9 de junho de 2021

A POBREZA DA LINGUAGEM PARA DESCREVER A DOR


 Somos criaturas baseadas na linguagem que, até certo ponto, não podemos saber o que não podemos nomear. E então assumimos que não é real.

Em seu ensaio “On Being Ill”, Virginia Woolf lamenta a “pobreza da língua [inglesa] quando se trata de descrever doenças". Ela escreve:

“Por fim, para dificultar a descrição da doença na literatura, existe a pobreza da linguagem. O inglês, que pode expressar os pensamentos de Hamlet e a tragédia de Lear, não tem palavras para o calafrio e a dor de cabeça. Tudo cresceu de uma maneira. A menor estudante, quando se apaixona, tem Shakespeare ou Keats para falar o que pensa por ela; mas deixe um sofredor tentar descrever uma dor em sua cabeça a um médico e a linguagem imediatamente secará. Não há nada pronto feito para ele. Ele é forçado a cunhar palavras ele mesmo, e, pegando sua dor em uma mão, e um pedaço de puro som na outra (como talvez o povo de Babel fez no início), para esmagá-los juntos que uma palavra totalmente nova em o fim cai. Provavelmente será algo risível.”

Na ciência, a dor é muitas vezes vista como um precursor do diagnóstico, uma peça do quebra-cabeça, uma forma de raciocínio clínico. Mas os sintomas dificilmente são tão simples. A narrativa dos sintomas não  é tão linear quanto a ciência médica supõe...

#virginiawoolf #semiologiamedica #narrativa

6 de junho de 2021

DIVERSIDADE FUNCIONAL: ESTIGMATIZAÇÃO vs ATIVISMO POLÍTICO

No vídeo anterior, que publiquei aqui no canal ontem, “Deficiência Física como Diversidade Humana” tem vários fatores que contribuíram para que O século 20 trouxesse muitas e variadas mudanças para as pessoas com deficiência (PcD). Algumas foram efetivas, e outras, não.

Assim, o século 20 pode ser retratado como o da integração, especialmente em sua última metade, quando todos os segmentos sociais foram conclamados a integrar pessoas com as mais variadas diferenças funcionais. Contudo, não foi um processo de inclusão.

A luta por reconhecimento social de grupos até então ignorados ou sub-representados tem sido uma constante na agenda política das sociedades contemporâneas. O tema do reconhecimento alcançou as PcD, grupo social que sempre foi colocado em posição de inferioridade social. A mobilização para aquisição de visibilidade política e defesa de seus direitos tomou corpo a partir da década de 60, na esteira de outros movimentos pelos direitos civis.

O histórico modelo de homem-padrão influenciou o interesse médico-científico da matriz interpretativa da deficiência, conformando o modelo biomédico, que normatiza como os médicos categorizam, classificam e diagnosticam formas clínicas de diversidade funcional de acordo com um padrão de saúde “universal”. O modelo biomédico foi substituído pelo modelo social, em que não é a pessoa, portanto, que apresenta uma deficiência, mas a sociedade e o meio. Na Espanha, surgiu recentemente o modelo da diversidade funcional, que ainda não se difundiu para outros países. Esta terminologia de diversidade funcional nasceu no movimento de vida independente de forma espontânea e que tem o objetivo de emancipação do coletivo de PcD, que desenvolveriam a capacidade de controlar sua própria vida.

#diversidadefuncional #vidaindependente #deficiencia #estigma #UFPB


5 de junho de 2021

DEFICIÊNCIA FÍSICA COMO DIVERSIDADE HUMANA

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A discussão sobre diferenças e diversidade na sociedade vem se tornando uma tendência, motivada internacionalmente por documentos que apontam para a importância do princípio de “educação para todos” e “saúde para todos”. Neste vídeo, coloco uma reflexão em torno do direito de ser diferente em um mundo que parece ser feito para os seres serem todos iguais. Na situação das Pessoas com Deficiência (PcD), há um déficit específico em determinada área, seja física, sensorial ou intelectual. As PcD passam por processos de classificação e hierarquização, que promovem a segregação e exclusão, mediadas por estigma, preconceito e discriminação. Contudo, a deficiência é parte da diversidade humana. É uma entre as muitas condições que existe entre todas as nossas características, e se pode dizer que a deficiência é um elemento inevitável da vida, seja transitória ou permanente, em graus variados e em alguma dimensão da existência.

PcD motoras, intelectuais, visuais ou auditivas formam o maior grupo social minoritário no mundo atual, mas embora a própria deficiência seja um elemento importante da diversidade humana, raramente é reconhecida como tal.

#Deficiencia #Diversidade #PcD #Saúde #UFPB


18 de maio de 2021

ACESSO À SAÚDE PELOS POVOS CIGANOS: O LUGAR DE FALA DE UMA EDUCADORA DA ...

A Série DIÁLOGOS DA DIVERSIDADE HUMANA NA SAÚDE II foi o segundo ciclo de encontros acadêmicos associados ao Curso DIVERSIDADE CULTURAL E SAÚDE, do Departamento de Medicina Interna (Centro de Ciências Médicas) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), aberto a alunos e outros membros da comunidade universitária para aprender e discutir questões críticas para a igualdade na saúde, diversidade e inclusão.

A redução das disparidades de saúde e a obtenção de cuidados de saúde equitativos continuam a ser uma meta importante para o sistema de saúde no Brasil. A competência cultural é amplamente vista como um pilar fundamental para reduzir as disparidades por meio de cuidados de qualidade culturalmente sensíveis e imparciais. O cuidado culturalmente competente é definido como o cuidado que respeita a diversidade da população de pacientes e os fatores culturais que podem afetar a saúde e os cuidados com a saúde, como linguagem, estilos de comunicação, crenças, atitudes e comportamentos.

Este foi o segundo dia do II ENCONTRO, realizado em 10/05/21 - ACESSO Á SAÚDE PELOS POVOS CIGANOS, com exposição de Marcilânia Gomes Alcântara, cigana de etnia Calon, pedagoga, pós-graduada em Neuroaprendizagens e Práticas Pedagógicas, professora da Educação Básica do Município de Sousa-PB e Membro do Conselho Nacional de Promoção e Igualdade Racial.

#povosciganos #diversidadeesaude #estigma #calon #sousapb #paraiba #ufpb


9 de maio de 2021

COMO REAGIR DIANTE DE MICROAGRESSÃO RACISTA DE UM PACIENTE?

#racismo #microagressões #profissionaldesaude #diversidade #microinsulto #microinvalidacao #servicodesaude

O racismo em relação a profissionais de saúde é um fator de estresse para os médicos negros. Ignorar esses comentários e "tentar superar" a situação pode manter o fluxo de trabalho e o profissionalismo, mas os profissionais  também devem ter o direito de trabalhar sem serem alvo de abuso verbal, ameaça e intimidação com base na raça, ou de outras questões identitárias, como as de gênero ou religião.

Se um profissional da saúde percebe comentários ou ações preconceituosas de  pacientes que atende, qual deveria ser a sua resposta apropriada?

24 de abril de 2021

PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA EM SAÚDE

Os princípios da prática baseada em evidências (PBE) não são facilmente aplicados na atenção primária em saúde como são no contexto biomédico e mais centrado na doença da assistência hospitalar, onde a PBE foi originalmente desenvolvida. Há que ter em conta o "pensamento complexo", que enfatiza a interconexão e a imprevisibilidade, e é preciso considerar também, entre outros fatores apresentados neste vídeo, que quando se pensa em PBE na clínica ampliada da atenção primária, há em múltiplos problemas indiferenciados e um amplo espectro de interações complexas, como questões clínicas, sociais, culturais, políticas e psicológicas.

#praticabaseadaemevidencias #atencaoprimariaemsaude #complexidade #medicinatranslacional #diretrizesclinicas #perguntapico #profsaude #forumdediscussao #mestradoprofissional #praticabaseadaemexperiencia #clinicaampliada

22 de abril de 2021

SEMIOTÉCNICA DE PALPAÇÃO E PERCUSSÃO DO FÍGADO


Neste vídeo, o colega Prof. José Luis Simões Maroja, professor de nossa disciplina de Semiologia Médica da UFPB, demonstra sinteticamente manobras da semiotécnica de palpação bimanual e percussão limitante do fígado.

O exame é realizado com o paciente em decúbito dorsal e o examinador destro posicionado à direita do paciente. Todo esforço deve ser feito para que o paciente relaxe e evite tencionar a musculatura abdominal. Flexionar os joelhos ou colocar um travesseiro sob os joelhos pode facilitar o relaxamento da musculatura da parede abdominal.

A palpação é realizada para determinar a forma, tamanho, borda, superfície, sensibilidade e consistência do fígado. A palpação com uma mão é usada para indivíduos magros, enquanto a técnica bimanual é melhor para indivíduos obesos ou musculosos e também para palpação profunda. Usando qualquer uma das técnicas, o fígado é sentido melhor na inspiração profunda.

Na maioria dos exames normais, o fígado não é palpável. Casos em que o fígado normal é palpável incluem enfisema, derrame pleural do lado direito, corpo magro, lobo de Riedel ou excursão diafragmática profunda.

No enfisema, os pulmões são hiperexpandidos com achatamento diafragmático, diminuindo assim as bordas superior e inferior do fígado. Um grande derrame pleural à direita terá o mesmo efeito de reduzir os limites do fígado. A percussão precisa da borda superior do fígado em um paciente com derrame pleural à direita pode ser difícil devido à densidade do fluido que recobre o embotamento do fígado. Pessoas com excursão diafragmática profunda, como cantores e atletas de resistência, podem ter um fígado palpável na inspiração.

As doenças mais comuns associadas a um fígado palpável e aumentado incluem câncer metastático, linfoma, insuficiência cardíaca congestiva, hepatite alcoólica e esteatohepatite não alcoólica (por exemplo, desvio jejunoileal e nutrição parenteral total). A cirrose pode estar associada a um fígado de tamanho pequeno, normal ou aumentado.

Para palpação bimanual, a mão esquerda do examinador é mantida posteriormente, entre a décima segunda costela e a crista ilíaca, lateralmente aos músculos paraespinhosos, pressionando suavemente para cima para elevar a maior parte do fígado a uma posição mais acessível, enquanto a mão direita é mantida anterior e lateralmente à musculatura do reto. A mão direita move-se para cima usando uma pressão suave e constante até sentir a borda do fígado.

A percussão é realizada para determinar o tamanho do fígado, pois as margens deste órgão podem ser estimadas por esta técnica. A borda superior é percutida, eliminando a qualidade ressonante produzida pelo segmento sobrejacente do pulmão. A percussão leve determina melhor a borda inferior do fígado, devido à aposição do fígado à parede abdominal anterior. A extensão inferior pode ser subestimada se uma percussão pesada for usada. A percussão deve ser realizada primeiro na linha hemiclavicular direita e, em seguida, nas linhas médio esternal e axilar anterior. O nível superior normal do fígado está ao nível do mamilo direito, enquanto a margem inferior do fígado está na margem costal direita. O tamanho normal é variável, principalmente em relação ao tamanho corporal, mas geralmente mede cerca de 12 cm.

#palpacaodofigado #examedofigado #semiologiamedica #semiotecnica #joseluismaroja

3 de abril de 2021

A LEI DO INSTRUMENTO OU "O MARTELO DE MASLOW"

A “lei do instrumento”, também conhecida como “martelo de Maslow”, é um viés cognitivo que envolve uma dependência excessiva de uma ferramenta que nos é familiar. Um martelo não é a ferramenta mais apropriada para todos os fins. No entanto, uma pessoa com apenas um martelo provavelmente tentará consertar tudo usando seu martelo, sem sequer considerar outras opções. Preferimos nos contentar com o que temos em vez de buscar alternativas melhores.

Em 1966, o proeminente psicólogo Abraham Maslow publicou “The Psychology of Science: A Reconnaissance” citando essa máxima em referência ao excesso de confiança em uma ferramenta. As ferramentas que podemos aplicar aos problemas alteram a nossa percepção dos desafios que enfrentamos e das soluções adequadas. A tendência é que os trabalhos sejam adaptados às ferramentas, ao invés de se adaptarem as ferramentas ao trabalho. Se alguém tem um martelo, tende a procurar pregos.

Não é nenhuma surpresa especial descobrir que um cientista formula problemas de uma maneira que requer, para sua solução, apenas aquelas técnicas nas quais ele próprio é especialmente hábil. Temos essa tendência de formular nossos problemas de forma a dar a impressão de que as soluções para esses problemas exigem exatamente o que já temos em mãos.

Ao longo dos anos, me encontrei nessa situação, pegando as ferramentas ou abordagens que atendiam muito bem às minhas necessidades no passado e tentando forçá-las a ser a solução certa para meus desafios ou problemas mais recentes.

A verdadeira transformação de qualquer tipo deve ser feita por meio da integração das ferramentas certas e da mentalidade certa.

#leidoinstrumento #martelodemaslow #semiobloghumanitas

1 de abril de 2021

DESAMARRANDO UM NÓ

Os nós são necessários. Sem nós, como se amarrariam os sapatos? (ainda que aí se trate de um laço e não de um nó...). Melhor exemplo é o nó em um barbante, então... E o nó duplo de pescador? Ele tem esse nome não porque seja impossível amarrar - na verdade é muito fácil - mas porque é quase impossível desamarrar. E o nó Górdio? Este foi um dos nós mais teimosos da história e não podia ser desamarrado, não importa o quanto as pessoas tentassem. No final, Alexandre, o Grande, resolveu facilmente a questão cortando-o com uma espada. Mas Alexandre estudou com Aristóteles! Aristóteles, que estudou com Platão! Sua mente teve o benefício de ter sido meticulosamente preparada por uma das maiores mentes que o mundo já conheceu.

É por isso que usamos a frase "nó górdio" para nos referir a qualquer problema que pareça complicado demais para ser resolvido.

Apesar desse mito, não é fácil desfazer certos nós. É preciso mais que uma espada.

#desfazernós #aristoteles #nogordio #maximas 

5 de março de 2021

ANAMNESE - PARTE I: DA IDENTIFICAÇÃO AO INTERROGATÓRIO SISTEMÁTICO

 
Aula inicial sobre ANAMNESE para estudantes de medicina do segundo ano (quarto período) da graduação (CCM/UFPB) - primeira aula teórica da disciplina de Semiologia Médica em modalidade remota. Exposição sobre os ANTECEDENTES (Pessoais, Familiares e Psicossociais) serão ministrados por meio do envio de aula gravada em vídeo para a turma.

4 de março de 2021

SEMIOLOGIA MÉDICA: AULA INTRODUTÓRIA NO SEMESTRE "HÍBRIDO"

Neste semestre híbrido que provavelmente teremos agora no CCM/UFPB, haverá necessidade de um novo modelo de ensino de semiologia, uma abordagem mais inovadora para desenvolver o senso clínico dos alunos e suas habilidades semiológicas quando há medidas restritivas às atividades presenciais. A formação médica sempre foi muito centrada na prática, e em aprendizado de Semiologia isso é marcante. Este vídeo tem o objetivo de antecipar informações preliminares sobre a disciplina de Semiologia Médica, como preâmbulo à aula on-line síncrona sobre anamnese.

26 de fevereiro de 2021

ORIENTAÇÃO DE PÓS-GRADUANDOS: PAPEIS E RESPONSABILIDADES - PARTE 2

#orientacaoacademica #orientador #orientando #mestrado

Continuando do vídeo anterior, esta é a segunda parte da apresentação sobre DESAFIOS DO PROCESSO DE ORIENTAÇÃO DE PÓS-GRADUANDOS: PAPEIS E RESPONSABILIDADES, que tem tanto minha visão pessoal como o pensamento de autores que estudam essa questão da orientação na pós-graduação, assim como dados empíricos relacionados.

A primeira parte está disponível em: https://youtu.be/q3xrQvuEBYo

25 de fevereiro de 2021

ORIENTAÇÃO DE PÓS-GRADUANDOS: PAPEIS E RESPONSABILIDADES - PARTE 1

#orientador #orientando #mestrado #posgraduacao

O QUE O ORIENTANDO ESPERA DO ORIENTADOR NA PÓS-GRADUAÇÃO?

E o que esperar do orientando? O que o orientador espera do orientando?

Um dos aspectos importantes da pós-graduação stricto sensu é a interação orientador-aluno, em que cada um tem seu papel e sua reponsabilidade. Esta relação pedagógica deve ser pautada em um compromisso no qual orientador e orientando têm direitos e deveres a serem respeitados. A dedicação do orientador e do orientando são uma via de mão dupla.

13 de fevereiro de 2021

CASO CLÍNICO: CRISE EM SAÚDE MENTAL

Um homem de 36 anos é levado ao pronto-socorro sob custódia temporária (internação involuntária) após análise da equipe do serviço de atendimento móvel à urgência (SAMU) que seguiu fluxo relacionados à crise em saúde mental, e da guarda municipal ter interferido no atendimento inicial.

O paciente ficou extremamente agressivo durante uma desavença com sua parceira. A raiva foi desproporcional ao teor do evento e ele começou a gritar, jogar objetos a esmo e quebrou seu celular. A seguir, usou uma lâmina de barbear para fazer vários cortes superficiais bilaterais na parte interna dos seus antebraços. Nesse momento, os pais adotivos dele, preocupados, ligaram para a unidade de crise de saúde do serviço comunitário de funcionamento 24 horas, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS-III).

Durante a avaliação para a internação, o paciente referiu já ter se machucado várias vezes antes, inclusive se esmurrando e queimando várias partes do corpo com um isqueiro em ocasião anterior. Quando questionado sobre o que o deixou perturbado a ponto de querer fazer essas coisas, o paciente afirmou: "Todo mundo me odeia, e sempre me abandonam!" A seguir hostilizou o avaliador, dizendo: "O outro orientador de internação era muito melhor do que você. Pessoas como você me deixam assim!" Uma breve revisão dos registros do hospital revelou que o paciente teve vários episódios semelhantes nos últimos anos.

Na avaliação de acompanhamento, o paciente revelou que os conflitos são comuns nas suas relações interpessoais. Ele disse: "Nem sei mais quem eu sou. Todas as pessoas estão apenas me usando". O paciente informou que costuma ser irrefletido em seu comportamento, explicando: "Às vezes eu saio e fico com gente que conheci em algum aplicativo só para sentir alguma coisa. Eu sempre me sinto vazio depois."

O paciente reconhece que ocasionalmente não come quando “não está em um dia bom”. Seu humor é significativamente instável. Ele explica: "Alguns dias, parece que tudo é incrível, mas em poucas horas ou em um dia eu acordo e percebo que nada presta." Quando indagado há quanto tempo isso acontece, ele responde: "Eu sempre fui assim."

O paciente tem dificuldade ocasional de conciliar o sono; no entanto, afirma que sempre sente necessidade e vontade de dormir, mas às vezes simplesmente não consegue. Quando perguntado se já teve ideação suicida antes, ele conta: “Uma vez, tomei 10 comprimidos de ibuprofeno para mostrar aos meus pais como eles são horríveis”. O paciente nega ter planos ou intenção atuais de se matar, mas afirma: "Às vezes fico cansado e simplesmente não quero sentir mais nada. É sempre quente ou frio, nunca nada é morno." Quando indagado sobre seus pais e sua parceira, ele diz: "Eu não os machucaria de verdade, mas espero que se sintam mal quando eu me corto."

Exame físico: Altura 1,73 m e peso 72,57 kg. Pressão arterial de 138/94 mmHg; temperatura de 36,8 °C; e saturação de oxigênio de 97% em ar ambiente.

O paciente parece desmazelado e agitado, tem atitude tensa e aumento da atividade psicomotora. Tem uma equimose no lado direito da região frontal e apresenta cicatrizes e cortes superficiais recentes bilaterais nos antebraços (Figura no topo da postagem).

O paciente está taquicárdico, com 110 batimentos por minuto (bpm). Ausculta cardíaca sem sopros, atrito ou galope. Ritmo cardíaco regular. Frequência respiratória elevada de 18 incursões respiratórias por minuto (irpm). Pulmões limpos. Abdome indolor e peristáltico, timpânico à percussão. Não apresenta assimetria facial e o exame dos pares cranianos está normal.

Ao exame do estado mental, o paciente está vigil e orientado no tempo e no espaço. Parece deprimido e ansioso, e exibe algum excesso de atividade motora. Sua fala varia amplamente em volume, ritmo e tonalidade, sendo flutuante ao longo da entrevista. Sua capacidade de recordação é boa quando avaliada para memória imediata, recente e distante.

Seu processo de raciocínio é ocasionalmente tangencial, mas pode ser redirecionado; o conteúdo do pensamento é dominado pelos atuais fatores de estresse. Ele repete sem cessar: "Não é justo". O paciente refere depressão e história importante de automutilação. Indagado sobre o seu humor, ele responde: "Me sinto vazio". Ele apresenta labilidade afetiva. Parece capaz de vir à consulta, mas nem sempre coopera. Seu senso crítico é pobre a limitado, pois aparentemente minimiza a importância do próprio comportamento. Sua capacidade de julgamento também é pobre. O paciente nega alucinações auditivas e visuais.

O eletrocardiograma (ECG) revela frequência cardíaca de 110 bpm, sem outras alterações. A tomografia computadorizada de crânio sem contraste é normal, sem indícios de acidente vascular encefálico, lesão de massa ou sangramento. Os resultados do exame toxicológico de urina são negativos. Exame de urina dentro dos limites normais. Hemograma completo, bioquímica e níveis do hormônio estimulante da tireoide dentro dos intervalos de referência.

Com base nesses achados, qual dos diagnósticos a seguir é o mais provável?

(a) Transtorno bipolar

(b) Transtorno de ajustamento

(c) Transtorno de personalidade histriônica

(d) Transtorno de personalidade borderline

(e) Transtorno de estresse pós-traumático

Caros leitores, respondam nos comentários. Quando houver um comentário, ou mais, postarei o diagnóstico e concluirei a publicação do caso clínico. 

6 de fevereiro de 2021

RAÇA, SAÚDE PÚBLICA E PRÁTICA CLÍNICA NA ÁFRICA DO SUL, AMÉRICA CENTRAL ...

#reproconvo2021 #painel

Participação no Painel internacional do Instituto de História da Medicina da Universidade Johns Hopkins: "Raça, Saúde Pública e Prática Clínica na África do Sul, América Central e América do Sul" na Conferência “Diálogos Críticos sobre Saúde Reprodutiva: Passado, Presente e Futuro" com outras painelistas da Guatemala, Nicarágua e África do Sul - interpretação simultânea para o espanhol

Participation of the panel "Race, Public Health, and Clinical Practice in South Africa, Central America, and South America" - Simultaneous translation of panel to Spanish

Participación em el panel "Raza, salud pública y práctica clínica en Sudáfrica, Centroamérica y Sudamérica" - Interpretación simultanea al español

https://hopkinshistoryofmedicine.org/events/reproconvo2021/#day3

4 de fevereiro de 2021

ATENCIÓN AL PARTO EN LOS HOSPITALES-MATERNIDAD DE PARAÍBA

#Paraíba #Parto MaternidadHospitalaria #HumanizacióndelParto #CalidaAtenciónSalud #ViolenciaObstetrica #MortalidadMaterna #DerechoReproductivo

Ponencia en la CONFERENCE CRITICAL CONVERSATIONS ON REPRODUCTIVE HEALTH/CARE: PAST, PRESENT, AND FUTURE (Institute of the History of Medicine at Johns Hopkins University), un evento abierto y holístico, que ofrece la diversidad como pilar de una cultura de inclusión para discutir la reproducción como lugar de lucha por el acceso a la salud y la justicia social. Paraíba forma un escenario que exige acciones por los movimientos de mujeres cuanto a su salud reproductiva. En la asistencia al parto, el modelo tecnocrático es hegemonico dentro del sistema de salud brasileño como un todo, que es predominantemente hospitalario. Según los movimientos sociales por los derechos de las mujeres, estes derechos están siendo irrespetados en la peculiar condición de pacientes que ellas asumen em los hospitales. En este vídeo presentamos un informe que consideramos una etapa dentro del camino de una nueva investigación, y queremos remarcar que se ha intentado plasmar una modalidad de análisis de las prácticas en la asistencia a las parturientas en paraíba, Brasil, que tienda a superar la lógica biomédica. Son numerosas las consideraciones que surgen de este informe, pero las principales son las seguientes: Políticas públicas para la humanización del parto como estrategia para asegurar la salud materna entre 2000 y 2010 parecen no ser efectivas; los partos hospitalarios son casi cien por ciento de los nacimientos y la mortalidad materna alcanza más que el doble del nivel máximo recomendado por la Organización Mundial de la Salud, actualmente no hay leyes federales para la protección de las mujeres em el ciclo embarazo-pueperal, y el ministerio de la salud del gobierno federal intentó negar, incluso, la existencia de la violencia obstétrica; además, la autarquía que representa los médicos en el país también niega la existencia de la violencia obstétrica.

1 de fevereiro de 2021

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

#liberdadedeexpressao #caracteristicasprotegidas #socrates #isegoria #parrhesia #kant #mill

A liberdade de expressão é um valor fundamental no processo democrático. Isso garante que as pessoas possam discutir, trocar e debater ideias. Este direito humano permite que indivíduos e comunidades encontrem informações que são importantes para eles e as compartilhem com outras pessoas, sem censura ou represálias.

Contido, esse direito não é um direito absoluto: o direito não protege o discurso de ódio ou a incitação à violência, por exemplo. O direito à liberdade de expressão se estende a qualquer meio, incluindo comunicação escrita e oral, mídia, protesto público, radiodifusão, obras artísticas e publicidade comercial. O direito não é absoluto. Ele traz consigo responsabilidades especiais e pode ser restringido por diversos motivos.

Nota pós-vídeo: “Não concordo com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” é uma citação mencionada neste vídeo sendo atribuída a Voltaire, mas não há registros ligando-a a ese grande filósofo iluminista do século 18. Há muitas citações atribuídas a Voltaire que não são realmente dele, e essa pode ser uma delas. Voltaire foi copiado e imitado desde que produziu seus primeiros escritos. Mas, “em termos de espírito”, a citação “não é anti-Voltariana”, na medida em que capta a sua resistência à autoridade. (segundo o Dr. Paul Gibbard, da University of Western Australia, um dos maiores especialistas mundiais em Voltaire).

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Para Walter Williams, economista e professor universitário americano que faleceu no mês passado, não é mérito nenhum chamar de "liberdade de expressão" a vocalização apenas daquelas ideias que nos agradam e entusiasmam. Infelizmente, o que temos hoje é apenas uma defesa simétrica da liberdade de expressão: só é lícito aquilo que me agrada. Aquilo que me ofende deve ser proibido. Ou a liberdade de expressão é absoluta, ou ela não existe. São ideias de Walter Williams. #walterwilliams #liberdadedeexpressão

Para Williams, é uma situação trágica quando a liberdade de expressão e a investigação requerem proteção em instituições de ensino superior. O monopólio de ideias é tão perigoso quanto o monopólio do poder político ou um monopólio na produção de bens e serviços. Podemos perguntar: qual é o verdadeiro teste do compromisso de uma pessoa com a liberdade de expressão? O verdadeiro teste não vem quando ela permite que as pessoas digam as coisas que ele considera aceitáveis. O verdadeiro teste vem quando ele permite que as pessoas digam coisas que ela considera ofensivas. O princípio idêntico se aplica à liberdade de associação: seu verdadeiro teste surge quando alguém permite que outros se associem voluntariamente de maneiras que ele considera ofensivas.

Tiranos em todos os lugares, dos nazistas aos comunistas, começaram apoiando os direitos de liberdade de expressão. Por quê? Porque o discurso é importante para a realização dos objetivos de comando e controle. Assim que muitos políticos ganham poder, e isso acontece também no meio universitário, a liberdade de expressão torna-se um risco. Isso desafia suas ideias e agenda e deve ser suprimido.

A conquista indispensável do Ocidente foi o conceito de direitos individuais, a ideia de que os indivíduos têm certos direitos inalienáveis ​​que não são concedidos pelo governo. Os governos existem para proteger esses direitos inalienáveis. Demorou até o século 17 para que essa ideia surgisse, principalmente por meio das obras de filósofos ingleses como John Locke e David Hume. Não é possível que se aceite placidamente que no século 21 haja tentativas de suprimir esses direitos inalienáveis do cidadão.

29 de janeiro de 2021

RETRANSMITINDO O PROGRAMA "OS PINGOS NOS IS" DE HOJE

Hoje o Semioblog Humanitas retransmite ao vivo o programa radiofônico jornalístico “Os Pingos nos Is”, apresentado pela rádio Jovem Pan.

23 de janeiro de 2021

IGNORÂNCIA MOTIVADA

Respostas à pandemia que vivemos agora destacam como as pessoas rejeitam fatos que não se enquadram em sua visão de mundo. A negação da ciência não é apenas uma simples questão de lógica ou ignorância. Existem cada vez mais pessoas em comunidades ideológicas altamente polarizadas e isoladas de informações, ocupando seus próprios universos de informação.

A NEGACIONISMO ESTÁ EM TODA PARTE. Esse tipo de pensamento motivado e carregado de afeto explica uma ampla gama de exemplos de rejeição extrema e resistente a evidências de fatos históricos e consensos científicos.

A negação da ciência é notoriamente resistente aos fatos porque, em primeiro lugar, não se trata apenas de fatos. A negação da ciência é uma expressão de identidade - geralmente em face de ameaças percebidas ao status quo social, político-ideológico e econômico.

21 de janeiro de 2021

A NEFASTA POLITIZAÇÃO DA VACINA

A situação em foco é a epidemia da atual doença pelo Coronavírus 19, e o momento desse recorte é a implementação da vacinação contra a doença neste início de 2021 e sua politização. O motivo é a franca politização da vacina. Foi na atual semana que ocorreu a aprovação emergencial para uso de duas vacinas para o SARS-CoV-2 e foi nesta semana que vimos momentos bem ilustrativos da politização da vacina.

A vacina inicialmente disponível no Brasil foi a CoronaVac, da Sinovac, que começou a ser administrada aos profissionais da saúde há dois dias após aprovação do uso emergencial das vacinas CoronaVac e a da AstraZeneca pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A política, para o bem  ou para o mal, desempenha um papel crítico nas questões de saúde pública. A racionalidade limitada, as instituições políticas fragmentadas, a resistência de interesses concentrados geralmente levam os líderes políticos a adotarem atitudes, mesmo quando enfrentam sérios problemas de saúde pública.

No Brasil, a corrida global para desenvolver uma vacina viável que funcione contra o coronavírus e pudesse ser distribuída em grande escala se resumiu a uma luta pelo poder entre o presidente Jair Bolsonaro e seu maior antípoda, João Dória, o magnata e governador do estado de São Paulo, econômica e politicamente influente, e que planeja concorrer contra o presidente em 2022. A crise sanitária atual torna-se uma parte importante de uma campanha eleitoral antecipada e não-oficial.

19 de janeiro de 2021

ATENCIÓN A LAS PARTURIENTAS EN ESTABLECIMIENTOS HOSPITALARIOS EN PARAÍBA

Esta apresentação foi feita originalmente em idioma espanhol (ou quase espanhol, com sotaque nordestino)

#parto #paraiba #violenciaobstetrica

En esta presentación respecto a la atención obstétrica a las parturientas en el estado de la Paraíba, presenté como apertura, a modo de introducción, breves apuntes de aspectos económicos y sociales a cerca de la Paraíba, Brasil; en el desarollo de la presentación, una aspectos de la historia del parto hasta llegar al actual modelo tecnocrático de nacimiento; a continuación, dispositivas con abordaje de políticas públicas de humanización en la asisténcia al parto en Brasil, además de la legislación implementada en el estado de Paraíba.

2 de janeiro de 2021

PROJETO DIVERSITAS DE EXTENSÃO: OBJETIVOS INICIAIS

#ExtensãoUniversitária #Deficiência #Acessibilidade #Ambulatorio #HospitalUniversitario #UFPB

Apresento em dois minutos os objetivos originais do nosso projeto de extensão vinculado ao Programa de Bolsas de Extensão, PROBEX/UFPB, e vigente até o último dia 31/12/20. Os objetivos iniciais eram obter uma apreciação a partir da visão dos próprios usuários com deficiência atendidos ambulatorialmente no Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW)/UFPB, e de sua reflexão a respeito, em uma troca de saberes com os extensionistas (estudantes de medicina e docentes) para encontrar maneiras de superação de barreiras.

Contudo, devido ao estado de calamidade pública decretado em decorrência da pandemia da doença pelo novo coronavírus (COVID-19), foi imperioso realizar modificações significativas no projeto para que se tornasse exequível sua execução remota.

Apesar da restrição das atividades de campo devido às medidas sanitárias vigentes em 2020, ações importantes foram realizadas após adaptação do projeto original, com sua concretização parcial, mas exequível, na busca por experiências reorientadoras da formação profissional e no sentido de tornar mais visíveis as demandas de PcD em um ambiente de atenção à saúde. Foram realizadas sobretudo atividades remotas durante os meses de abril a setembro de 2020, mas foi possível executar uma ação presencial em outubro, após a retomada do atendimento ambulatorial no HULW. As atividades remotas voltaram-se à produção de conhecimento acerca da acessibilidade de usuários com deficiência em serviços de saúde, com o intuito de promover a manutenção dos ideais plausíveis do projeto original.

29 de dezembro de 2020

A FANTÁSTICA VASCULARIZAÇÃO ARTERIAL DO ENCÉFALO

O cérebro humano é um órgão com metabolismo intenso, mas sem nenhum mecanismo eficaz de armazenamento de oxigênio e glicose. A atividade neuronal depende de uma intrincada rede de vasos sanguíneos que fornecem oxigênio e nutrientes para o metabolismo neuronal.

Duas fontes principais de sangue arterial fornecem essa perfusão: a circulação anterior, que se origina das artérias carótidas internas e a circulação posterior (ou vertebrobasilar), que se origina nas artérias vertebrais. Ao entrarem no crânio, estas artérias se ramificam de forma exuberante, fornecendo sangue a todas as regiões profundas e superficiais do cérebro. 

Portanto, a circulação intracraniana pode ser dividida em circulação anterior e posterior, com base no suprimento da artéria carótida interna e da artéria vertebral, respectivamente. 

O cérebro precisa de um suprimento constante de grandes quantidades de sangue, e esse fluxo sanguíneo é autorregulado pelo órgão. O cérebro representa 2% do peso corporal total, porém 15% do débito cardíaco vai para este órgão, que utiliza 25% do consumo total de oxigênio do organismo e quase 50% da glicose do corpo humano. Isso o torna o órgão que consome mais energia do corpo humano. 

Assim, o cérebro é um dos órgãos mais perfundidos do corpo. A perturbação de qualquer parte desse suprimento sanguíneo, seja na parte intracraniana ou extracraniana, promove o desenvolvimento de doenças cerebrovasculares, das quais a mais comum e evidente é o acidente vascular cerebral. Este é uma interrupção abrupta do fluxo sanguíneo constante para o cérebro que causa a perda da função neurológica. A interrupção do fluxo sanguíneo pode ser causada por um bloqueio, levando ao AVC isquêmico, o mais comum, ou por sangramento no cérebro, levando ao AVC hemorrágico mais grave e de maior mortalidade. O AVC isquêmico constitui cerca de 87% de todos os casos de AVC.

O AVC geralmente ocorre com pouco ou nenhum aviso e os resultados podem ser devastadores. A falta de oxigênio para o cérebro pode ser devastadora, e o sistema cardiovascular tem reflexos regulatórios específicos para garantir que o suprimento de sangue não seja interrompido. Existem várias rotas para o sangue entrar no encéfalo, com especializações para proteger o suprimento de sangue e maximizar a capacidade do cérebro de obter uma perfusão ininterrupta.

10 de dezembro de 2020

PERFIL DE PACIENTES COM DPOC EM AMBULATÓRIO DE PNEUMOLOGIA


Parte da defesa de TCC de graduação em medicina pela UFPB de Érika Vasconcelos sobre o "Perfil de Pacientes com DPOC Atendidos em Ambulatório Terciário de Pneumologia Segundo a Classificação GOLD". Parabéns, Érika, por seu desvelo e dedicação ao trabalho de pesquisa! Mais uma aluna que me deixa orgulhosa pelo virtuosismo e comprometimento acadêmico. Agradeço à banca examinadora, a Profa. Gerlânia Simplício e a Profa. Leina Etto.
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COMPORTAMENTO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE EM CONSULTAS COM PACIENTES SOCIALMENTE VULNERABILIZADOS

O contexto desse vídeo apresentado no presente artigo está no escopo da relação médico-paciente para redução da desigualdade na atenção à saúde de grupos socialmente vulneráveis. Essa questão é considerada um desafio para os profissionais de cuidados de saúde, bem como para as organizações de saúde. Esses profissionais podem contribuir muito para criar um ambiente acolhedor e mais acessível para pessoas vulneráveis.

Contudo, não há conteúdos e práticas curriculares nos cursos de graduação em saúde voltados para a medicina da pobreza: ninguém ensina a arte de tomar decisões médicas em condições de extrema pobreza e/ou no contexto de grandes restrições culturais. A prática médica em uma comunidade de pessoas pobres muitas vezes parece uma especialidade solitária, sem pesquisa ou experiências compartilhadas (FRANK, 2004).

A vulnerabilidade é complexa, envolvendo fatores materiais, sociais, físicos e psicológicos.  A vulnerabilidade social pode ser um fator de risco para problemas de saúde, mas depende da fonte de vulnerabilidade e é específica de cada condição. Indivíduos e populações vulneráveis ​​não estão necessariamente doentes do ponto de vista nosológico. Em vez disso, são caracterizados pela falta de capacidade de antecipar, resistir ou se recuperar de crises ou doenças. Isso pode estar associado a uma série de fatores, como fisiologia, hábitos de vida, alimentação e nutrição, condições precárias de moradia e emprego, baixa educação em saúde e de uso de cuidados preventivos de saúde, violência, escassa participação social, pobreza geracional, baixa renda e nível de instrução desfavorável. 

A magnitude da vulnerabilidade (principalmente devido à privação socioeconômica) influencia não apenas a quantidade de doenças de que as pessoas sofrem, mas os tipos de doenças e a idade em que as vivenciam. As pessoas nas comunidades mais carentes sofrem de mais problemas de saúde incapacitantes, mais problemas de saúde mental e mais problemas de saúde social (como solidão que é mais prejudicial do que fumar ou obesidade) e o faz 10-15 anos antes que as pessoas nas comunidades menos carentes. Os problemas são agravados por baixo nível de educação em saúde. Mesmo que morram até 20 anos mais cedo que as pessoas nas comunidades mais ricas, os mais desfavorecidos ainda passam mais anos com problemas de saúde do que as pessoas mais ricas que vivem mais (SAMUEL, 2016).

O conceito polissêmico de vulnerabilidade vem sendo utilizado por distintas disciplinas e áreas de conhecimento. Na literatura, a vulnerabilidade é descrita tanto de uma perspectiva de risco quanto de uma perspectiva subjetiva (ANGEL; VATNE, 2017). Isso implica que a dimensão objetiva da vulnerabilidade do paciente não reflete necessariamente a percepção do próprio paciente de ser vulnerável. No entanto, o julgamento externo pode influenciar a percepção interna.

Conforme Beltrão et al. (2014), a vulnerabilidade está em todos e em cada um de nós, como seres humanos, pois não há seres humanos considerados invulneráveis. Contudo, no sentido da proteção dos direitos humanos, a noção de vulnerabilidade está relacionada à de desigualdade social. Vulneráveis, no contexto referido, são pessoas quem apresentam redução de suas capacidades de enfrentar as eventuais violações de direitos humanos fundamentais. Tal vulnerabilidade está conexa a uma condição que faz parte de um grupo específico em condições de desigualdade social em relação ao grupo considerado majoritário.

Portanto, nesse sentido, vulnerabilidade se refere a dadas condições desfavoráveis, remetendo às dimensões objetivas de exclusão social. “Estar em vulnerabilidade social se expressa pela alteração ou diminuição da potencialidade de resposta frente às situações de risco ou constrangimento da vida” (PAULON; ROMAGNOLI, 2018, p. 179). Como afirmam as referidas autoras, quanto mais vulnerável for um grupo (indivíduos, famílias, grupos, comunidades), mais ele corre riscos que afetam o seu bem estar e a sua saúde. As situações de vulnerabilidade social tendem a se converter em conjunturas de risco, ou populações em situação de risco.

No âmbito da saúde, a vulnerabilidade do paciente é uma questão fundamental, visando à sua proteção de danos.  Uma definição de vulnerabilidade do paciente captura a complexidade da vulnerabilidade objetiva versus subjetiva. Na perspectiva da vulnerabilidade em geral, a vulnerabilidade nos serviços de saúde mostra como a dependência que pode aumentar o risco do paciente. Assim, a dependência se soma à vulnerabilidade relacionada às questões de saúde (ANGEL; VATNE, 2017).

De modo geral, consideram-se os adultos vulneráveis ​​se forem permanentemente ou temporariamente incapazes de cuidar de si mesmos e de seus interesses, seja por uma causa mental ou física. Adultos vulneráveis ​​estão abertos a riscos de danos psicológicos e físicos ou de serem explorados em benefício de outras pessoas: pessoas idosas que são física ou mentalmente frágeis; pessoas com déficit cognitivo, pessoas com problemas de saúde mental, pessoas que estão doentes e precisam de ajuda para realizar as funções diárias normais, pessoas com deficiência física, pessoas que sofreram um trauma recente - luto, divórcio ou perda de um emprego, por exemplo, e ainda pessoas que, por qualquer motivo, estão em relacionamentos abusivos ou pessoas sem teto. Contudo, é importante ter cautela ao se aplicarem “rótulos” de “vulneráveis” às pessoas.

Também é preciso reconhecer que ser vulnerável não é necessariamente um estado permanente ou de longo prazo. A vulnerabilidade à doença pode não ser uma característica permanente de um indivíduo. Pessoas que estão hospitalizadas para cirurgias, por exemplo, estão muito vulneráveis ​​imediatamente antes, durante e depois da operação, quando não são capazes de cuidar de si mesmas e dependem da equipe de saúde para protegê-las e garantir seu bem-estar. Mas na grande maioria dos casos elas logo serão completamente independentes de novo.

Contudo, a vulnerabilidade social predispõe a ciclos viciosos de causa e efeito - o abuso e a privação aumentam os riscos de envolvimento com drogas e crimes, o que leva à prisão e ao desemprego, o que, por sua vez, conduzem a mais privação e assim por diante.

 

Referências

Angel S, Vatne S. Vulnerability in patients and nurses and the mutual vulnerability in the patient-nurse relationship. J Clin Nurs. 2017;26(9-10):1428-1437.

Beltrão JF et al. (coord.). Direitos humanos dos grupos vulneráveis: manual. [S.l.]: DHES, 2014. Disponível em: http://livroaberto.ufpa.br/jspui/handle/prefix/511

Frank AW. The Renewal of Generosity – Illness, Medicine, and How to Live. Chicago: University of Chicago Press, 2004.

Paulon SM, Romagnoli R. Quando a vulnerabilidade se faz potência Simone Mainieri Paulon Roberta Romagnoli. Interação em Psicologia 2018; 22 (3): 178-187

Samuel S. GPs and vulnerable populations. The Royal Australian College of General Practitioners 2016; 45 (10): 697.

9 de dezembro de 2020

RECONHECIMENTO DA DIVERSIDADE CULTURAL INDÍGENA

Ao longo dos milênios, os povos indígenas desenvolveram uma conexão estreita e única com as terras e os ambientes em que vivem. Eles estabeleceram sistemas distintos de conhecimento, inovação e práticas relacionados ao uso e gestão da diversidade biológica nessas terras e ambientes. Essas terras e ambientes são vitais para sua sobrevivência, fornecendo uma ampla gama de substâncias para alimentação, abrigo e implementos. Eles também fornecem uma fonte para uma variedade de objetos para uso ritual e diário. A terra e o meio ambiente também são importantes nos sistemas culturais, religiosos e sociais dos povos indígenas. Os povos indígenas deveriam ser os guardiões e administradores de suas terras e ambientes, e foram incumbidos por cartas ancestrais de cuidar deles por gerações sucessivas. Podemos pensar, então, quando eles decidem se mudar para áreas urbanas e sair de suas aldeias... Além do que têm que renunciar, à sua vida e às suas raízes, ao seu conhecimento, que é um componente fundamental da sua cultura e deve ser considerado em termos de suas dimensões sagradas e seculares.... Essas pessoas devem ter um grande sentimento de perda e de expropriação de direitos...

Se para os povos indígenas, o conhecimento não pode ser considerado independentemente de seus produtos e expressões, ou das ações, e  tudo isso faz parte de um sistema cultural estreitamente integrado, eles não deveriam se despir de sua cultura para assimilarem a cultura dos outros. Foi bom ler nesta unidade do curso que a maior parte dos indígenas brasileiros vivem em zona rural ou nas aldeias.

Mas mesmo nas aldeias, eles são tutelados pelo Estado e correm o risco de não terem reconhecida a sua diversidade cultural no Brasil. Este é um dos erros mais comuns que os não indígenas cometem ao se envolver com as comunidades indígenas.

A diversidade cultural dentro da população indígena frequentemente não é reconhecida nem respeitada na prática comum. Há um equívoco de que os povos indígenas são um grupo homogêneo que compartilha a mesma cultura, tradições, visões de mundo, idioma, necessidades e desejos. Nada poderia estar mais longe da verdade. Precisamos entender que o reconhecimento da história, cultura e tradições únicas de cada comunidade indígena é fundamental. É um primeiro passo fundamental que nós, brasileiros, podemos dar para respeitar os povos indígenas. Se acreditarmos que os povos indígenas devem ser todos iguais, não estaremos respeitando e reconhecendo sua diversidade.

3 de dezembro de 2020

EDUCAÇÃO PARA DIVERSIDADE CULTURAL E ÉTNICA NO TRABALHO EM SAÚDE


Trabalho apresentado no  VI Seminário Internacional de Práticas Educativas (IV SECAMPO), com o tema "Paulo Freire: Educação, Resistência, Ousadia e Liberdade".

Título: EDUCAÇÃO PARA DIVERSIDADE CULTURAL E ÉTNICA NO TRABALHO EM SAÚDE: CURSOS SUPLEMENTARES NO CENTRO DE CIÊNCIAS MÉDICAS/UFPB

Apresentação: Gustavo Gomes Santiago, Maria Eduarda Gomes Rodrigues e Maria Eduarda Silva Dias.

A competência cultural na educação médica é definida como um conjunto de atitudes, conhecimentos e habilidades necessários para os prestadores de cuidados interagirem efetivamente com populações cultural e etnicamente diversas. Uma crescente atenção para os efeitos de disparidades raciais, étnicas e socioeconômicas no estado de saúde da população, assim como para a capacidade dos sistemas de fornecer cuidados a pacientes com diversos valores, crenças e comportamentos demanda de docentes e estudantes uma postura pedagógica humanista. Contudo, os cursos de graduação em medicina possuem, historicamente, pouco enfoque em questões relacionadas a essa competência. O presente artigo tem o objetivo de apresentar o relato de experiência de dois cursos ministrados na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) durante períodos suplementares remotos de 2020. Os métodos utilizados nos cursos foram videoaulas gravadas, discussões on-line, fóruns de discussão assíncrona e escrita colaborativa na ferramenta Wiki, utilizando, principalmente, as plataformas do Moodle Classes e Google Meet. Esses cursos, denominados “Estigma e Discriminação na Atenção à Saúde” e “Diversidade Cultural e Étnica na Medicina” possibilitaram discussões reflexivas sobre o preconceito, a discriminação e o estigma na área da saúde. Objetivos instrucionais, competências e habilidades para os cursos possibilitaram o aprendizado por meio de metodologias ativas. Assim, os cursos forneceram uma introdução ao estudo da diversidade como cursos-pilotos para introdução da disciplina de Diversidade Cultural na Medicina, a ser inserida na nova grade nuclear do currículo de medicina da UFPB enfocando, de forma crítico-reflexiva, as características da discriminação e do estigma que podem permear o trabalho em saúde.

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EDUCAÇÃO EM SAÚDE PARA POVOS INDÍGENAS

Nós fomos ao VI Seminário Internacional de Práticas Educativas (IV SECAMPO), com o tema "Paulo Freire: Educação, Resistência, Ousadia e Liberdade". Apresentação do trabalho EDUCAÇÃO EM SAÚDE PARA POVOS INDÍGENAS por Yasmin Guimarães Silva, Nadiajda Vaichally Bezerra Cavalcanti e Maria Eduarda Silva Dias, estudantes de graduação em medicina do Centro de Ciências Médicas - CCM/UFPB.

#UFPB #SECAMPO #PovosIndigenas #EducaçãoEmSaúde