestibular IBMEC, 2007)

4- Leia a seguinte citação direta:
“A ciência moderna é vasta e muito complexa. É praticamente impossível adquirir uma visão atualizada de suas possibilidades totais e talvez por isso tenha passado a ser encarada com desconfiança. Contudo, a civilização ocidental encontra-se comprometida com a crença no valor do progresso científico como força atuante a favor da humanidade. Embora alguns dos maiores perigos do mundo também sejam fruto do desenvolvimento da ciência, prevalece a esperança de que virão dela as soluções viáveis para os nossos grandes problemas.” (ENCICLOPÉDIA. p. 347)
Com base na análise do texto e nos conhecimentos sobre o papel da ciência e da tecnologia nos diversos momentos da história, é possível afirmar que:
(a) A complexidade da ciência já era percebida pelos gregos antigos, que, desde então, buscavam a constante especialização das áreas do saber.
(b) A desconfiança aludida no texto decorre, em parte, da sobrevivência de traços da hegemonia da Igreja no campo do conhecimento e da interpretação da natureza, desde a Idade Média.
(c) A articulação entre conhecimento científico e produção industrial, a partir do século XIX, resultou na distribuição equilibrada de seus benefícios entre os diversos segmentos da sociedade industrial ocidental.
(d) A penetração dos frutos do desenvolvimento científico ocidental em sociedades ainda periféricas tem contribuído para a perda da cultura tradicional e consequente desintegração das estruturas sociais até então vigentes.
(e) A esperança expressa no texto quanto aos benefícios do conhecimento científico na solução dos problemas da humanidade tem sido dificultada pela ganância e violência de governos de países ricos e pela tolerância ou cumplicidade de países pobres.
(Fonte: Vestibular UFBA, 1998)

5- A mudança de visão sobre o adoecimento e as práticas de cura na Antiguidade Clássica se deu principalmente pelo surgimento do (a):
(a) Corpus Hipocraticum
(b) Juramento de Hipócrates
(c) Pensamento filosófico
(d) Escola de Alexandria
(e) Escola de Salerno

6- Foram preceitos da Medicina Hipocrática, exceto:
(a) Valorização da natureza
(b) Teoria da geração espontânea
(c) Ética Médica
(d) Conceito de histeria
(e) Tratamento de fraturas

7- O surgimento do conceito de quarentena nos navios ocorreu na: 
(a) Idade Moderna
(b) Antiguidade Clássica
(c) Idade Média
(d) Idade Contemporânea
(e) Mesopotâmia

8- A polícia médica, que foi programada na Alemanha, em meados do século XVIII, e que foi posta em prática no final do século XVIII consiste em:
(a) Um sistema de observação da morbidade por meio da contabilidade de episódios epidêmicos
(b) Um fenômeno de normatização e do saber médicos, com definições sobre os modos de viver da população
(c) A preocupação com a saúde dos proletários como preservação da força de trabalho e controle sanitário do corpo das classes populares para preservação da economia
(d) Alternativas a e b estão corretas
(e) Alternativas a b e c estão corretas

9- O filósofo e médico francês Michel Foucault considerou que no século XIX havia uma configuração paradigmática entre Ciência, Estado e Medicina e, nesse contexto, demonstrou que... exceto:
(a) Relações de saber-poder referentes ao campo da saúde passaram a fazer parte da política de saúde
(b) A medicina moderna compartilhou a episteme científica emergente passando a ter status diferenciado
(c) A desvinculação dos fenômenos do processo saúde-doença do domínio teocêntrico se tornou mais marcante
(d) A dimensão biológica deixou de se refletir na dimensão política e social
(e) Todas estão corretas

10- O chamado “Modelo Clínico Centrado na Pessoa” se associa aos preceitos da atenção à saúde compatível com:
(a) O modelo psicossocial
(b) O modelo biomédico
(c) O modelo hipocrático
(d) Nenhuma das anteriores
(d) Todas as anteriores

Imagem: "A Lição de Anatomia do Doutor Tulp" (Rembrandt, 1632)

3 de junho de 2019

Conteúdos de História da Medicina e da Bioética por Aprendizado Baseado em Equipes

CONTEÚDOS DE HISTÓRIA DA MEDICINA E DA BIOÉTICA
Aprendizagem segundo dinâmica de Aprendizado Baseado em Equipes  (Team Based Learning - TBL)

Departamento de Medicina Interna / Centro de Ciências Médicas / UFPB

1- Assinale a alternativa correta:
(a) Quanto ao seu escopo, Ética Médica é mais abrangente que Bioética
(b) A Bioética Clínica estuda os problemas éticos no âmbito da assistência médica
(c) Códigos de Ética Médica têm força de lei
(d) A Deontologia prevê os direitos dos médicos
(e) Todas as alternativas estão erradas

2- No mundo, a medicina passou a ser uma profissão regulamentada:
(a) Na Antiguidade
(b) Na Idade Média
(c) Na Idade Moderna
(d) Na Idade Contemporânea

3- A elaboração do primeiro código moderno de ética médica no mundo foi motivada por causa de:
(a) Erros médicos que foram levados à Justiça da Inglaterra
(b) Conflitos entre médicos e cirurgiões em um hospital da Inglaterra
(c) Decreto do Rei Carlos II na Inglaterra
(d) Repercussões da Revolução Industrial na Inglaterra durante o século XIX
(e) Nenhuma das anteriores

4- Se fosse aplicada a ética kantiana aos códigos de ética médica, decorreria:
(a) O médico deve tratar os doentes como meios e não como fins
(b) O médico deve basear sua conduta na emoção
(c) O médico deve agir de tal modo que sua ação possa ser uma lei universal
(d) O médico deve fazer o bem e não causar danos aos doentes
(e) Nenhuma das anteriores

5- Acerca da História da Medicina no Brasil Colonial, é correto afirmar que:
(a) O físico-mor treinava os curandeiros
(b) O físico-mor elaborava a legislação sanitária de Portugal para as suas colônias
(c) O físico-mor avaliava médicos, cirurgiões e boticários
(d) O físico-mor atendia os indígenas durante as epidemias
(e) O físico-mor criou a fisicatura da colônia

6- Na História da Medicina na Paraíba, diversos documentos oficiais expressavam o ideário dos governantes e da elite do século XIX em transformar a Cidade da Parahyba em uma cidade salubre e higiênica, o que se relaciona às seguintes assertivas, exceto:
(a) O discurso higienista se inseria em uma nova forma de controle social
(b) O discurso higienista se fundamentava na teoria microbiana emergente
(c) O discurso higienista incluía projetos para a realização de obras no intuito de remover os pobres de suas moradias
(d) O discurso higienista incluía a intervenção do Estado, que passou a interferir em cemitérios e abatedouros
(e) O discurso higienista era semelhante ao do Movimento Higienista das cidades europeias no século anterior

7- A descoberta da técnica de hemodiálise em 1961 confronta os operadores da saúde com a indução da morte de pacientes pela falta de acesso à máquina da hemodiálise. Que princípio basilar da bioética principialista estava relacionado diretamente com a escassez de recursos dialíticos do sistema de saúde para os doentes com insuficiência renal terminal na década de 1970?
(a) Autonomia
(b) Beneficência
(c) Não-Maleficência
(d) Justiça
(e) Nenhum deles

8- Na Bioética, os princípios têm um caráter prima facie, que é o:
(a) Dever de avaliar a relação riscos/benefícios para os pacientes
(b) Dever a ser cumprido, desde que não entre em conflito com um outro dever igual ou maior
(c) Dever de pesquisadores em evitar conflitos de interesse
(d) Dever de permitir que a autonomia seja sempre respeitada
(e) Dever que obriga à consideração da qualidade da vida em detrimento da sacralidade da vida

9- Na atual era das tecnologias da informação, a relação médico-paciente mudou. A conduta de publicar selfies (fotos próprias) e de pacientes durante atendimento na internet/redes sociais pelos médicos passou a ser frequente. Essa atitude é considerada pelo Conselho Federal de Medicina como:
(a) A ser evitada, mas não é vedada pelo Conselho se não representar propaganda de técnicas cirúrgicas
(b) A ser evitada, sendo vedada pelo Conselho por representar atitude antiética
(c) A ser evitada desde que faça parte de anúncios comerciais divulgando uma empresa ou seus produtos
(d) A ser evitada por ser vedada pelo Conselho ao representar autopromoção
(e) Todas as alternativas estão corretas

10- Em relação aos marcos da história da saúde pública no Brasil, pode-se afirmar que:
(a) Nasceu no início do século XIX, com a vinda da família real
(b) Durante o Império, foi realizada a imunização compulsória contra a varíola, levando à sua erradicação
(c) A preocupação com a saúde pública na República Velha era com as famílias pobres
(d) Havia grande preocupação com o esgotamento sanitário no Brasil Imperial
(e) Nenhuma das anteriores

- Houve recursos dos grupos em relação às questões 7, 8 e 9. 
- Foram aceitos os recursos dirigidos à formulação das questões 7 e 9 pela significação da palavra "indução" e por ambivalência nas alternativas propostas, respectivamente.

31 de março de 2019

Questões Propostas de História da Medicina em 2018.2


Expectativas de resposta para questões propostas de História da Medicina em 2018.2

1- Em sua origem, a Medicina Ocidental era uma prática essencialmente humanística. Suas raízes se assentavam no solo da filosofia da natureza e seu sistema teórico partia de uma visão holística que entendia o homem como ser dotado de corpo e espírito. Este foi o modelo, a concepção de médico e de medicina, que se manteve historicamente no Ocidente durante muito tempo. Quando e como houve rupturas e transformações nesse paradigma?

A evolução histórica do humanismo na medicina ao longo dos tempos na civilização ocidental passou de práticas baseadas no conhecimento filosófico, no solo da filosofia da natureza, e seu sistema teórico partia de uma visão holística que entendia o homem como ser dotado de corpo e espírito. Posteriormente, embora baseadas nas teorias médicas herdadas da Antiguidade greco-romana anteriores ao Cristianismo, as práticas passaram a ser fortemente influenciadas pela Igreja Católica, correlacionando-se as doenças à ação de maus espíritos e ao pecado. As observações e experimentações que levaram ao avanço das ciências foram retomadas apenas no período do Renascimento, momento de declínio do poder da Igreja, de mudanças sociais e de passagem para o Capitalismo, mas com retorno ao antropocentrismo. Com a Revolução Científica, entretanto, o desenvolvimento da anatomia e da fisiologia, com os reflexos do método cartesiano-newtoniano, levaram ao reducionismo, conduzindo a um modelo de atenção biologista e mecanicista, que se exacerbou no final do século XIX, com a consolidação da teoria microbiana e da teoria celular. Atualmente, a medicina ocidental está no meio de uma nova mudança de paradigma, à medida que se busca uma abordagem “holística” novamente, com um modelo integrativo biopsicossocial, centrado na pessoa, em que o paciente é visto como um todo e participante ativo em seus cuidados de saúde. A medicina de hoje tende a avançar do curativo para o preventivo, da medicina individual à coletiva, da ênfase pessoal à ênfase na comunidade, apontando para a necessidade da humanização no atendimento em saúde.

2- Foi durante o século XIX que os microrganismos ficaram conhecidos como sendo agentes causadores de doenças, ou “agentes etiológicos”. Comente dois estudos importantes daquela época que fortaleceram a teoria microbiana e a derrocada da teoria miasmática.

A transição da teoria miasmática para a teoria microbiana no final do século XIX e início do século XX foi amplamente documentada em relatos sobre diversos experimentos, desde a observação de microrganismos através de modelos rudimentares de microscópio, evidências de contágio, procedimentos para antissepsia, prevenção de infecção, descoberta dos agentes etiológicos das doenças infecciosas. Esta foi uma mudança radical na história da compreensão da doença, tratamento e prevenção, que marcou uma nova era na medicina. Dois estudos que podem ser citados são os experimentos de Louis Pasteur e os de Robert Koch. Pasteur, por exemplo, demonstrou, entre outros ensaios, que o crescimento de microrganismos em caldos de cultura não ocorria por geração espontânea, fervendo caldo de carne em um frasco especial com o gargalo em forma de S. Por sua vez, Robert Koch inoculou um rato com sangue de uma ovelha que morreu de antraz e o animal desenvolveu a infecção.
Diversos outros exemplos podem ser citados.

3- Segundo alguns pensadores, quanto mais se ampliam os conhecimentos médicos, maior a insatisfação da população com os profissionais da medicina. Acusações referentes a erro médico aumentam a cada ano. Com base na temática das transformações contemporâneas da relação médico-paciente, sustente a argumentação de que os médicos são o “bode expiatório” do sistema de saúde ou, ao contrário, que este argumento é uma falácia lógica.

A resposta poderá variar conforme a opinião de cada respondente. O que foi considerado na resposta a esta questão foi a coerência e plausibilidade da argumentação para demonstrar o pensamento.
Pode-se responder que o sistema de saúde é deficitário, mal gerido, não tem financiamento adequado, prejudicado pela corrupção sistêmica dos políticos e de empresários ligados a eles, mas que o médico como membro mais destacado da equipe de saúde sofre das críticas feitas ao sistema de saúde, no Brasil, Sistema único de Saúde (SUS), muitas vezes injustamente. Os médicos não querem cometer erros e não querem causar danos, tampouco querem dizer não aos pacientes, porém geralmente são criticados por não poderem fazer mais, sendo culpabilizados pelas falhas do sistema como um todo e pelas más condições de trabalho a que são submetidos. Atualmente tem ocorrido reações que constituem o que se denomina “medicina defensiva”, pelo  medo do médico de ser processado, o que influi nas tomadas de decisão de pedir mais exames, fazer mais encaminhamentos, ou prescrever medicamentos. Por outro lado, culpabilizar o médico é improfícuo, e a maioria dos profissionais de saúde, em uma mesma situação, cometeria os mesmos erros e que talvez a situação, e não o profissional, seja o responsável.
O médico é o profissional que vivencia mais intensamente os problemas dos serviços de saúde, onde atende a um elevado número de pacientes, sem receber remuneração condizente com seu encargo e sem possuir condições para exercer a sua profissão com a qualidade a população requer, por falta de recursos técnicos dessas unidades e pela lotação desses espaços. Recentemente, os médicos também têm sido vítimas de agressões por parte de usuários do sistema de saúde e de seus familiares enquanto no exercício da profissão. Os médicos têm sobrecarga de trabalho e são pressionados a ter múltiplos vínculos laborativos, perdendo sua posição de profissional liberal e passando a ser assalariados em um processo progressivo de precarização do trabalho médico.
As soluções determinadas pelos últimos governos incluíram criar indiscriminadamente novos cursos de medicina para expandir o número de vagas nas faculdades, tornando o Brasil o primeiro em número de escolas médicas, a maioria particulares, mas sem a devida qualidade de ensino e treinamento, o que apenas intensifica os problemas. 
Por outro lado, nesta questão proposta, se pode responder que os médicos têm se envolvido mais frequentemente com erros diagnósticos ou complicações de procedimentos por negligência e inaptidão, a partir de uma formação médica de má qualidade. Também ocorrem muitos erros relacionados à deficiente comunicação e às dificuldades de habilidades sociais dos médicos. Além disso, médicos em geral têm uma visão reducionista e fragmentada do ser humano, não se interessando por abordagens centradas na pessoa do doente e em carreiras voltadas à atenção primária à saúde. O médico se beneficiaria da hegemonia de classe no sistema capitalista, por geralmente fazer parte ou se identificar com a categoria elitista, e não se dedica ao conhecimento das necessidades sociais da população. 
O saber e a prática médica então plasmados na sociedade como uma tática de institucionalização, de dominação e hegemonia sobre os demais profissionais de saúde e, portanto, sendo considerados os sujeitos dominantes desse campo, são responsabilizados/culpabilizados de forma correspondente a esta posição na grande área da saúde. Nesse sentido, há um sentimento de onipotência e onisciência por parte dos médicos, que além de não se darem conta de suas limitações, muitas vezes atuam de forma arrogante, afastando a imagem respeitada de outros tempos.
É pertinente argumentar também que muitos médicos negligenciam suas condutas com os pacientes utilizando-se de desculpas como más condições de trabalho e até má remuneração, esquecendo preceitos morais e éticos essenciais no cuidado.

4- Uma das máximas de Michael Balint diz: “O remédio mais usado em Medicina é o próprio médico, o qual, como os demais medicamentos, precisa ser conhecido em sua posologia, reações colaterais e toxicidade”. Comente esta assertiva e o contexto histórico em que foi colocada.

Esta é uma famosa frase em medicina. O conceito do uso do médico como medicamento, do médico Michael Balint, em meados no século XX, ocorreu quando o modelo biomédico começava a apresentar sinais de crise, e ele teve a ideia de ajudar os médicos a se comportarem de modo mais sensível na relação com seus pacientes. Balint foi o primeiro a explorar a subjetividade na relação médico-paciente no contexto da prática clínica geral, em que essa relação permanece central, apesar das enormes mudanças sociais e políticas que afetaram a prestação de cuidados de saúde no século XX. Neste conceito, Balint contribuiu para uma compreensão mais ampla da importância da personalidade do médico, seus sentimentos e reações, como uma ferramenta de diagnóstico e tratamento. Contudo, as atitudes do médico poderão ser terapêuticas ou não, e produzirem configurações benéficas ou maléficas no curso do adoecer. Ele acreditava que o médico é sempre, em maior ou menor grau, “iatrogênico” e que deve ter este fato em mente ao tratar o paciente. Balint considerou também que o tratamento não devia visar somente ao paciente, mas além disso, ao relacionamento formado.

5- Comente a seguinte assertiva de Jacques Le Goff aplicando-a à história da medicina na Idade Média: “O século XIII é o século das universidades porque é o século das corporações”.

Fruto da intensificação da vida urbana, as Universidades tiveram como ponto de partida uma estrutura análoga às corporações de ofício (chamadas de universitas). Até século XII o ensino era monopolizado pela igreja. Aos poucos, este poder passou a ser delegado a cidadãos leigos. As primeiras universidades se desenvolveram na Itália na Baixa Idade Média. Estes foram em Salerno no decurso do nono século e Bolonha no século XI. A de Salerno foi a mais antiga escola médica da civilização moderna. Estas universidades começaram como guildas escolásticas e se desenvolveram em analogia com as guildas de comerciantes que surgiram nos séculos XIII e XIV na maioria das grandes cidades europeias. Foi a partir da Escola de Salerno, no final dos anos 1260, que ocorreu a institucionalização do ensino médico no contexto universitário e as corporações acadêmicas de artes e medicina começaram a se formar.

Imagem: Gravura de Matthaeus Merian, 1646. Um farmacêutico oferecendo um remédio para um homem doente na cama, enquanto um cirurgião, supervisionado por um médico, amputa a perna do paciente sentado. 

22 de março de 2019

A Extensa Carga Horária Curricular do Estudante de Medicina

Por Breno Coelho Batista Cavalcante Nogueira
Estudante de Graduação em Medicina da UFPB

A graduação em medicina constitui uma jornada longa, extenuante e que requer preparo físico e psicológico por parte dos graduandos para que seja bem-sucedida. 
O Ministério da Educação define uma carga horária mínima para os cursos de graduação em Medicina de 7.200 horas, sendo o curso de graduação com a maior carga horária no Brasil, que é considerada excessiva (GONZAGA et al., 2014)
Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) não é díspar desta realidade. É possível deparar-se diariamente com discentes queixando-se da carga horária extensiva, da quantidade excessiva de aulas e provas, algo que muitas vezes não é suficientemente considerado pelos pelo corpo docente e gestores acadêmicos. Nesse contexto, a reforma curricular nos cursos de Medicina é bastante discutida e visa a encontrar maneiras de promover a formação de um profissional humanizado (PAIVA et al., 2018), além de buscar aprimorar o equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal de cada estudante.
O curso de medicina da UFPB conta com uma carga horária de 9.440 horas letivas. Esse número é alto se comparado com a carga horária de outros cursos como odontologia, psicologia e medicina veterinária, todos com carga horária mínima de 4000 horas-aula. O tempo de formação prolongado no curso de Medicina pode ser desgastante para o próprio estudante (MAGALHÃES et al., 2017), tanto no aspecto físico, como no psicológico. Em virtude disso, para muitos essa rotina de aulas e provas representa a causa da abdicação de outros afazeres (por vezes, atividades básicas e necessárias como alimentação e sono) em vista da necessidade de acompanhamento dos assuntos lecionados e da preparação para os testes, o que pode representar um impacto negativo na saúde mental do discente. Estima-se que de 15% a 25% dos estudantes universitários apresentam algum tipo de transtorno psiquiátrico durante a sua formação acadêmica, sobretudo transtornos depressivos e de ansiedade (COUTO et al., 2014).
Ademais, ao escolherem a carreira médica, muitos estudantes são movidos pelo desejo de curar, ajudar ou salvar. Entretanto, o aprendizado centrado no diagnóstico e tratamento de doenças pode levar o médico em formação a negligenciar aspectos da subjetividade do paciente (PAIVA et al., 2018). Por outro lado, como uma forma de se “proteger” do sofrimento do paciente, muitos estudantes optam por apartar-se de sua subjetividade, em especial, da dimensão afetiva. Esse conjunto de fatores corrobora para um enfraquecimento gradual da relação com os pacientes, muito embora seja paradoxal um declínio dessa habilidade com a progressão do curso. Ainda que o tema da humanização em saúde seja extremamente complexo e decorrente de múltiplos fatores, um enfoque puramente tecnicista e as influências do currículo oculto podem colaborar para um processo de desumanização ainda na fase de graduação (BENEDETTO; GALLIAN, 2018). Em 2015, o curso de medicina da Universidade de São Paulo sofreu uma redução de 30% no número de disciplinas, que passaram a ser ofertadas de forma mais integrada e buscando melhorar os aspectos humanísticos (VASCONCELOS et al., 2015). 
 Em suma, é de vital importância que esse tema seja discutido dentro e fora das salas de aula, com diretores, docentes e com os próprios discentes a fim de se buscarem alternativas para o problema. Dessa forma, com o tempo restante, os discentes podem engajar-se em projetos de extensão, pesquisa, participar de forma mais frequente de eventos científicos, além de poder destinar mais tempo à sua vida pessoal. Talvez esse seja também um aspecto para melhorar o caminho a ser trilhado pelo estudante de graduação em Medicina.

Referências
COSTA, G. P.; HERCULANO, T. B.; GAMA, A. L. H. et al. Enfrentamentos do Estudante na Iniciação da Semiologia Médica. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, 42 (2): 79-88, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022018000200079&lang=pt. Acesso em 20 set. 2018.
BENEDETTO, M. A. C.; GALLIAN, D. M. C. Narrativas de estudantes de Medicina e Enfermagem: currículo oculto e desumanização em saúde. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, 22 (67): 1197-1207; 2018. Disponível em: http:// scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832018005007104&lang=pt. Acesso em 18 set. 2018.
VASCONCELOS, T. C.; DIAS, B. R. T.; ANDRADE, L. R. et al. Prevalência de Sintomas de Ansiedade e Depressão em Estudantes de Medicina. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, 39 (1): 135-142, 2015. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbem/v39n1/1981-5271-rbem-39-1-0135.pdf. Acesso em 17 set. 2018.
MAGALHÃES, P.; GOMES, G. B.; NICOLAU, S. N. Tempo de Graduação em Medicina: uma Estimativa em 15 Coortes de Graduados na Universidade Agostinho Neto, Angola. Revista Brasileira de Educação Médica, Rio de Janeiro, 41 (4): 615-622, 2017. Disponível em  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022017000400615&lang=pt. Acesso em 18 set. 2018.
GONZAGA, H. N. KORMANN, S. O. A carga horária excessiva do curso de graduação em Medicina e sua repercussão na Saúde Mental do estudante. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, Florianópolis, 6 (13): 156, 2013. Disponível em http://stat.cbsm.incubadora.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/2994. Acesso em 15 set. 2018.

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