23 de novembro de 2020

HISTÓRIA DA PSIQUIATRIA NAS ARTES VISUAIS

A história e a perspectiva histórica sobre os transtornos mentais em todo o mundo são diversas, instigantes e apavorantes. Em cada período histórico, a "loucura" foi vista de uma forma diferente. Ao longo da história, as explicações sobre a natureza da loucura variaram entre o psicológico e o físico, entre o espiritual e o material: isto é, entre ver a doença mental como uma desordem da psique ou da alma, ou vê-la como uma desordem do cérebro . Ao longo dos séculos, muitos tentaram reconciliar esse aparente conflito.

Portanto, os problemas dos doentes mentais desafiaram a sociedade e os médicos durante séculos. Em tempos passados, seu comportamento estranho frequentemente associado à insanidade era interpretado como resultado de possessão demoníaca.

Desse modo, podemos traçar a evolução das ideias sobre a loucura por meio das artes, que refletiram desenvolvimentos e também moldaram a forma como a loucura foi percebida e tratada.

Este nosso colóquio de hoje na nossa disciplina forneceu um breve levantamento histórico, usando exemplos das artes para ilustrar fatos, episódios e reflexões importantes.

#historiadapsiquiatria #estudopormeiodasartes #historiadamedicina #UFPB

16 de novembro de 2020

HISTÓRIA DA CIRURGIA: DO SUB-HUMANO AO SOBRE-HUMANO


A cirurgia como a conhecemos não começou, de verdade, até o final do século XIX e, mesmo então, a infecção era muito frequente e os resultados eram ruins.

A cirurgia percorreu um longo caminho desde os dias de Hipócrates, quando as operações eram frequentemente consideradas o último recurso, e os médicos preferiam praticar medidas conservadoras antes de cogitar qualquer procedimento cirúrgico heroico. Os últimos 2.000 anos testemunharam grandes mudanças de paradigma nas teorias da ciência e da medicina, e a cirurgia não foi diferente disso de forma alguma. Sem o advento da teoria microbiana, sem a descoberta da assepsia e dos antibióticos e sem o desenvolvimento da anestesia, a cirurgia como a conhecemos hoje simplesmente não existiria.

Este vídeo resultou do colóquio realizado hoje na Disciplina de História da Medicina e da Bioética (CCM/UFPB), cuja dinâmica foi baseada na sala de aula invertida, uma tempestade de ideias e um metaplan, adaptados para o meio virtual.

O título deste vídeo foi uma contribuição da aluna Nadiadja Vaichally Cavalcanti: Do Sub-humano ao Sobre-humano. Esta assertiva parece representar bem a odisseia que representou a história da cirurgia ao longo de mais de 2500 anos de evolução.

#historiadacirurgia #historiadamedicina #assepsia #anestesia #UFPB

12 de novembro de 2020

QUAL A SUA HIPÓTESE DIAGNÓSTICA?

Imagem para discussão com estudantes do Curso Módulo Integrativo de Fisiopatologia e Raciocínio Clínico/Medicina/CCM/UFPB

Paciente de 33 anos, sexo feminino, casada, funcionária pública, previamente saudável, foi admitida em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com uma história de dois dias de letargia e mal-estar geral. No terceiro dia, ela passou a apresentar dor contínua e de moderada intensidade no membro superior direito, sem fatores de piora ou de melhora e associada a astenia.

A paciente refere ter apresentado sinais gripais cinco dias antes, dois episódios de vômitos e duas evacuações líquidas, quando procurou a unidade básica de saúde e foi tratada com paracetamol por três dias pelo médico, que afirmou se tratar de uma infecção viral e recomendou que ela voltasse para reavaliação após este período.

Na manhã do dia da admissão na UPA, ela notou que seus lábios e língua estavam inchados e começou a sentir leve dispneia. Então, seu marido chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência 192 (SAMU), em cuja ambulância ela recebeu injeção de adrenalina subcutânea pela equipe socorrista e foi transferida para a UPA para avaliação e tratamento adicional.

Ela não era fumante e nunca consumiu bebidas alcoólicas. Além disso, não tinha doenças crônicas e não tomava medicamentos de uso contínuo.

Na admissão, a paciente apresentava pulso de 110bpm, frequência respiratória de 22 irpm, PA de 110/70 mmHg e estava com temperatura axilar de 38,9 graus Celsius. Ela estava agitada. Três horas depois, começou a apresentar inchaço em todo o rosto, que apresentava pele íntegra e sem eritema, sem erupção cutânea ou lesões de pele. O exame da cavidade oral revelou língua edemaciada, faringe e mucosa oral sem foco infeccioso detectável. Não havia rigidez do pescoço, sem sinais neurológicos de localização e sua pontuação na Escala de Coma de Glasgow de 14. Não havia aumento local da temperatura e a palpação dos tecidos moles da cabeça e pescoço foi normal, sem dor localizada e sem linfonodos palpáveis ​​. A ausculta apresentava roncos difusos. O exame do sistema cardiovascular foi normal. O exame abdominal revelou dor localizada na fossa ilíaca esquerda. O exame ginecológico foi normal. O exame do membro superior direito não revelou anormalidades. Não havia sinais de eritema ou lesões de pele. A palpação da pele e subcutâneo (tecidos moles) foi normal, sem dor e de consistência normal. Movimentos ativos nas articulações do ombro, cotovelo e punho estavam dentro da normalidade e eram indolores. Todos as pulsos periféricos estavam normais com enchimento capilar periférico satisfatório.

A paciente foi encaminhada para a área vermelha da UPA e oito horas depois, sua pontuação na Escala de Glasgow caiu para 7 e aumentou a dificuldade respiratória. A pressão arterial caiu para 100/60 mmHg e o pulso aumentou para 125 bpm. A paciente foi, então transferida para um hospital, onde foi encaminhada para a unidade de terapia intensiva, imediatamente intubada e ventilada artificialmente. Foi feita reposição volêmica e iniciado esquema antibiótico de amplo espectro.

Durante as 18 horas seguintes, uma erupção cutânea eritematosa apareceu no membro superior direito, que progrediu rapidamente para uma bolha na face medial do braço com edema intenso, que rompeu e deixou o local com aspecto de pele "escaldada" (ver foto no topo desta postagem). Não houve elevação local da temperatura e a consistência local da pele era mole com circulação capilar periférica satisfatória.

Texto em elaboração - Discussão.

11 de novembro de 2020

HISTÓRIA DA MEDICINA: CIRURGIA NA ANTIGUIDADE

Embora possa parecer intuitivo descrever a cirurgia como uma prática médica "moderna", suas origens podem, de fato, remontar a milhares de anos, na era pré-clássica e até na neolítica. A história da cirurgia remonta ao período Neolítico ou Idade da Pedra Polida -  estágio final da evolução cultural ou desenvolvimento tecnológico entre humanos pré-históricos (aproximadamente 10.000 a 5.000 a.C.). O fato de se utilizarem artefatos construídos a partir de pedras polidas dava maior precisão ao corte nos instrumentos de caça, pesca e também nos de utilização cotidiana. A maior parte dos artefatos era feita de sílica ou quartzo, mas também de ossos de animais e de marfim, chegando-se ao final do período ao desenvolvimento de artefatos também de metal. Em procedimentos invasivos como craniotomias e reduções de fraturas, sem nenhum conhecimento fisiopatológico e anatômico, ocorriam mutilações sangrentas.

Para colocar um cronograma como esse em perspectiva, a escrita não foi desenvolvida até 3.500 a.C., pois só surgiu entre os sumérios, na região da antiga Mesopotâmia. 

As primeiras cirurgias eram rudimentar antes de a própria história ser registrada!... 

Na época em que o homem trocou seu modo de conseguir alimentos, passando a cultivá-los. Foram encontrados, na Europa Mediterrânea vários casos de trepanação craniana, dessa época  apresentando alguns sinais de consolidação óssea, o que indica que as pessoas que foram submetidas a esse procedimento cirúrgico primitivo sobrevivetam.

Na Antiguidade, é preciso destacar que na Índia, há aspectos cirúrgicos de relevância histórica, no século IV a.C., quando houve desenvolvimento da cirurgia plástica, principalmente das rinoplastias. Os prisioneiros de guerra e os adúlteros, e outros transgressores, eram punidos com a amputação do nariz, cuja reconstrução era feita à custa de retalhos da região frontal. O costume de perfurar a orelha e alargar a sua abertura também os fizeram desenvolver técnicas de reparo. Foram criadas técnicas de reparo de lábio leporino, hérnias, cálculos vesicais, catarata e amputações, desenvolvendo-se assim a cirurgia independentemente da medicina grega. Havia muitos instrumentos cirúrgicos na Índia durante a Antiguidade, mas seus conhecimentos anatômicos eram precários devido à proibição da dissecção. O médico, nessa época, praticava tanto a medicina quanto a cirurgia, pois estas eram consideradas distintas, mas complementares.

A cirurgia plástica era feita com enxertos de pele na Índia antiga. Durante o século VI a.C., um médico indiano chamado Sushruta Samhita - amplamente considerado na Índia como o "pai da cirurgia" – e que viveu 150 anos antes de Hipócrates - escreveu um dos primeiros trabalhos do mundo em medicina e cirurgia.

Os médicos gregos também se envolveram em cirurgia, mas a maioria se voltou para tratamentos menos invasivos, como ervas ingeríveis e aplicações tópicas de pomadas e cataplasmas. Hipócrates pregou sobre os méritos de “dieta, descanso e exercício adequados”. Embora a cirurgia às vezes fosse necessária, principalmente na remoção de corpos estranhos, não era o foco da prática médica hipocrática. De fato, versões iniciais do Juramento de Hipócrates alertaram os médicos contra o uso da cirurgia.

A Antiga Escola de Alexandria ou Escola Neoplatônica de Alexandria,  na cidade de Alexandria, no Egito, foi a maior escola da Antiguidade Clássica e comportava bibliotecas e museus, e foi onde a Anatomia atingiu pela primeira vez o status de disciplina. Essa escola foi o berço dos saberes e conhecimento por cerca de 700 anos, principalmente, entre o III a.C. até o V a.C.

No Império Romano, muitos médicos eram pessoas que foram escravizadas pelos romanos, portanto sua posição social era baixa. Como as taxas de cura eram também reduzidas, muitas pessoas até os desprezavam.

Os hospitais, como são conhecidos hoje, não existiam em Roma antiga. Instalações hospitalares estavam disponíveis apenas em campos militares.

Muitos instrumentos cirúrgicos recuperados usados durante o Império Romano indicam que a arte da cirurgia progrediu e proliferou durante esse período. Tanto Cláudio Galeno quanto Cornélio Celso enfatizaram a importância da cirurgia no treinamento do médico. O exército romano possuía uma grande variedade de instrumentos cirúrgicos, que variavam de bisturis, pinças e  serras. Galeno foi médico dos gladiadores romanos e dos nobres do império.

#historiadacirurgia #antiguidade

9 de novembro de 2020

HISTÓRIA DA CIRURGIA: UMA BREVE INTRODUÇÃO

A história da cirurgia é fascinante, mas também apavorante... O conhecimento da história da cirurgia não é essencial para o cirurgião, para a sua prática, porém a sabedoria e a cultura que ela carrega são compensadoras e fornecem subsídios para uma melhor compreensão da própria cirurgia atual.

O que temos a aprender com a história da cirurgia? Aprender melhor sobre a própria medicina e cirurgia, o que, a propósito, pode ser muito novo e interessante porque, parafraseando o ex-presidente americano Harry Truman,  "a única coisa nova que existe é a história que não lemos ainda".

#historiadacirurgia #historiadamedicina

HISTÓRIA DA RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE: COLÓQUIO COM A TURMA 110/MED/UFPB

Este vídeo contem a nossa telerreunião sobre a história da relação médico-paciente com a turma 110 do curso de graduação em medicina da UFPB. Narrativas visuais, como quadrinhos e animações, estão sendo cada vez mais usadas como uma ferramenta para a educação e comunicação nos estudos universitários. Combinando os benefícios da visualização com metáforas poderosas e narrativas baseadas em personagens, os quadrinhos têm o potencial de tornar os assuntos acadêmicos mais acessíveis e envolventes para os alunos e para um público mais amplo.

A relação médico-paciente passou por mudanças importantes ao longo dos tempos. Antes dos últimos 40 anos, a relação era predominantemente entre um paciente em busca de ajuda e um médico cujas decisões eram obedecidas de forma passiva pelo paciente. Mas nas últimas décadas, surgiu um grande número de publicações dedicadas à necessidade de mudança na relação médico-paciente. Hoje, estamos vivendo uma transição do paradigma a partir do modelo biomédico para um modelo clínico centrado na pessoa.

O modelo mais tradicional da relação médico-paciente tem sido chamado de relação "centralizada no médico" ou "centralizada na doença", caracterizando uma relação que tende a ser mais autoritária, na qual o paciente e suas necessidades têm papel passivo e o médico passa a ser o detentor de toda a expertise e conhecimento. Antigamente, o nível educacional das pessoas em geral era relativamente baixo e o conhecimento sobre saúde era muito limitado entre os pacientes, que dependiam da autoridade profissional dos médicos.

Mas houve uma mudança no que é considerado o modelo ideal de relação entre profissionais de saúde e pacientes. Modelos paternalistas tem sido substituídos por modelos nos quais mais ênfase é colocada no respeito à liberdade do paciente e no compartilhamento da tomada de decisões, os médicos devem se envolver no conhecimento da influência dos valores, objetivos e decisões do paciente.

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29 de outubro de 2020

CURSOS LIVRES SOBRE DIVERSIDADE NA SAÚDE: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

Rilva Lopes de Sousa Muñoz

Dois cursos livres dos semestres suplementares ministrados pelo Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) foram fundamentados em pressupostos das teorias críticas, do estigma social, preconceito e discriminação racial, da deficiência e da interseccionalidade. Esses cursos, denominados “Estigma e Discriminação na Atenção à Saúde” e “Diversidade Cultural e Étnica na Medicina” possibilitaram discussões reflexivas sobre o preconceito, a discriminação e o estigma na área da saúde. Foram definidos os objetivos instrucionais e as competências e habilidades para o curso, sendo possível aprender por meio de metodologias ativas que o profissional deve ser capaz de lidar com a diversidade humana e diferentes culturas, de modo que populações minoritárias sejam tratadas com dignidade e respeito nos serviços de saúde. 

Os cursos forneceram uma introdução ao estudo da diversidade na saúde, como cursos-piloto para introdução da disciplina de “Diversidade Cultural e Étnica na Medicina” do novo currículo como disciplina da grade nuclear enfocando, de forma crítico-reflexiva, as características da discriminação no trabalho em saúde e formas de se evitar o estigma por meio de palavras e ações nesse contexto. Os conteúdos voltaram-se às principais ideias das teorias críticas clássicas e contemporâneas e à análise crítica e argumentação empregadas em teorias críticas que conduzem ao raciocínio geral e analítico.

A teoria crítica é uma teoria social orientada para criticar e mudar a sociedade como um todo, contrapondo-se à teoria tradicional, que se concentra apenas em compreender ou explicar a sociedade. As teorias críticas visam cavar abaixo da superfície da vida social e descobrir os pressupostos que impedem os seres humanos de uma compreensão plena e verdadeira de como o mundo funciona. A teoria crítica emergiu da tradição marxista e foi desenvolvida por um grupo de sociólogos da Universidade de Frankfurt, na Alemanha, que se autodenominava  Escola de Frankfurt.

Se a sociologia é o estudo sistemático do comportamento humano na sociedade, a sociologia médica é o estudo sistemático de como os humanos lidam com questões de saúde e doença, doença e distúrbios, e cuidados de saúde para os doentes e saudáveis. Os sociólogos médicos estudam os componentes físicos, mentais e sociais da saúde e da doença. Os principais tópicos para sociólogos médicos incluem a relação médico-paciente, a estrutura e a economia e sociologia dos cuidados de saúde e como a cultura impacta as atitudes em relação à doença e ao bem-estar (LITTLE, 2016).

Nossa cultura, não nossa biologia, dita quais doenças são estigmatizadas e quais não são, quais são consideradas deficiências e quais não são, e quais são consideradas contestáveis ​​(o que significa que alguns profissionais médicos podem achar a existência desta doença questionável) em oposição a doenças que são inquestionavelmente reconhecidas no modelo biomédico.

Por exemplo, o sociólogo Erving Goffman (1963) descreveu como os estigmas sociais impedem os indivíduos de se integrarem totalmente à sociedade. A estigmatização da doença geralmente tem o maior efeito sobre o paciente e o tipo de cuidado que ele recebe. Muitos afirmam que nossa sociedade e até mesmo nossas instituições de saúde discriminam certas doenças - como transtornos mentais, AIDS, doenças venéreas e doenças de pele. As instalações para essas doenças podem ser insatisfatórias; eles podem ser segregados de outras áreas de saúde ou relegados a um ambiente mais pobre. O estigma pode impedir as pessoas de buscarem ajuda para a doença, tornando-a pior do que deveria ser.

A teoria crítica, como é conhecida hoje, pode ser rastreada até as críticas de Marx à economia e à sociedade. É grandemente inspirado pela formulação teórica de Marx da relação entre base econômica e superestrutura ideológica e concentra-se em como o poder e a dominação operam. Seguindo os passos críticos de Marx, o húngaro György Lukács e o italiano Antonio Gramsci desenvolveram teorias que exploravam os lados culturais e ideológicos do poder e da dominação. Tanto Lukács quanto Gramsci centraram sua crítica nas forças sociais que impedem as pessoas de compreender como o poder afeta suas vidas (CROSSMAN 2020).

Pouco depois de Lukács e Gramsci publicarem suas ideias, o Instituto de Pesquisa Social foi fundado na Universidade de Frankfurt e a Escola de Teóricos Críticos de Frankfurt tomou forma. O trabalho dos membros da Escola de Frankfurt, incluindo Max Horkheimer, Theodor Adorno, Erich Fromm, Walter Benjamin, Jürgen Habermas e Herbert Marcuse, é considerado o núcleo da teoria crítica.

Como Lukács e Gramsci, esses teóricos enfocaram a ideologia e as forças culturais como facilitadores da dominação e barreiras à liberdade. A política contemporânea e as estruturas econômicas da época influenciaram muito seu pensamento e escrita, pois viveram durante o auge do nacional-socialismo. Isso incluiu a ascensão do regime nazista, o capitalismo de estado e a disseminação da cultura produzida em massa.

Textos associados à Escola de Frankfurt concentraram sua crítica na centralização do controle econômico, social e político que estava acontecendo ao seu redor. Os principais textos deste período incluem:

  • Teoria crítica e tradicional  (Horkheimer)
  • Dialética do Iluminismo  (Adorno e Horkheimer)
  • Conhecimento e interesses humanos  (Habermas)
  • A transformação estrutural da esfera pública  (Habermas)
  • Homem  unidimensional (Marcuse)
  • A Obra de Arte na Era da Reprodução Mecânica  (Benjamin)

Com o passar dos anos, muitos cientistas sociais e filósofos que ganharam destaque após a Escola de Frankfurt adotaram os objetivos e princípios da teoria crítica. Podemos reconhecer a teoria crítica hoje em muitas teorias e abordagens feministas das ciências sociais. Também é encontrada na teoria crítica racial, cultural, educacional, de gênero e teoria Queer, bem como na teoria da mídia e estudos de mídia. 

A teoria crítica abrange teorias como o marxismo, o estruturalismo, a desconstrução, o feminismo e a teoria pós-colonial. As teorias críticas do marxismo e do feminismo pressupõem que o que os cientistas políticos precisam enfocar as relações de classe e/ou gênero que moldam a política. Para os marxistas, as desigualdades de classe nas sociedades capitalistas permitem que aqueles que possuem e controlam o capital produtivo exerçam poder político sobre a classe maior de trabalhadores que não o possui. Para as feministas, a política é dominada por interesses masculinos, em detrimento dos interesses das mulheres. 

As teorias críticas proporcionam a introdução ao estudo das disparidades sociais na saúde nos processos formativos na área e podem explicar a complexa interação de estruturas sociais, relações de poder e experiências, tanto das pessoas que buscam o sistema de saúde quanto dos profissionais de saúde. 

Referências

Crossman A. Understanding Critical Theory. ThoughtCo, 2020,Disponível em: https://www.thoughtco.com/critical-theory-3026623

Little W. Introduction to Sociology. Health and Medicine. Quebec: Press Books, 2016

26 de outubro de 2020

PANDEMIAS: LEITURA COLETIVA COM A TURMA 110/CCM/UFPB


A atividade de hoje no semestre suplementar da disciplina de História da Medicina e da Bioética foi a leitura coletiva de 10 capítulos do livro "Pandemias: A Humanidade em Risco", do infectologista brasileiro Stefan Cunha Ujvari. Cada capítulo foi sintetizado e apresentado por um dos grupos da turma 110 de graduação em medicina da UFPB.

Nas palavras de Ujvari (2011, p. 23), "Uma nova epidemia semelhante à SARS pode estourar a qualquer momento, com a mesma disseminação e letalidade". Esta nova epidemia eclodiu nove anos depois da publicação do seu livro, e 16 anos após a epidemia de SARS de 2003.

Referência bibliográfica: Ujvari SC. Pandemias: A Humanidade em Risco. São Paulo: Contexto, 2011.

#pandemias #SARS #humanidadeemrisco #Ujvari #livro #leituracoletiva #historiadamedicina #UFPB

22 de outubro de 2020

DOCENTES NA CRISE DA PANDEMIA E O DESAFIO DO ENSINO REMOTO


Rilva Lopes de Sousa Muñoz

O problema colocado pelo professor convidado para uma atividade de Aprendizagem Baseada em Problemas em um curso promovido pela Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas da Universidade Federal da Paraíba na semana passada foi o dilema de voltar à sua prática de professor nas atividades presenciais no pós-pandemia.

Ele não destacou que o problema mais crítico já foi enfrentado por todos nós. 

Nós nos aventuramos na educação virtual pela primeira vez por causa da COVID-19 e temos estado online com o tipo de cursos imersivos tentando prover o nosso melhor. Mas grande parte da instrução remota que muitos professores experimentaram fora da sala de aula física oferecerão a seus alunos não será nada mais do que aulas por videoconferência complementadas por atividades de sala de aula invertida, ferramentas de gamificação e discussão assíncrona em fóruns no sistema SIGA-A ou no Moodle Classes.

É isso levanta que toneladas de questões, desde como os professores e universidade tratam as avaliações dos alunos até como as instituições tratam as avaliações dos professores pelos alunos. Penso que uma questão mais fundamental que a volta às atividades presencial (excetuando a questão sanitária se não houver como obter uma vacinação eficaz) é a seguinte: a exposição forçada e a experimentação com várias formas de aprendizagem habilitada pela tecnologia levarão professores e alunos a ver a educação online de forma mais favorável - ou menos favorável? Para mim, essa é a real questão.

Que impacto essa imersão emergencial no ensino on-line/modo à distância adaptado de nossa universidade e muitas instituições pode ter sobre a confiança do corpo docente e dos alunos no aprendizado mediado pela tecnologia? Acreditamos que o resultado final (reconhecendo que pode levar algum tempo até que possamos julgar) será mais professores acreditando na qualidade do aprendizado on-line e querendo incorporar o melhor do que pode fazer em seu ensino, uma área cinzenta na distinção entre on-line e presencial e um fechamento da lacuna de qualidade percebida por todos nós? Será que isso poderia produzir maior ceticismo sobre a eficácia do aprendizado habilitado pela tecnologia, seja porque a experiência para instrutores e alunos não atingiu a maior parte dos docentes sem literácia para ensino remoto? A nossa instituição tem preparado seus professores para ensinar nessas novas formas, mas alguns cursos são bons, como este de “Metodologias ColaborATIVAS”, enquanto outros estão no limite do mecanicismo.

Portanto, o desafio não será a volta ao ensino presencial (ou híbrido), como postulou o professor convidado. O dilema é o que estamos passando agora e passamos desde março deste ano de 2020. O dilema foi patente quando fomos encarregados de desenvolver o plano para colocar o ensino on-line imediatamente em um semestre suplementar e depois mais outro. Muitos professores estão exaustos porque seus recursos estão muito aquém da necessidade. Há colegas que não suportam mais esta sucessão de semestres suplementares remotos. Há alguns que também estão entusiasmados porque é sua experiência que torna esse pivô possível. Os gestores da nossa universidade devem reconhecer a experiência de suas próprias unidades on-line e apoiá-las para que um tempo pessoalmente opressor não se torne uma crise profissional.

As unidades do campus que oferecem suporte à educação on-line costumam ter recursos insuficientes nos melhores momentos, sem o investimento institucional necessário para alcançar uma educação remota de qualidade. A resposta da COVID-19 torna isso pior, não melhor. Designers instrucionais e professores on-line são profissionais que se destacam em um momento que destaca a expertise que trazem, sabendo que seu tempo, energia e talento podem fazer toda a diferença para seus alunos e para nós, os professores que fomos colocados pela natureza nessa situação inusitada. Uma dessas instrutores é a Professora Carol Kruta. O curso ao qual me referi foi diferente dos demais, dialógico e dinâmico.

Sempre existe uma chance de que alguns professores que resistem em usar a tecnologia para facilitar seu ensino tenham mais probabilidade de abraçar suas práticas de ensino mais recentes após a pandemia. Mas isso não representa um dilema, pelo contrário. É uma oportunidade que resultou do enfrentamento da crise. Este será um resultado mais provável se a universidade estiver vigilante em ajudar o corpo docente a aprender e usar ativamente as ferramentas de tecnologia educacional disponíveis para auxiliar os alunos a terem sucesso em seus cursos. Será importante para as instituições incentivar os alunos a compartilharem seus comentários semanalmente sobre as experiências de aprendizagem que seus instrutores estão moldando para eles usando a tecnologia. Esse é outro dilema real que se apresenta. Quando o corpo docente pode colocar seus egos de ensino de lado e usar feedback negativo do aluno para melhorar suas práticas de ensino remoto, os alunos se beneficiarão e, com sorte, o corpo docente também, porque aprenderão a melhor forma de atender às necessidades de aprendizagem de seus alunos.

Tenho pensado muito sobre isso e me perguntado se chegamos ao ponto de inflexão em que a tecnologia realmente seja realmente incorporada em nossas abordagens educacionais como o o que estão prevendo ser o “novo normal”. Essa crise mostrou que o ensino on-line realmente tem um potencial inexplorado para apoiar o desempenho dos alunos e ajudar os gestores da instituição a  resolver a lacuna de competências. Eu tenho essa visão em que o on-line ajuda as escolas a serem mais flexíveis de várias maneiras. Mas isso acontecerá após passada essa fase que estamos vivenciando. Haverá novas formas de trabalhar. Isso não é um dilema. É um desafio.

Parece que estamos nos movendo em direção ao aprendizado híbrido. A menos que todos nós nos tornemos enclausurados por muito tempo, a crise da COVID-19 provavelmente acelerará esse processo. Para professores e líderes de campus, acredito que isso exigirá mais atenção aos fundamentos de um bom ensino e aprendizagem, bem como mais preparação para o ensino em ambientes on-line. As pessoas querem ver isso como um ponto de virada para a educação on-line - o momento de brilhar ou tropeçar. Em vez de ver isso, precisamos ver como uma oportunidade para as instituições se reorganizarem em torno de mais tecnologia, como uma chance de liderar com mais humanidade. A pedagogia deve sempre conduzir a tecnologia, nunca o contrário. Portanto, não há dilema pedagógico na volta ao presencial, seja de que modo ocorrer essa volta.

Minha opinião no grupo pequeno da telerreunião baseada na dinâmica de Aprendizagem Baseada em Problemas foi esta, mas foi voto vencido pois os colegas pareceram não considerar que contestar o problema colocado pelo professor convidado não seria confrontar, e sim colocar posições diversas. 

Imagem: ISTOCKPHOTO.COM/MARTINWIMMER

19 de outubro de 2020

HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA: COLÓQUIO ACADÊMICO DA TURMA 110/CCM/UFPB

A história da saúde pública é uma história da busca de meios para garantir a saúde e prevenir doenças na população. As doenças infecciosas epidêmicas e endêmicas estimularam o pensamento no sentido da prevenção de forma pragmática e da tentativa e erro, muitas vezes antes que as causas fossem estabelecidas cientificamente. Nós podemos visualizar por meio dos "olhos do passado" como as sociedades conceituaram e lidaram com as doenças epidêmicas ao longo do tempo. A necessidade de proteção organizada da saúde cresceu como parte do desenvolvimento da vida comunitária e da promoção da saúde, em meio ao processo de urbanização, industrialização, controle do Estado e reformas sociais. As preocupações com a saúde pública tiveram origem iluminista e associaram-se ao valor econômico da força de trabalho e a classe operária foi meio e não fim de ações sanitaristas. 

Este é um resumo da sala de aula invertida com a turma 110 de graduação em medicina da UFPB, terceiro período.

#saudepublica #historiadamedicina #ufpb #coloquiacademico


17 de outubro de 2020

INTUBAÇÃO OROTRAQUEAL EM PACIENTES COM COVID-19: DESCRITORES PARA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

 

Para fundamentar a elaboração de um checklist para curso de treinamento de estudantes de medicina do último ano de graduação no laboratório de habilidades clínicas do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba, no escopo de um projeto do Programa de Bolsas de Iniciação Científica da UFPB (2020-2021), realizou-se uma revisão bibliográfica. O projeto no qual se incluiu a elaboração do checklist tem como um dos objetivos a sua elaboração como material instrucional para aprimorar a habilidade dos estudantes em intubar em sequência rápida com menor tendência à produção de aerossóis no contexto epidêmico da COVID-19 e alcance de sucesso na primeira tentativa. 

O presente resumo apresenta a estratégia de busca empregada na revisão, que teve o objetivo de identificar artigos elegíveis publicados a partir de 1º de dezembro de 2019 a 30 de agosto de 2020, escritos em inglês, português ou espanhol. Este período refere-se à duração da pandemia de COVID-19 desde dezembro de 2019 até o momento da realização da revisão. Para a MEDLINE a consulta (incluindo os termos MeSH) foi baseada na busca por meio dos seguintes descritores: "Containment of Biohazards" [Todos os campos] AND "Intubation, Intratracheal" [Termos MeSH] AND "COVID-19" [Todos os campos]. Para a BVS, estes descritores usados foram os mesmos em inglês, e seus equivalentes no Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) em português e espanhol.

Os critérios de inclusão foram publicações em periódicos que utilizassem revisão por pares duplo-cega, publicados entre dezembro de 2019 a agosto de 2020, na língua portuguesa, espanhola ou inglesa, que abordassem intubação intratraqueal e biossegurança no contexto da COVID-19. Os critérios de exclusão foram revisões narrativas, editoriais e resumos simples ou expandidos. 

Foram encontradas 362 publicações, cujos títulos foram lidos, o que resultou na eliminação de 239. Após leitura do resumo,  91 foram foram excluídos. Em seguida, após leitura na íntegra de 32 publicações, foram selecionados sete artigos, para fundamentar o checklist a ser proposto.

14 de outubro de 2020

NOÇÕES DE ESTATÍSTICA INFERENCIAL - PARTE 2 (Tópico 3)

Este vídeo contém a continuação (Tópico 3) de exposição sobre TESTES DE HIPÓTESES ESTATÍSTICAS.
Tópico 1: disponível em https://youtu.be/fAiW98Vh98M
Tópico 2: disponível em https://youtu.be/ot7j4sSNeUM
#estatisticainferencial #testesdehipoteses #erroamostral #errosistematico #curvanormalreduzida #nivelsignificancia #valorescriticos #curvanormalpadronizada

13 de outubro de 2020

NOÇÕES DE ESTATÍSTICA INFERENCIAL - PARTE 2 (Tópico 2)

Este vídeo contém a continuação (Tópico 2) de exposição sobre TESTES DE HIPÓTESES ESTATÍSTICAS.
Tópico 1: disponível em: https://youtu.be/fAiW98Vh98M
#estatisticainferencial #testesdehipoteses #erroamostral #errosistematico #curvanormalreduzida #niveldesignificancia #valorescriticos #curvanormalpadronizada

10 de outubro de 2020

NOÇÕES DE ESTATÍSTICA INFERENCIAL - PARTE 2 (Tópico 1)

Este vídeo corresponde à Parte 2 da apresentação sobre Noções de Estatística Inferencial, postado aqui neste canal há mais de um ano. Contudo, é o tópico 1 da Parte 2, pois esta exposição sobre testes de hipóteses ainda continua em vídeo posterior.

A estatística inferencial é frequentemente usada para comparar as diferenças entre os grupos de uma pesquisa observacional analítico ou experimental, a partir de estimativas obtidas em uma amostra de unidades observacionais para comparar os grupos em estudo, generalizando os resultados para a população de onde foi retirada a amostra avaliada.

Existem muitos tipos de testes estatísticos e cada um é mais apropriado para cada projeto de pesquisa e características de amostra específicos.

#estatisticainferencial #testesdehipoteses


4 de outubro de 2020

MAPAS CONCEITUAIS E APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA


 Rilva Lopes de Sousa Muñoz

Este foi o mapa conceitual que elaborei como aluna do curso de capacitação “Uso de Metodologias Colaborativas em Momentos Síncronos e Assíncronos de Aprendizagem, da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progep), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A atividade consistiu em construir individualmente um mapa conceitual a partir do texto " Mapas conceituais e Aprendizagem Significativa", de Marco Antônio Moreira, do Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ou seja, a atividade foi elaborar um mapa conceitual sobre mapas conceituais.

A criação de mapas conceituais pode ser feita manualmente. No entanto, o processo muitas vezes envolve a movimentação de conceitos, o que pode exigir bastante apagamento. Pode-se também usar pequenas notas Post-it® em uma folha de papel em branco, com notas de cores diferentes para ajudar a identificar cada nível hierárquico, com setas desenhadas à mão indicando as relações entre os conceitos. Esta alternativa pode ainda envolver algum apagamento, mas não tanto, e quando o aluno estiver satisfeito com seu mapa, pode copiá-lo para uma cartolina, tarjeta ou bloco de notas, ou mesmo no PowerPoint. Contudo, é melhor usar um aplicativo projetado especificamente para elaboração de mapas conceituais. A tutora do curso que estou fazendo pela Progep/UFPB recomendou o uso do CMap Tools, disponível neste link: https://cmap.ihmc.us/cmaptools/.

Um mapa conceitual é um dispositivo visual usado para análise e planejamento estratégico. Embora as palavras “conceito” e “mapa” sejam frequentemente usadas, usá-las juntas se refere a recurso específico de ensino-aprendizagem. Um “conceito” é uma ideia ou plano, e um “mapa” é uma visão geral simplificada de um território complexo. Um “mapa” de conceito é uma visão geral esquemática das ideias-chave associadas a um determinado tópico, que indica como as ideias se relacionam entre si.

O mapa conceitual é uma técnica de aprendizagem expressa como uma representação gráfica, um diagrama, e cuja estrutura é organizada e geralmente hierarquizada, explicitando relações entre conceitos, imersos em uma rede de proposições com um sentido a ser compreendido (TAVARES, 2007).

O primeiro passo para gerar os conceitos mais importantes de um conteúdo se dá por meio da técnica da tempestade de ideias (brainstorm). Nesta, os aprendentes escrevem conceitos para gerar uma lista, selecionando os que são mais relevantes e inserindo-os em cartões ou tarjetas, para poder trabalhar com eles, organizando-os e distribuindo-os em um quadro ou cartolina, se for feito manualmente, ou de modo automatizado, ou por meio de um software. Em seguida, agrupam-se os conceitos mais próximos entre si, de forma hierarquizada (de preferência), indo do mais geral para os mais específicos.

A suposição de mapas conceituais é de que a "jornada" realizada ao se criar um um conceito implica importância igual ou maior que o produto (“destino”) em que se chega. O processo de criação de um mapa conceitual (por exemplo, interpretação de conceitos, estabelecimento de conexões, manipulação de arranjos, proposição de ligações cruzadas) e o tipo de aprendizagem que promove é o que distingue o mapa conceitual como prática educacional de outros métodos que podem promover a cognição de ordem inferior e a aprendizagem mecânica.

A teoria subjacente ao mapeamento conceitual é a teoria cognitiva de aprendizagem significativa de David Ausubel (2003). A aprendizagem significativa é baseada em mais do que aquilo que os professores transmitem; promove a construção do conhecimento a partir da experiência, dos sentimentos e das trocas dos alunos com outros alunos. Esta visão educacional é baseada na abordagem construtivista da aprendizagem e na abordagem da aprendizagem cooperativa (SHARAN, 2015).

Pesquisadores e profissionais em vários países e ambientes buscam maneiras de incorporar essas abordagens para criar uma aprendizagem significativa na sala de aula multicultural e na sala de aula de aprendizagem cooperativa. Do ponto de vista cognitivo, a aprendizagem significativa é frequentemente entendida em termos do desenvolvimento cognitivo e das mudanças na estrutura cognitiva do aluno que ocorrem quando o conhecimento sendo aprendido é relevante para o conhecimento existente do aluno e compartilha conceitos e aspectos significativos com esse conhecimento.

Em relação ao mapa conceitual, a aprendizagem é dita significativa quando uma nova informação (conceito, ideia, proposição) adquire significados para o aprendente através de uma espécie de ancoragens em aspectos relevantes da estrutura cognitiva preexistente do indivíduo, isto é, em conceitos, ideias, proposições já existentes em sua estrutura de conhecimentos ou de significados (MOREIRA, 2011).

As experiências de aprendizagem tornam-se significativas por meio de processos reflexivos. Por meio da reflexão, qualquer situação em que os alunos-professores sejam capazes de aprofundar, analisar e concentrar seu pensamento tem o potencial de se tornar uma experiência de aprendizagem significativa (KOSTIAINEN; PÖYSÄ-TARHONEN, 2019). Por meio da reflexão, os alunos podem construir e reconstruir a relação entre a aprendizagem e eles próprios e, dessa forma, compreender melhor o que sua experiência de aprendizagem significa para eles. A relevância pedagógica da reflexão está enraizada na variedade de pontos de vista que podem ser explorados. Sem reflexão, práticas problemáticas que os alunos professores podem encontrar correm o risco de se tornarem simplificadas e rotinizadas, que nem sempre são aparentes para nós, mas muitas vezes estão implícitas em nossas ações. Assim, os processos reflexivos auxiliam o aluno-professor a tomar consciência e a enfrentar os pressupostos subjacentes às suas ações.

Referências

Kostiainen E., Pöysä-Tarhonen J. Meaningful Learning in Teacher Education, Characteristics of. In: Peters M. (eds) Encyclopedia of Teacher Education. Springer, Singapore, 2019.

Moreira MA. Aprendizagem significativa: a teoria e texto complementares. São Paulo: Livraria da Física, 2011.

Sharan Y. Meaningful Learning in the Co-operative Classroom. 2015, Education 3-13:  International Journal of Primary, Elementary and Early Years Education,  43 (1): 83-94. London: Taylor & Francis.

Tavares R. Construindo mapas conceituais. Ciências & Cognição [Online] 2007; 12: 72-85. Disponível em: http://www.cienciasecognicao.org/revista/index.php/cec/article/view/641.

A CONTROVERSA ORIGEM DA SÍFILIS


De contagione et contagiosis morbis et curatione, de Girolamo Fracastoro. 3a. edição. Veneza: Giunta, 1584. Folha de rosto.

Primeira página de texto do poema Syphilis, sive Morbus gallicus - Biblioteca da Universidade de Glasgow

A origem da sífilis ainda é um tópico de debate e pesquisa. Historiadores e  estudiosos da História da Medicina consideravam até o início do século passado como uma infecção levada da América para a Europa pelos navegantes das naus de Cristóvão Colombo. Recentemente, entretanto, paleontólogos encontraram possíveis evidências de que a doença já existia no “Velho Mundo” antes do intercâmbio de Colombo. Isso tem sido contestado por outros pesquisadores, mas  parece que ainda ainda é mais provável que Colombo tenha levado a sífilis para o “Velho Mundo”.

O nome da doença, "sífilis", originou-se de um poema épico em latim “Syphilis, sive morbus gallicus” (“Sífilis, a doença francesa”), publicado em 1530 por Girolamo Fracastoro, médico, poeta e matemático de Verona, na República de Veneza, que em sua obra “De contagione et contagiosis morbis” (“Sobre o Contágio e as Doenças Contagiosas e sua Cura”) descreveu pela primeira vez o tifo e escreveu sobre o contágio, em que partículas contagiosas podiam se multiplicar no corpo humano e passar de pessoa a pessoa diretamente ou pela mediação de fômites, produzindo muitas doenças epidêmicas. Ele definiu o contágio como sendo um tipo de infecção, que passava de um indivíduo para outro, por intermédio de seres vivos que se reproduziam, denominando tais seres de seminaria contagionum (sementes de contágio), implicando-os nos modos de transmissão das doenças infecciosas (MARTINS, 1997).

Fracastoro estudou medicina, literatura, filosofia e outras disciplinas na Universidade de Pádua e recebeu seu diploma de médico em 1502. Ele então serviu como instrutor de lógica e anatomia na universidade por cerca de seis anos antes de retornar para sua casa em Verona, onde praticou medicina por duas décadas. Na história da epidemiologia, ele é reconhecido por seu De contagione et contagiosis morbis et curatione, publicado pela primeira vez em Veneza em 1546. Fracastoro parece ter fundido os escritos do historiador Gonzalo Hernandez de Oviedo y Valdez com uma fábula “Metamorfoses” do poeta romano Ovídio. Em seu poema “Syphilis, sive morbus gallicus”, Fracastoro conta a história de um pastor mítico chamado Syphilus (Sífilo) que mantinha os rebanhos do Rei Alcithous. Quando uma seca afetou o povo de Sífilo, ele teria blasfemado contra o deus Sol e culpando-o pela seca, recebendo como punição uma nova doença, a sífilis (IOMMI-ECHEVERRÍA, 2010). Lima (2003) afirma, no capítulo 6 de seu livro "História da Medicina: Um Guia Prático e Bem-Humorado" que o Syphilus do poema de Fracastoro era um pastor mítico "pervertido" e por isso fora castigado com a doença e a transmitiu a outras pessoas.

A publicação da primeira edição desse livro ocorreu em 1530, poucas décadas após o surgimento da doença na Europa, e foi nessa obra que Fracastoro introduziu o nome da enfermidade: Syphilis, sive Morbus Gallicus ("Sífilis, a doença francesa"). Este livro peculiar tem um estilo pouco comum em obras médicas: é escrito em versos, aparentemente inspirado na obra de Lucretius, "De rerum natura", também em versos.

Os versos do poema em que Fracastoro se refere a nomear a doença após Sífilo são (segundo tradução de Frith, 2012):

Um pastor uma vez (não desconfie da fama antiga)

Possua essas penas, e Sífilo é seu nome.

Ele primeiro se vestiu de bubões terríveis à vista.

Sentiu dores estranhas e sem dormir passou a noite.

Dele a doença recebeu seu nome.

Os pastores vizinhos pegaram a chama que se espalhava

Durante a década de 1520, ficou claro para historiadores e médicos da época que a doença foi contraída e disseminada por meio de contatos sexuais. Na Europa, as autoridades ficaram tão preocupadas com o aumento da doença que tentaram controlar a prostituição e as relações sexuais fora do casamento. Henrique VIII da Inglaterra (rei entre 1509 e 1547) tentou fechar os prostíbulos e os balneários de Londres. Em muitos outros lugares, regulamentações estritas foram emitidas para bordéis e casas de banhos, forçando as profissionais do sexo que tinham doenças ou infecções a deixarem de trabalhar, e banhos mistos foram proibidos.

Escritores e médicos dos séculos 16 e 17 estavam divididos sobre os aspectos morais da sífilis. Alguns pensaram que era um castigo divino pelo pecado e, como tal, apenas tratamentos mágico-religiosos o curariam, ou que as pessoas com sífilis não deveriam ser tratadas. O filósofo holandês Erasmo de Rotterdam (1465-1536) batizou-a de “a nova peste” (LIMA, 2003). Em 1673, Thomas Sydenham, um médico britânico, escreveu uma visão oposta de que o aspecto moral da sífilis não era da competência do médico, que deveria tratar todas as pessoas sem julgamento (FRITH, 2012).

A hipótese colombiana de que a sífilis foi trazida da América para a Europa em 1492 foi reafirmada nas décadas de 1950 e 1960 por vários historiadores e médicos, uma vez que Fernandez de Oviedo y Valdes e Bartolome de las Casas foram testemunhas oculares das condições em Hispaniola quando Colombo estava lá e ambos consideraram que foram os tripulantes dos navios de Colombo que levaram a doença quando voltaram das Antilhas para a Europa.

Por outro lado, a teoria pré-colombiana surgiu no início do século XX, e que a epidemia de Nápoles teria sido por febre tifoide ou paratifoide. A hipótese de que a sífilis estava presente na Europa antes do retorno de Colombo da Hispaniola foi apoiada pelos fatos de que muitas obras literárias e éditos religiosos se referiam à sífilis antes do cerco de Nápoles de 1495, e também que o tratamento com mercúrio tinha sido usado desde o século 12 para uma diversidade de doenças infecciosas que possivelmente eram sífilis.

Vários historiadores médicos no último século postularam outras razões para a sífilis ser uma doença do “Velho Mundo” pré-colombiana - um maior reconhecimento leigo e médico da sífilis desenvolvido em eras recentes, e que a sífilis evoluiu de outras doenças treponemais para uma forma mais virulenta devido a uma combinação de mudanças sociais, culturais e ambientais na época de Colombo. Nas últimas décadas, o desenvolvimento da paleopatologia permitiu uma avaliação cuidadosa dos esqueletos do Velho Mundo e muitos estudos publicaram seus achados de evidências de doença óssea sifilítica, porém estudos paleopatológicos recentes apontaram as dificuldades em distinguir a sífilis de outras doenças que tinham sintomas semelhantes e deixaram cicatrizes ósseas semelhantes, como hanseníase, osteomielite, osteoartropatia hipertrófica e histiocitose (FRITH, 2012).

Fracastoro não associou a sífilis ao contato sexual. Como a enfermidade viria pelo ar, ele sugeriu vários cuidados para se proteger dela, tais como exposição ao ar puro, fugir dos ventos quentes e dos lugares lamacentos ou pantanosos, viver no cambo aberto onde o ar é sempre renovado pelos ventos.

Logo após o aparecimento da sífilis, os médicos experimentaram muitos remédios e descobriram que o mercúrio, embora sendo uma substância venenosa, poderia curar essa doença. Fracastoro sugere várias explicações para a eficácia do mercúrio e  recomenda misturar o mercúrio com várias outras substâncias, quase todas elas de cheiro desagradável. A pessoa deveria cobrir todo o corpo com esse unguento e depois ficar coberto até transpirar intensamente. 

Fracastoro desenvolveu uma interpretação da sífilis que acomodava tanto os fatos observados quanto os elementos fundamentais da tradição médica da época, mas não se afastou dos princípios explicativos hipocráticos. É justamente a partir dessas características da explicação médica renascentista que se acredita que Fracastoro desenvolveu uma definição ampla da doença (FRITH, 2012; MARTINS 1997).

Existem duas teorias sobre as origens da sífilis venérea. Na primeira, conhecido como "hipótese colombiana" afirma-se que a doença originou-se na América e foi espalhado em 1493 por Cristóvão Colombo e sua tripulação, que a adquiriu dos nativos de Hispaniola (Ilha de São Domingos, nas Antilhas, a sudeste de Cuba, hoje pertencente à República Dominicana e ao Haiti) e a enfermidade seria transmitida por meio do contato sexual. Ao retornar à Espanha, alguns desses homens se juntaram à campanha militar de Carlos VIII da França, que sitiou Nápoles em 1495. Soldados acampados teriam exposto as populações locais de profissionais do sexo, o que ampliou a transmissão da doença. Mercenários infectados e em extinção espalharam a doença por toda a Europa quando eles voltaram para casa. Cinco anos depois de sua chegada, a doença se converteu em uma epidemia na Europa. Pela segunda teoria, ou "hipótese pré-colombiana", acredita-se que a doença sempre existiu na Europa, e o fato de que não havia casos relatados da doença anteriormente à década de 1490 seria porque antes dessa época não havia se diferenciado clinicamente. 

Frutuoso (2013) destaca que “a sífilis era a doença do outro, do estrangeiro”. Para os franceses, a sífilis era o “mal napolitano”, para os italianos, era o “mal dos franceses” ou “mal gálico”, os poloneses consideravam como a “doença dos alemães”. Os russos tinham temor da “doença dos poloneses” e os holandeses referiam como “doença espanhola”. Os turcos chamavam de “doença dos cristãos”. 

 

Referências

Frith J. Syphilis: Its early history and Treatment until Penicillin and the Debate on its Origins. Journal of Military and Veterans’ Health  2012; 20 (4): 49-58.

Frutuoso RAM. A História da Sífilis Na Marinha do Brasil. Arq. Bras. Med. Naval, Rio de Janeiro, 2013; 74 (1): 8 -14

Iommi-Echeverría V. Girolamo Fracastoro y la invención de la sífilis. História, Ciências, Saúde-Manguinhos 2010; 17(4), 877-884.

Lima DR. História da Medicina: Um Guia Prático e Bem-Humorado. Rio de Janeiro: Medsi, 2003.

Martins RA, Martins LAP, Ferreira RR, Toledo MCF. Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis. São Paulo: Moderna, 1997. Cap. 6. Do Período das Grandes Descobertas ao Século XVIII [Online] Disponível em: http://www.ghtc.usp.br/Contagio/cap06.html 

1 de outubro de 2020

ENTENDENDO O PROCESSO DE RACIOCÍNIO CLÍNICO – PARTE 5

Esta é a quinta parte da série “Entendendo o Processo de Raciocínio Clínico” do curso suplementar do Departamento de Medicina Interna/CCM/UFPB "Módulo Integrativo de Fisiopatologia e Raciocínio Clínico"
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Parte 1: disponível em  https://youtu.be/PLGoixcLqiI
Parte 2: disponível em https://youtu.be/1gZk1VbSuw4
Parte 3: disponível em: https://youtu.be/MiwURsIEBwI
Parte 4: disponível em: https://youtu.be/q1QdBGfZx3I


29 de setembro de 2020

AIDS: AS TRÊS EPIDEMIAS

O HIV/AIDS é um dos desafios à vida e à dignidade humanas. Desde o início da epidemia, o estigma e a discriminação relacionados ao HIV/AIDS prejudicaram as pessoas com HIV e impediram os esforços de prevenção e educação em saúde. Esse estigma é invocado como um problema persistente em qualquer discussão sobre respostas efetivas à epidemia. Além de devastar a vida familiar, social e econômica dos indivíduos, o estigma de HIV/AIDS é citado como uma grande barreira ao acesso aos serviços de saúde, tanto na prevenção da doença e na promoção da saúde, quanto na assistência.
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28 de setembro de 2020

COLÓQUIO SOBRE HISTÓRIA DA MEDICINA NA IDADE MÉDIA COM A TURMA 110 DO CC...


A Idade Média ainda é geralmente conhecida como "Idade das Trevas", principalmente na área das Ciências da Saúde. Nas últimas décadas, essa visão da Idade Média vem mudando gradativamente com o avanço dos estudos historiográficos e da história da ciência.
Enquanto os antigos egípcios, gregos e romanos impulsionaram o conhecimento médico, após o desaparecimento dessas civilizações, o ímpeto iniciado na Antiguidade tendeu a estagnar e não se desenvolveu no mesmo ritmo até os séculos XVII/XVIII. A queda do Império Romano teve como uma da consequências que muitas de suas práticas de higiene pública logo foram perdidas. A Idade Média na Europa viu a maioria das pessoas sem acesso a água potável, banho regular ou sistemas de esgoto. Isso significava que as condições de saúde eram muitas vezes piores que durante a ocupação romana dos séculos anteriores. A maioria das pessoas era agricultora e a alimentação era escassa. A fome e as doenças estiveram presentes durante grande parte desses mil anos medievais.
O aparecimento e desenvolvimento da religião cristã é um fator extremamente relevante na História da Medicina, e sua posição era hegemônica influenciando a forma como se pensava que as doenças eram um castigo de Deus por comportamentos pecaminosos. A medicina medieval era muito limitada e os médicos não tinham uma ideia científica do que causava as enfermidades.

CONTRIBUIÇÕES DE OUTROS INTEGRANTES DA COMUNIDADE COLABORATIVA DE APRENDIZAGEM - TURMA 109/CCM/UFPB

Após a leitura dos textos muito enriquecedores pude perceber como o pensamento religioso acabou "atrasando" o progresso do conhecimento médico e também acabou culminando com a perda de muitos conhecimentos que foram acumulados ao longo da idade antiga. Uma grande representação de como a medicina era feita na época se dá através do filme "O Físico", em que no início do filme o protagonista atua como barbeiro na Inglaterra e notamos rapidamente que era um conhecimento empírico e que os barbeiros não possuíam noções básicas de anatomia, como por exemplo quais órgãos ocupavam a cavidade abdominal. Além disso, eles atuavam como nômades percorrendo várias cidades. Durante o filme ele decide ir a uma escola de medicina localizada no mundo árabe para obter o conhecimento médico de forma mais científica, no seu trajeto ele tem que se disfarçar por judeu pois o simples fato de ele ser cristão fazia com que os árabes o impedissem de ir ao seu território, mostrando também como as barreiras religiosas impediam a troca do conhecimento entre as culturas.

GABRIEL ANGELO

 

Entre as diversas contribuições fundamentais dos meus colegas à discussão, decidi falar um pouco sobre um dos pontos que me chamou a atenção. Ele diz respeito ao costume de se isolar da sociedade os indivíduos que apresentavam lepra na Idade Média, os quais ficavam em leprosários. Eles chegavam a ter que usar apetrechos que anunciassem a sua chegada aos lugares. Reproduzo o seguinte trecho: “Considerava-se, particularmente em relação aos leprosos, que a mera proximidade destes doentes podia despertar a fúria divina, trazendo este castigo também para o incauto? Na contemporaneidade, essas crenças podem ser usadas para estigmatizar as pessoas que apresentam algumas doenças específicas. Por exemplo, na disciplina de Epidemiologia, assistimos a um filme chamado “E a vida continua...”, em que uma das cenas corresponde a um indivíduo dizendo que o HIV seria como uma punição de Deus aos indivíduos que o contraíam, pelo seu comportamento profano. Esse tipo de atitude tem, portanto, raízes históricas.

MARIA EDUARDA G.

 

Representações da Idade Média na Arte - O Nome da Rosa (Umberto Eco, 1980): As contribuições da aula criaram um cenário amplo, contemplando diversos aspectos positivos e negativos quanto à prática da medicina na Idade Média, bem como quanto a outras áreas do conhecimento, como a filosofia. Venho aqui, portanto, em uma tentativa de conciliar grande parte do que foi dito por meio de uma contextualização com o livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa (1980), e com o filme de mesmo nome. De antemão, alerto para o fato de o livro surgir como uma interpretação por parte do autor do que teria sido um contexto da Idade Média. Logo, não é um relato factual, e sim uma ficção com vieses históricos. A narrativa se passa em um mosteiro franciscano, no ano de 1327, que já corresponde à Baixa Idade Média. O mistério que a move - contado na perspectiva do noviço Adso - está nas inexplicáveis mortes dos monges que, apesar de não obviamente, estão relacionadas por um motivo único (spoilers): o desejo de um monge ancião de manter uma concepção que aceita o riso e a comédia como bons em segredo completo, guardando para si milhares de textos de grandes autores da antiguidade que contradizem sua visão de mundo em que o sofrimento leva à pureza de espírito e Deus, mas em especial um livro cujas páginas foram envenenadas de forma que todos que ousassem-no ler encontrariam um breve e trágico fim.  Apenas esse contexto já é gerador de uma discussão sobre um dos principais motivos pelos quais a Idade Média foi posteriormente interpretada como a Idade das Trevas: a detenção dos conhecimentos pelos letrados e pertencentes às ordens religiosas. Não mais eram discutidos tópicos como ética e política em praça pública (ágoras) como na antiguidade grega (que já era limitadora por permitir apenas a participação de cidadãos gregos), nem mesmo as missas eram rezadas em linguagem popular. A população servil e comum sobrevivia através da passagem geracional de conhecimentos e eventuais caridades, quando se trata da medicina. No entanto, vale mencionar que o trabalho de tradução de textos clássicos realizado pelos monges também foi ilustrado na trama, que foi um aspecto positivo na manutenção do conhecimento, apesar do grande problema de retenção, má-interpretação e perda de informações. Um outro momento que reflete o discutido pelos colegas, quanto à profunda associação entre o pecado e a doença, é observado quando um dos monges, ao interpretar seus pensamentos como pecaminosos, isola-se para se punir (automutilação) e em seguida se banha em ervas, de forma a limpar-se da influência de maus espíritos e evitar (e talvez antecipar de forma menos letal) o castigo divino. Esse tipo de atitude, em que feridas foram abertas em nome da purgação do pecado ou da loucura, abria mais uma rota para a disseminação de doenças. Mas não apenas nos atos vemos reflexos de um pensamento que tinha o doente como algo a ser evitado, pecaminoso, como também na arquitetura e organização do próprio mosteiro, uma vez que no mapa que é ilustrado no livro o hospital é colocado nas margens, isolado das áreas comuns de convivência.  Um outro aspecto comentado em aula está na condenação da personagem feminina que vivia próximo ao mosteiro, em condições de pobreza, como bruxa. Inclusive, o papel da mulher em sociedade é alvo de uma discussão no livro, que revela uma visão da mulher como recipiente de demônios, fruto de tentação, que se perpetua desde a história da expulsão de Adão e Eva do paraíso, ou mesmo de forma anterior a isso. Há uma grande contradição no período, uma vez que o uso de ervas por homens, sejam eles boticários, médicos, frades ou monges, era socialmente aceito, como visto em histórias como Romeu e Julieta ou mesmo quando na pandemia da peste bubônica médicos usavam ervas aromáticas em suas máscaras com formato de bico de corvo para prevenir o contato com os ares contaminados dos doentes, enquanto a mulher que fizesse uso de tais conhecimentos era rapidamente apontada, mesmo pelos membros da comunidade, como bruxa e condenada à fogueira. Por fim, cabe colocar um dos passos que contribuíram para a resolução do mistério na trama, que foi a inspeção dos cadáveres dos monges, que mesmo realizada de forma exterior - uma vez que a necropsia não era uma prática aceita no período, o que atrasou o desenvolvimento dos conhecimentos anatômicos - revelou a presença de marcas nos dedos e de língua negra pilosa, detalhes que apontaram para um envenenamento, em que a interação da substância com os tecidos deixou marcas, uma vez que os monges levavam os dedos à boca, molhando-os para passar as páginas dos livros. E com isso passeamos por diversos dos temas abordados, ficando registrada a indicação literária e cinematográfica. Deixo-os com o link do filme (disponível na mídia social YouTube por meio do link a seguir):

https://www.youtube.com/watch?v=s0cdAv4ZODE

NADIAJDA

 

Após a rica discussão iniciada na aula e estendida ao fórum, tentarei também trazer minha contribuição. Primeiramente, gostaria de retornar ao tópico da possibilidade do termo ''idade das trevas'' transmitir uma visão reducionista desse período da história, pois tal perspectiva renascentista, que também tem seu mérito, acaba encobrindo alguns avanços no medievo. Nesse contexto, é válido ressaltar a coexistência da medicina bizantina, árabe, além de outras sociedades espalhadas pelo mundo que não temos registros suficientes, com a  europeia ocidental. Nisso, podemos relatar avanços no mundo mulçumano, onde, segundo o material indicado para a leitura, possuía uma farmácia com medicamentos de todo os locais conhecidos, ambulatórios, enfermarias de internação e um sistema primitivo de berçários. Além disso, na própria Europa ocidental, é possível identificar alguns aspectos que contradizem a ideia de total retrocesso, como o desenvolvimento de universidades e a institucionalização da medicina. Ademais, é observável a influência do mundo antigo, a qual vai desde a crença em teorias hipocráticas, como a dos quatro humores, até ao pensamento de filósofos e teólogos importantes da época, como os patrísticos, escolásticos e a sua relação, respectivamente, com Platão e Aristóteles.  O segundo e último tópico de abordagem válida é que não só de avanços foi marcada a medicina medieval. Essa realidade pode ser ilustrada pela associação de doenças a castigos divinos presente na cultura cristã e muçulmana. Tal cenário também é exemplificado na Europa ocidental, onde existiam problemas sanitários contribuintes para a disseminação de doenças. Além dos problemas anteriormente explanados, é possível observar a limitação da disseminação do conhecimento médico, acessível basicamente aos mosteiros e comunidades da Igreja, que pode ser associada a diversos motivos, como a restrição determinada pela instituição católica ao contato com os escritos, o analfabetismo da população e a estruturação da sociedade em formato de feudos, a qual dificultava as trocas de saberes entre diferentes localidades.

MILENA