8 de abril de 2022

COMPETÊNCIA CULTURAL NA SAÚDE: DEVOLUTIVA DE ATIVIDADE DE PROBLEMATIZAÇÃO

DEVOLUTIVA – UNIDADE I

Apresento uma devolutiva aos meus alunos do Módulo de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina, do segundo período da graduação em medicina da Universidade Federal da Medicina (UFPB). Esta atividade foi realizada em grupos e empregada com finalidades avaliativas somativas e formativas. As temáticas foram as seguintes: Introdução ao Estudo da Diversidade Étnica e Cultural na Medicina; Competência Cultural e Diversidade na Saúde; Diversidade Humana e Subjetividade na Saúde; Igualdade, Equidade, Inclusão e Interseccionalidade de Minorias na Saúde; e Diversidade e Saúde Mental.
A presente devolutiva foi projetada para fornecer um feedback a partir do nível de compreensão e desenvolvimento da atividade colaborativa de aprendizagem em quatro grupos de nossos alunos. Isso ajudará a planejar a próxima unidade e analisar o alcance dos objetivos de aprendizagem.
Uma atividade de avaliação formativa monitora e orienta o aprendizado do aluno ao longo de um módulo. É diferente da avaliação somativa, que avalia a aprendizagem em um determinado momento e geralmente é atribuída uma nota, que foi alta nos quatro grupos. O uso de uma avaliação formativa pode fornecer muitas informações sobre o que está e o que não está fazendo sentido para os alunos. Também ajuda os alunos a avaliar onde estão no que se refere ao desenvolvimento de habilidades e competências no módulo e a tomar decisões sobre o que trabalhar e estudar com mais cuidado.
Esta avaliação foi baseada em atividade colaborativa de aprendizagem em quatro grupos de alunos do módulo, seguindo metodologia da problematização, a partir da análise de um a situação-problema para cada grupo.
Em seguida, apresento os enunciados e devolutivas para cada grupo. 

Grupo 1 - ENUNCIADO

Pedro Farias, um paciente negro de 32 anos, desempregado, considerado um “passageiro habitual” do hospital (termo usado para descrever aqueles pacientes que continuam vindo ao hospital pelo mesmo motivo, muitas vezes sendo considerados como usuários de drogas) por médicos do pronto-socorro. Cada vez que Pedro vinha reclamando de dores de cabeça extremas, recebia medicação para a dor e o mandavam para casa. Nesta última internação, ele foi internado na UTI, onde a médica Isadora havia acabado de começar a trabalhar. Quando ela o ouviu descrito como um “passageiro habitual”, perguntou a um colega por que ele era denominado assim. Foi-lhe dito: “Ele não tem nada melhor para fazer; não sei por que ele acha que podemos suprir sua dependência de morfina”. Embora a intuição da Dra. Isadora lhe indicasse que algo mais podia estar acontecendo com aquele paciente, ela observou suas tatuagens, seu comportamento rude e pensou que os colegas tinham razão. Ela encaminhou o paciente para fazer uma tomografia computadorizada do crânio no andar de cima do hospital, já que o protocolo para cefaleia aguda grave preconizava a realização desse exame. Enquanto era conduzido pela enfermeira e o maqueiro para o setor de radiologia, Pedro sofreu uma herniação cerebral por aumento súbito da pressão intracraniana e morreu. Na necrópsia, descobriu-se que ele tinha uma forma rara de meningite e realmente sofria de fortes dores de cabeça.

Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado). 


Estigma é mais que estereótipo negativo. Estigma e estereótipo são frequentemente usados ​​para descrever comportamentos negativos na sociedade que são direcionados a grupos específicos de pessoas. O dicionário Oxford define estigma como “uma marca de desgraça associada a uma circunstância, qualidade ou pessoa específica”, enquanto um estereótipo é definido como “uma imagem ou ideia amplamente aceita, mas fixa e simplificada, de um tipo específico de pessoa”. Os alunos do Grupo 1 realizaram uma análise abrangente e bem fundamentada da situação-problema apresentada, mas não desenvolveram o conceito de vulnerabilidade, destacado entre os Pontos Chave pelo grupo. Também faltou representar estigma como uma “marca” extremamente negativa para os alvos da discriminação.
Embora as duas definições pareçam semelhantes, e são, existem algumas diferenças marcantes entre as duas. Um estigma é sempre negativo e se desenvolve por causa de um estereótipo. Os estereótipos, embora muitas vezes errados ou parcialmente errados, nem sempre são negativos. Estigma é quando alguém o vê de uma forma negativa porque você tem uma característica ou traço pessoal que se acredita ser, ou na verdade é, uma desvantagem (um estereótipo negativo).
Embora os profissionais médicos se esforcem pelo tratamento igual de todos os pacientes, as disparidades nos cuidados de saúde são altamente prevalentes. Os estereótipos culturais podem não ser conscientemente endossados, mas sua mera existência influencia como as informações sobre um indivíduo são processadas e leva a vieses não intencionais na tomada de decisões, o chamado “viés implícito”. Toda a sociedade é suscetível a esses preconceitos, inclusive os médicos. O uso de drogas é vivenciado como barreira em todas as etapas do atendimento hospitalar. Intervenções para diminuir o estigma e melhorar nossa consistência e abordagem no manejo do doente com dor aguda no pronto-socorro são necessárias para melhorar a qualidade do atendimento e as experiências de cuidado daqueles que podem ou não estar usando drogas.
Pedro foi alvo de estereotipagem e estigmatização, ao ser rotulado como um toxicodependente em suas admissões anteriores no hospital. Se ele não tivesse sofrido estigmatização, que permeou o raciocínio clínico da médica assistente da ala de terapia intensiva, onde ele se encontrava, talvez sua vida pudesse ter sido salva. Esse caso deve ter deixado uma forte impressão em Isadora, a referida médica, que pode ter aprendido a lição de que nunca mais deveria julgar um paciente por sua aparência e confiar mais em sua intuição e olho clínico, não descartando a possibilidade de uma doença grave e aguda no paciente, nem se deixar influenciar pelos outros com base em estereótipos altamente negativos e estigmatização, diante de um doente que ala sequer conhecia.
Embora os avanços científicos nas últimas décadas tenham mostrado que o vício em drogas é uma doença crônica, a visão de que é uma “falha moral” permanece predominante e o estigma associado é persistente. Muitos pacientes sofrem consequências negativas significativas como resultado de preconceito e ignorância. Em muitos desses casos, estar em tratamento foi por si só a base para uma resposta discriminatória. Embora suposições como essas possam não ser diretamente mal-intencionadas, elas podem ter sérias consequências. Na prática médica, essas crenças e estereótipos inconscientes influenciam a tomada de decisão médica
O fato de grande parte do comportamento associado à doença da adicção ser criminalizado muda o cenário tanto para médicos quanto para pacientes no que diz respeito à forma como é tratado. Os profissionais de saúde – mesmo os bem-intencionados – que não reconhecem que o estigma pode ter consequências catastróficas para os pacientes que buscam ajuda no serviço de saúde, não estão atendendo aos melhores interesses de seu paciente ou aderindo ao princípio de “primeiro, não cause danos”.
a contribuição do viés implícito para as disparidades nos cuidados de saúde poderia diminuir se todos os médicos reconhecessem sua suscetibilidade a ele e praticassem deliberadamente a tomada de perspectiva e a individuação ao prestar cuidados ao paciente. Metade dos médicos brancos acredita que mitos como os negros têm pele mais grossa ou terminações nervosas menos sensíveis do que os brancos. Um especialista analisa como noções falsas e preconceitos ocultos alimentam o tratamento inadequado da dor das minorias.
A iniciativa educacional destacou a importância de usar terminologia e linguagem apropriadas ao escrever ou retratar indivíduos com transtornos por uso de substâncias ou indivíduos que estão em recuperação. Esta abordagem ajudou a promover uma apresentação realista da questão, livre de conotações tendenciosas e discriminatórias.
Soluções que podem ser apontadas para combater o estigma nos serviços de saúde são conduzir a análise das atitudes da equipe em relação a questões de saúde relacionadas a drogas nos serviços de saúde, além de realizar treinamento anti-estigma para as equipes de saúde.

Grupo 2 - ENUNCIADO
O relato em primeira pessoa, a seguir, é de uma estudante de medicina que está em treinamento em serviço em um hospital universitário. 

Eu sou estudante de medicina doo internato e estou passando pelo rodício de Pediatria no hospital universitário (HU). Durante uma consulta de pediatria no HU, eu estava acompanhando a preceptora e a residente e aprendendo a realizar um exame físico de um recém-nascido. Enquanto seguia os pediatras até o quarto do paciente, notei que a mãe do bebê, uma mulher de 30 anos, estava sentada ao lado do berço conversando com o marido. A preceptora começou a explicar o que é importante observar em um bebê, o que procurar no exame físico, e passou a me fazer perguntas sobre as causas de pneumonia e meningite no período neonatal. Enquanto conversávamos, a mãe do paciente veio até o berço. Em uma tentativa de acolhê-la em nossa conversa, eu disse “olá” e comecei a parabenizá-la por seu lindo filho. Assim que terminei a frase, a mãe disse “obrigada”, mas notei que ela franziu a testa e seu comportamento mudou um pouco – ela parou de sorrir e parecia nervosa. Perguntei-me o que havia feito de errado, mas logo percebi que essa família era de origem indígena, e minhas palavras complementares destinadas a ganhar a confiança da mãe acabaram lhe causando angústia. Lembrando-me do que aprendi sobre a cultura indígena do “mau-olhado” e ergui o braço direito com a mão fechada, movendo-a até a altura da testa do recém-nascido e com a boca entreaberta sugeri que estava pronunciando algo, então e olhei para a mãe. A mudança na expressão dele foi drástica –sorriu para mim e acenou com a cabeça. Ela não disse nada, mas seu sorriso e aceno de cabeça tacitamente comunicaram sua gratidão por evitar o “quebranto” para seu bebê. Aprendi isso na disciplina de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina no P3. A esta altura da minha comunicação com a mãe, a preceptora e a residente já tinham se afastado do berço, mas a funcionária administrativa do setor de neonatologia me olhou de forma assombrada...
 
Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado), interpretando com base no estudo do processo de desenvolvimento da competência cultural.

A análise feita pelo grupo foi muito boa, atendendo às expectativas de resposta e colocada no escopo da teoria da competência cultural, incluindo a menção à humildade cultural com sua conceituação. Contudo, na fase de teorização, dois pontos chave não foram desenvolvidos: “entendimentos distintos do processo saúde-doença” e  “comunicação inadequada”.
Durante este período desafiador como é o internato médico, enquanto o estudante de medicina está aprendendo a se tornar um médico na prática, muitas vezes é fácil se concentrar no estudo de doenças e abordar um paciente com a perspectiva de ter que descobrir o que está errado com ele e como corrigi-lo. Mas o estudante de medicina não pode apenas se preocupar em lembrar de listas de doenças, suas múltiplas causas, apresentações, diagnósticos, tratamentos, efeitos colaterais de tratamentos e muito mais. O que os estudantes de medicina e médicos muitas vezes esquecem é que a estrutura de crenças de um paciente e de sua família pode ser uma parte muito importante de sua vida e, a menos que esse aspecto seja respeitado, eles não formarão uma relação de confiança com a equipe de saúde para ajudar a resolver o mistério de sua própria condição de saúde-doença. Portanto, o conhecimento da cultura é uma ferramenta essencial que deve ser compreendida e lembrada ao lado da anatomia, patologia, fisiopatologia e semiologia médicas.
O estudante de medicina precisa saber identificar considerações multiculturais do cuidado em saúde. O cuidado de uma criança recém-nascida no entorno de pacientes que fazem parte de grupos culturalmente diversos está permeado por crenças, mitos e costumes resultantes da tradição cultural de uma família. Esse momento contém um leque de crenças compartilhadas por pessoas que integram diferentes grupos, sobretudo em comunidades tradicionais com a indígena. Portanto, é preciso que os médicos se apropriem do conhecimento intercultural para promover o cuidado que as pessoas necessitam e compreendem, mesmo se isso envolve rituais e aspectos mágico-religiosos.
A cosmovisão acerca dos aspectos simbólicos, como fórmulas de rezas e sinais gestuais, é concebido no meio popular como “mau-olhado”, e remontam a uma tradição oral de tempos remotos, em que as pessoas recorrem a rezadeiras e rezadores, investidos de uma memória cultural arquetípica. O fenômeno chamado de “mau-olhado” ocupa a centralidade das práticas de muitas práticas de saúde na população.
 
Grupo 3 - ENUNCIADO
O relato em terceira pessoa, a seguir, é de uma mulher em tratamento de toxicodependência em tratamento de substituição com Suboxone, que procura um pronto-socorro por causa de dor intensa no quadril. 

Fátima tem 55 anos e vive em Guarabira, é viúva, seu parceiro de longa data morreu recentemente, e agora está morando sozinha. Quando Fátima era mais jovem ela costumava tomar uma bebida depois do trabalho e usar Cannabis sativa, "mas não em excesso". Seu companheiro passou a usar heroína e Fátima também começou a usar essa droga nos últimos anos, e está agora no programa de tratamento de substituição de uso de narcóticos. Ela contraiu hepatite C há 25 anos pelo uso da droga. Seu companheiro morreu de cirrose por hepatite C há um ano. No momento, Fátima está em tratamento com Suboxone, para sua toxicodependência de heroína e de morfina, sendo acompanhada por um psiquiatra, e sente que está indo bem.

Ontem, Fátima acordou às 22h30 com uma dor intensa em queimação no quadril. Ela tentou aliviar a dor com compressas quentes e frias. Por volta da 1h da manhã, embora sempre fizesse o possível para não ir ao hospital, Fátima ficou preocupada com a possibilidade de que algo grave estive acontecendo com o quadril e que ficasse sem andar, então decidiu ir ao hospital geral da cidade. Ao chegar à emergência, ela descreveu seus sintomas para a enfermeira da triagem, onde se iniciou o procedimento habitual de atendimento com perguntas sobre uso de medicamentos. Nesse momento, a enfermeira parou, olhou para Fátima, mudou de tom e disse: “Ah, você está usando Suboxone? E tem hepatite C? Tudo bem, então, não diga mais nada”, aludindo à busca de alívio da dor na emergência, sugerindo que Fátima era apenas uma drogadita procurando opioides. Mas ela tinha seu suprimento de Suboxone para uma semana e mais uma caixa trancada no seu armário. Ela não estava procurando alívio ou drogas; ela queria ver um médico para descobrir o que havia de errado com ela. Sentindo-se julgada, Fátima se virou e saiu do pronto-socorro, com dor, raiva e imaginando o que seria necessário para ver um médico e ser tratada como uma paciente “normal”. “Só aquele olhar” foi o suficiente para ela ir embora porque podia ver que seria uma perda de tempo, e que ela não seria levada a sério.

Fátima ainda estava com fortes dores na manhã seguinte e chegou à unidade básica de saúde cedo, conseguindo ver seu médico imediatamente, que diagnosticou o problema como herpes zoster. O clínico geral prescreveu-lhe uma receita para herpes, e ela perguntou se esta nova medicação podia ser usada com o Suboxone. Era uma conversa que ela não queria ter depois com o farmacêutico local, mesmo sabendo que este iria perguntar se ela estava em uso de outro medicamento ao dispensar esta nova prescrição. Por causa dos olhares que ela recebia quando dizia às pessoas que estava em uso de Suboxone, Fátima muitas vezes evitava contar sobre o uso crônico desse medicamento. Ela estava se sentindo doente, só e com vergonha.

Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado).

 
A análise da situação-problema feita pelo grupo 4 atendeu às expectativas de respostas, com seleção de pontos chave essenciais e coerentes com a questão proposta. Entretanto dois pontos chave pontuados não foram desenvolvidos: “incompetência cultural” e “vulnerabilidade”.
Ficou evidente o entendimento da questão do estigma em torno da saúde mental que torna difícil para muitos pacientes procurarem atendimento profissional em saúde quando precisam, correndo o risco de serem envergonhadas ou julgadas com base em sua condição.
Esse estigma é reforçado pelo estereótipo de que as pessoas com doença mental são hostis ou incompetentes, embora esse não seja o caso. Estigma refere-se a atitudes extremamente negativas (preconceito) e comportamento igualmente negativo (discriminação) em relação a pessoas usuárias e drogas e problemas de saúde mental.
O estigma inclui ter ideias e julgamentos fixos – como pensar que pessoas com uso de drogas e problemas de saúde mental não são normais ou não são como nós; que causaram seus próprios problemas; ou que eles podem simplesmente superar seus problemas se quiserem
temer e evitar o que não entendemos – como excluir pessoas com uso de drogas e problemas de saúde mental de partes habituais da vida e de direitos ao atendimento médico de qualidade.
O conceito de subjetividade desempenha um papel fundamental neste caso. Ao expor brevemente a necessidade de uma compreensão mais profunda da saúde mental, que vai além de uma dimensão biológica, destaca-se a dimensão subjetiva de complexos processos de mudança e as respostas individuais e coletivas. Aproximar-se do conceito de subjetividade pode oferecer os meios para compreender melhor as diferentes formas de sofrimento como resultado de subjetividades socialmente produzidas. Essas subjetividades em todas as suas contradições, pode ter consequências diretas para o reconhecimento dado às necessidades de pessoas com problemas de saúde mental.

Grupo 4 - ENUNCIADO
O relato em terceira pessoa, a seguir, é de uma mulher jovem com diagnóstico de depressão e ansiedade generalizada em tratamento eficaz, que tem restrições de atendimento pelo dentista diante de uma cirurgia odontológica. 

Joana tem 28 anos, atendente de telemarketing, vai ao dentista para uma consulta por dor de dente. Ela tem diagnóstico de depressão, ataques de pânico e ansiedade generalizada de longo prazo, em uso de antidepressivo e terapia cognitivo-comportamental. Joana se sente bem ultimamente e a terapia está sendo eficaz. Ela teve licença por causa de seu quadro psíquico há um ano, mas se sente controlada e voltou a trabalhar normalmente.

O dentista afirma que ela precisará realizar uma cirurgia no terceiro molar no seu tratamento. O dentista lhe diz que acha que ela não está mais preparada para tratá-la por causa de sua condição de “portadora de doença mental”. O dentista justificou essa decisão afirmando que ela poderia ter um ataque de pânico durante o procedimento e ele não estava seguro de realizar a cirurgia.

Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado).


O grupo 4 desenvolveu uma análise consistente e acurada da situação-problema proposta, incluindo a questão da interseccionalidade (gênero; problema de saúde mental). Todavia, a interseccionalidade não produz uma soma de disparidades na saúde, mas as multiplica, o que é muito pior. Por outro lado, chamo atenção para a distinção entre os conceitos de empatia e alteridade, que foram empregados como se fossem sinônimos. No entanto, na alteridade, uma pessoa reconhece alguém como outro indivíduo diferente dela, enquanto na empatia, uma pessoa reconhece o outro diferente dela, mas também compartilha seu afeto, coloca-se na perspectiva do outro para entender seus pensamentos ou sentimentos. "A relação Eu-Outro" é uma relação "reflexiva" entre "individualidade" e "alteridade" (alter – outro). A empatia é uma forma de projeção que pode não apreender verdadeiramente a alteridade do outro, podendo ser distorcida por preconceitos. Mas no componente cognitivo da empatia, a tomada de perspectiva do outro pode reduzir preconceitos e inibir estereótipos e preconceitos inconscientes. A empatia do médico afeta positivamente a satisfação do paciente, percepções de autoeficácia de controle, sofrimento emocional, adesão e resultados de saúde.
Na situação-problema posta ao Grupo 4, o dentista recusa a realização do atendimento odontológico de Marta devido ao possível  comportamento ansioso e de ataques de pânico que sugerem seus antecedentes pessoais patológicos na sua visão. Essa atitude sugere discriminação decorrente do estigma da doença mental. Se o dentista não puder justificar apropriadamente essa decisão e recusa em realizar a cirurgia dentária de Marta, tratando a paciente dessa maneira sem um motivo racional, ou seja, se não demonstrar que foi uma atitude apropriada e necessária na referida circunstância, essa conduta do profissional pode ser considerada como discriminatória. O estigma muitas vezes vem da falta de compreensão ou medo. Os julgamentos dos outros quase sempre decorrem de uma falta de compreensão e não de informações baseadas em fatos.
A estigmatização ainda existe dentro da própria comunidade médica. O estigma associado à saúde mental engloba discriminação e exclusão de pacientes psiquiátricos e dificulta suas oportunidades de ter uma vida mais produtiva e satisfatória. Além disso, o estigma também existe entre os profissionais de saúde e, portanto, dificulta a oferta de tratamento e cuidados.
Qualquer grau de incerteza que um profissional de saúde possa ter em relação à condição de um paciente pode contribuir para as disparidades no tratamento. O profissional depende de inferências com base no que podem ver sobre o problema que traz o paciente e no que mais observa sobre o paciente (por exemplo, antecedente de doença mental). Ele pode, portanto, agir com base em suas crenças anteriores sobre a probabilidade das condições dos pacientes, “prévios” que serão diferentes de acordo com idade, sexo, status socioeconômico e raça ou etnia. Quando esses antecedentes são considerados juntamente com as informações coletadas em um encontro clínico, ambos influenciam a decisão médica.
Além disso, os profissionais de saúde têm a obrigação de respeitar as normas éticas da sua profissão.

Imagem: Progress in Mind: world-mental-health-day-2020

23 de março de 2022

MINORIAS SOCIAIS NA SAÚDE: DIVERSIDADE, EQUIDADE, INCLUSÃO E INTERSECCIONALIDADE

#minorias #diversidade #equidade #inclusão #problematização #medicina #UFPB

Este vídeo é uma devolutiva de atividade de problematização da turma de graduação em Medicina do segundo período no Módulo de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina, enfocando a importância da equidade, diversidade, inclusão e interseccionalidade de minorias sociais no contexto da saúde.

Esta atividade em grupos de problematização seguiu seguintes etapas em sala de aula em 14.03.22 por meio do Arco de Maguerez: 1. Partindo da observação da realidade em relação aos tópicos propostos para a identificação de situações-problema para o desenvolvimento da investigação; 2. Refletindo sobre os possíveis fatores e determinantes maiores do problema e definição dos pontos-chave da pesquisa a ser feita; 3. Investigação de cada um dos pontos-chave definidos, buscando informações na internet e analisando-as para responder ao problema, compondo assim a teorização; 4. Elaboração de hipóteses de solução para o problema; 5. Aplicação de uma ou mais das hipóteses de solução, como um retorno do estudo à realidade investigada.

21 de março de 2022

INTRODUÇÃO À ANÁLISE DE CONTEÚDO: Parte 2 de 2

#analisedeconteudo #pesquisaqualitativa

Este vídeo é a segunda parte de uma apresentação sobre os fundamentos da análise de conteúdo.

A parte 1 desta apresentação está disponível em: https://youtu.be/DEbOpNolWCo

19 de março de 2022

INTRODUÇÃO À ANÁLISE DE CONTEÚDO: Parte 1 de 2

#analisedeconteudo #pesquisaqualitativa

Pesquisadores qualitativos novatos muitas vezes se assustam com a perspectiva de realizar análise de conteúdo e, portanto, podem enfrentar muita dificuldade no início do processo. 

Este vídeo é a primeira parte de uma apresentação de noções introdutórias à análise de conteúdo, explicando os fundamentos dessa metodologia de análise. É um vídeo introdutório para aqueles estudantes que não são ainda experimentados no método e, portanto,  destina-se a estudantes de graduação e pós-graduandos recém-iniciados na pesquisa científica de abordagem qualitativa e no método da análise de conteúdo, ou seja, trata-se de uma introdução aos princípios e prática deste método.

A análise de conteúdo é um método empírico poderoso para analisar textos e expor conexões ocultas entre conceitos, revelar relações entre ideias que inicialmente parecem desconexas e informar os processos de tomada de decisão associados a muitas práticas de comunicação técnica.

Há um reconhecimento crescente do importante papel desempenhado pela pesquisa qualitativa e sua utilidade em muitos campos, incluindo o contexto da saúde.

5 de março de 2022

UMA PRIMEIRA CONSULTA MÉDICA SIMULADA NA INICIAÇÃO AO EXAME CLÍNICO

#exameclinico #consultamedica #semiologiamedica #CCMUFPB #UFPB #simulaçao #educaçaomedica

Um importante marco da graduação em Medicina é a iniciação ao exame clínico durante o quarto período do curso, quando o estudante veste um jaleco branco pela primeira vez, obtém o seu primeiro estetoscópio e realiza a primeira anamnese. Existem diferentes técnicas que podem ser usadas ​​para o treinamento de habilidades de comunicação na educação médica, sobretudo na consulta médica, que é uma ferramenta fundamental da prática clínica e cuja importância deve ser sempre reforçada nos cenários práticos de ensino-aprendizagem.

A comunicação eficaz é a pedra angular da medicina centrada no paciente e do comportamento empático, assim como na construção do "rapport". Para o treinamento de habilidades de comunicação, pacientes simulados podem ser usados ​​tanto no ensino quanto no exame de habilidades de comunicação.

Neste vídeo, os estudantes de graduação em medicina da UFPB, Gabriel Fernando Vasconcelos Teles e Iasmin Nunes Duarte, da turma 111, realizaram a primeira simulação de uma consulta ambulatorial na sua segunda semana na disciplina de Semiologia Médica, após uma aula teórica sobre consulta médica e comunicação com o paciente. Paciente simulada por Iasmin foi uma mulher de 49 anos com queixa de dor torácica. Na simulação, orientei Gabriel e Iasmin a não incluírem o exame físico. A gravação foi realizada por Thomaz Feijó de Albuquerque, da mesma turma, e com o público dos demais colegas da turma 111, em uma sala de aula do Centro de Ciências Médicas da UFPB.

Agradeço a meus alunos Gabriel, Iasmin e Thomaz pela primeira simulação e gravação de uma consulta neste semestre de 2021.2. Eles consentiram verbalmente com a publicação deste vídeo de interesse educativo, porém a qualquer momento poderão retirar seu consentimento, quando verterei esta publicitação à modalidade "privada".

14 de fevereiro de 2022

PROJETO "COMUNICAÇÃO SANITÁRIA GOVERNAMENTAL NA COVID-19": I REUNIÃO DE ORIENTAÇÃO

Reunião de orientação de grupo de pesquisa da graduação em Medicina da UFPB, com quatro graduandos do quarto período, para alinhamento de ideias e atividades. Enfoca-se, nesse projeto, a comunicação contida nas plataformas digitais oficiais de órgãos governamentais de saúde no Brasil e na Paraíba para enfrentar a pandemia da doença pelo novo coronavírus 2019 (COVID19) no cenário de gestão de risco vigente no ano de 2020. Questões relevantes e de impacto do ponto de vista técnico-científico e socioeconômico demandam a análise de “o quê” e “o como” foram externalizadas as comunicações emitidas oficialmente pelas entidades de saúde nos vários âmbitos para conhecimento e a  informação relacionada à pandemia pela população no ano de 2020.

O nosso objeto de análise neste projeto são os conteúdos da comunicação de risco na crise sanitária da COVID-19 no município de João Pessoa-PB, no estado da Paraíba e no Brasil em 2020, que foi um interstício crucial de tempo para a comunicação de risco sobre a pandemia. O objetivo geral do estudo é explorar e analisar as estratégias de comunicação de risco das autoridades governamentais de saúde quanto à pandemia de COVID-19 por meio de seus portais digitais on-line oficiais no ano de 2020.


20 de dezembro de 2021

AGRADECENDO POR 2021!...

No apagar das luzes deste ano de 2021, quero agradecer. Pela saúde, pela vida, pelo entusiasmo em aprender e compartilhar conteúdo. Quero desejar a todos e todas o melhor, quer em termos pessoais quer em termos acadêmicos. O ano de 2020 foi uma jornada imprevisível através da pandemia, e muitas outras dificuldades que tornaram a vida muito difícil para as pessoas em todo o mundo. Mas, à medida que nos aproximamos do final deste ano (faltam apenas 11 dias para 2022) odos devemos aceitar o fato de que, a cada ano que passa, devemos deixar para trás as memórias ruins. Portanto, agora, ao abraçarmos o próximo ano sejamos todos positivos, com espíritos altivos e aspirações para o futuro. Não vamos deixar que os tempos negativos nos afetem, olhando para o futuro e trabalhando duro para realizar nossos sonhos. Cada ano traz consigo novas oportunidades de se moldar no que você deseja ser. Que vocês preencham seu Ano Novo com novas aventuras, conquistas e aprendizados!

Gravei este vídeo para agradecer a todas as pessoas que se inscreveram no meu canal no YouTube neste ano de 2021. Sou muito grata por vocês terem sintonizado este canal, e agradeço seu tempo para assistir o conteúdo que tenho produzido.

Então por meio deste vídeo, agradeço aos inscritos neste canal e que me acompanharam durante este ano de 2021.


23 de novembro de 2021

A DEFICIÊNCIA É UMA FASE

“A deficiência não é um fenômeno, mas uma fase. Todos, em um ponto ou outro da vida, passam por essa fase. Idosos, doentes, grávidas, obesos, crianças, pessoas com fraturas ou problemas de visão podem ser descritos como passando por uma fase de deficiência. Mesmo durante essas fases, cada um tem o direito de viver com dignidade. A acessibilidade, portanto, não pode ser um aspecto da simpatia, mas sim um direito de cada indivíduo.”

(Balkrishna Vithaldas Doshi, arquiteto indiano)


Os seres humanos ficam fisicamente incapacitados em algum momento de suas vidas. É a história natural do percurso humano. Aqueles que permanecem saudáveis ​​e sem deficiência durante toda a vida são poucos. Assim, os edifícios públicos devem ser acessíveis e sem barreiras para pessoas com e sem deficiência. 

#deficiencia #acessibilidade #ufpb #projextdiversitas #proextufpb

21 de novembro de 2021

IDENTIDADE: PESSOAL, SOCIAL, CULTURAL

#identidade #cultura #diferença #diversidade #UFPB

Nas discussões das temáticas da nossa disciplina de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina, é importante distinguir o que significa identidade. Identidade consiste em representações, sendo um conceito quase intuitivo – é aquilo que somos. Identidade é o conceito das pessoas sobre quem são e como se relacionam com os outros, a forma como os outros indivíduos e grupos os definem com base na raça/cor, etnia, religião, idioma, cultura, gênero, religião, dentre outras dimensões.
Esta apresentação inclui a exposição sobre identidade pessoal, social e cultural abordando aspectos conceituais e contextuais na concepção da identidade como uma categoria de análise, como uma construção social, marcada por polissemias que devem ser entendidas como circunscritas a um contexto que lhe confere sentido.

8 de agosto de 2021

COMPETÊNCIA CULTURAL NA SAÚDE

Em uma sociedade multicultural e diversa com vastas disparidades de saúde, enfrentando rápidas mudanças socioeconômicas e demográficas, tanto na comunidade quanto na profissão médica, é imperativo que nosso sistema de educação médica trate de forma adequada as questões decorrentes dessa diversidade.

Aprender como cuidar e servir comunidades em uma ampla gama de diversidade cultural é um trabalho para toda a vida do profissional de saúde.

A consciência da diversidade humana é o reconhecimento e apreciação da existência de diferenças em atitudes, crenças, pensamentos e prioridades nos comportamentos de busca de saúde de diferentes populações de pacientes.,

Neste vídeo, do site educacional em saúde DiversityNurse, mostram-se algumas situações clínicas simuladas em que é flagrante a falta de sensibilidade e de competência cultural (em uma das situações simuladas, o comportamento da profissional é mais que incompetência cultural).

O vídeo está legendado em português com a tradução automática oferecida pelo YouTube.

#diversidadecultural #saude #educacaomedica

25 de junho de 2021

PEDAGOGIA ANTIRRACISTA E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NA SAÚDE


O ensino do antirracismo é um projeto político, que será especialmente desafiador em um ambiente universitário que tradicionalmente valoriza o conhecimento “objetivo” e “apolítico”.  Como práticas pedagógicas específicas promovem uma estrutura antirracismo, com atenção específica direcionada ao processo de aprender antirracismo? E como esses objetivos podem ser promovidos dentro da universidade?

O antirracismo é o “ processo ativo de identificação e eliminação do racismo por meio da mudança de sistemas, estruturas organizacionais, políticas, práticas e atitudes, de modo que o poder seja redistribuído e compartilhado de forma equitativa” (National Action Committee on the Status of Women International Perspectives: Women and Global Solidarity, EUA)

Questões étnicas de minorias e práticas anti-discriminatórias precisam ter um destaque mais proeminente nos currículos da área da saúde. Mais que isso, os integrantes da comunidade universitária precisam entender e promover  ações voltadas à pedagogia antirracista.

#racismo #pedagogiaantirracista #universidade #UFPB #diversidadecultural #discriminação #educaçãonasaude #formaçãoprofissional #saude #djamilaribeiro #ibramkendi #comoserantirracista #chimamandaadichie #raçacor

Imagem: A autora (2021) a partir de template de SlidesGo

24 de junho de 2021

DIÁLOGOS DA DIVERSIDADE HUMANA NA SAÚDE III

Na sociedade contemporânea, dentre as diversas formas de preconceito e exclusão, destaca-se a estigmatização de idosos e, principalmente, de pessoas que apresentam identidades que não se enquadram na heteronormatividade. Assim, a velhice daqueles que se identificam como LGBTQIA+ e suas variantes sofre uma marginalização interseccional. Isso acarreta maior vulnerabilidade social, econômica e questões de saúde cujo atendimento é prejudicado pela não aceitação e falta de informação das equipes de saúde e, às vezes, também dos próprios usuários.

Apresentação de Matias Aidan Cunha de Sousa, estudante do segundo período do curso de graduação em medicina da UFPB, Campus I.

#diversidadenasaude #competenciacultural #heterosexismo #ageismo #UFPB #saude #interseccionalidade #preconceito #discriminação #lgbtqia+ #medicinaufpb

23 de junho de 2021

ACESSIBILIDADE DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA NO SISTEMA DE SAÚDE

Primeira palestra da III etapa do ciclo de encontros sobre DIÁLOGOS DA DIVERSIDADE HUMANA NA SAÚDE - Fase III: DIREITOS HUMANOS, JUSTIÇA E ACESSO À SAÚDE – CCM/UFPB – SigEventos UFPB

Apresentação: Acessibilidade de Pessoas com Deficiência Física no Sistema de Saúde

Palestrante: Profa. Dra. Rilva Lopes de Sousa Muñoz - Disciplina de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina - Departamento de Medicina Interna/Centro de Ciências Médicas/Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

O acesso aos cuidados de saúde é um direito humano fundamental. Mas as pessoas com deficiência experimentam pior acesso aos serviços de saúde, que pessoas sem deficiência, devido a ambientes inacessíveis e sistemas de crenças e atitudes discriminatórias.

Os cuidados com as pessoas com deficiência sempre foram muito atrelados às propostas de reabilitação, incorporando características de assistência social, educação e saúde.

A relação entre deficiência, saúde e acesso à saúde é complexa, começando pelo problema de acesso aos cuidados de saúde, que costuma ser um desafio para as pessoas com deficiência em países de baixa e média renda. Parte disso tem a ver com a escassez geral de serviços de saúde em locais com poucos recursos. Mas parte dessa dificuldade tem a ver com barreiras estruturais, atitudinais, econômicas e sociais à participação e à saúde, que afetam mais as pessoas com deficiência do que as pessoas sem deficiência. Esta falta de acesso aos cuidados de saúde é um problema porque, em geral, as pessoas com deficiência podem necessitar de acesso aos cuidados de saúde com mais frequência do que as pessoas sem deficiência. O acesso pleno e equitativo a cuidados de saúde de qualidade é um direito humano e um imperativo importante da agenda global.

#pessoascomdeficiencia #saudepublica #UFPB #direitoshumanos #diversidade #saudeesociedade #Paraiba #Brasil #SUS #acesso #diversidadefuncional

Vídeo gravado por Mário César P. de Aquino, estudante de graduação em Medicina da UFPB.

MULHER E SOCIEDADE: OS DIREITOS À SAÚDE ESTÃO ASSEGURADOS?

Terceira fase do ciclo de eventos DIÁLOGOS DA DIVERSIDADE HUMANA NA SAÚDE - Fase III: DIREITOS HUMANOS, JUSTIÇA E ACESSO À SAÚDE

Apresentação: Mulher e Sociedade: Os direitos estão assegurados?

Palestrante: Prof. Dr. Eduardo Sérgio Soares Sousa – Diretor do Centro de Ciências Médicas da UFPB, pesquisador na linha de Saúde da Mulher.

O Prof. Eduardo Sérgio mostra que as informações oriundas do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde (MS) evidenciam a elevada mortalidade das mulheres em decorrência de câncer de colo uterino, do câncer de mama e de complicações do ciclo gravídico-puerperal. Este problema de saúde pública decorre, em grande parte, da deficiência no acesso aos serviços de saúde de atenção primária (prevenção) e de alta complexidade (tratamento terciário ou de alta complexidade). As precárias condições financeiras, a baixa escolaridade, principalmente nas mulheres não-brancas, são variáveis importantes nesse contexto da mortalidade materna no Brasil. Como, então, afirmar que os direitos humanos dessas mulheres estão assegurados?...

#mortalidadematerna #saudepublica #SIM #UFPB #direitoshumanos #diversidade #saudedamulher #saudeesociedade #Paraiba #Brasil #SUS #MinisteriodaSaude #disparidadesemsaude #informaçãoemsaude #profeduardosergio #seriehistorica #cancerginecologico #acessosaude

Vídeo gravado por Mário César P. de Aquino, estudante de graduação em Medicina da UFPB.

9 de junho de 2021

A POBREZA DA LINGUAGEM PARA DESCREVER A DOR


 Somos criaturas baseadas na linguagem que, até certo ponto, não podemos saber o que não podemos nomear. E então assumimos que não é real.

Em seu ensaio “On Being Ill”, Virginia Woolf lamenta a “pobreza da língua [inglesa] quando se trata de descrever doenças". Ela escreve:

“Por fim, para dificultar a descrição da doença na literatura, existe a pobreza da linguagem. O inglês, que pode expressar os pensamentos de Hamlet e a tragédia de Lear, não tem palavras para o calafrio e a dor de cabeça. Tudo cresceu de uma maneira. A menor estudante, quando se apaixona, tem Shakespeare ou Keats para falar o que pensa por ela; mas deixe um sofredor tentar descrever uma dor em sua cabeça a um médico e a linguagem imediatamente secará. Não há nada pronto feito para ele. Ele é forçado a cunhar palavras ele mesmo, e, pegando sua dor em uma mão, e um pedaço de puro som na outra (como talvez o povo de Babel fez no início), para esmagá-los juntos que uma palavra totalmente nova em o fim cai. Provavelmente será algo risível.”

Na ciência, a dor é muitas vezes vista como um precursor do diagnóstico, uma peça do quebra-cabeça, uma forma de raciocínio clínico. Mas os sintomas dificilmente são tão simples. A narrativa dos sintomas não  é tão linear quanto a ciência médica supõe...

#virginiawoolf #semiologiamedica #narrativa

6 de junho de 2021

DIVERSIDADE FUNCIONAL: ESTIGMATIZAÇÃO vs ATIVISMO POLÍTICO

No vídeo anterior, que publiquei aqui no canal ontem, “Deficiência Física como Diversidade Humana” tem vários fatores que contribuíram para que O século 20 trouxesse muitas e variadas mudanças para as pessoas com deficiência (PcD). Algumas foram efetivas, e outras, não.

Assim, o século 20 pode ser retratado como o da integração, especialmente em sua última metade, quando todos os segmentos sociais foram conclamados a integrar pessoas com as mais variadas diferenças funcionais. Contudo, não foi um processo de inclusão.

A luta por reconhecimento social de grupos até então ignorados ou sub-representados tem sido uma constante na agenda política das sociedades contemporâneas. O tema do reconhecimento alcançou as PcD, grupo social que sempre foi colocado em posição de inferioridade social. A mobilização para aquisição de visibilidade política e defesa de seus direitos tomou corpo a partir da década de 60, na esteira de outros movimentos pelos direitos civis.

O histórico modelo de homem-padrão influenciou o interesse médico-científico da matriz interpretativa da deficiência, conformando o modelo biomédico, que normatiza como os médicos categorizam, classificam e diagnosticam formas clínicas de diversidade funcional de acordo com um padrão de saúde “universal”. O modelo biomédico foi substituído pelo modelo social, em que não é a pessoa, portanto, que apresenta uma deficiência, mas a sociedade e o meio. Na Espanha, surgiu recentemente o modelo da diversidade funcional, que ainda não se difundiu para outros países. Esta terminologia de diversidade funcional nasceu no movimento de vida independente de forma espontânea e que tem o objetivo de emancipação do coletivo de PcD, que desenvolveriam a capacidade de controlar sua própria vida.

#diversidadefuncional #vidaindependente #deficiencia #estigma #UFPB


5 de junho de 2021

DEFICIÊNCIA FÍSICA COMO DIVERSIDADE HUMANA

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A discussão sobre diferenças e diversidade na sociedade vem se tornando uma tendência, motivada internacionalmente por documentos que apontam para a importância do princípio de “educação para todos” e “saúde para todos”. Neste vídeo, coloco uma reflexão em torno do direito de ser diferente em um mundo que parece ser feito para os seres serem todos iguais. Na situação das Pessoas com Deficiência (PcD), há um déficit específico em determinada área, seja física, sensorial ou intelectual. As PcD passam por processos de classificação e hierarquização, que promovem a segregação e exclusão, mediadas por estigma, preconceito e discriminação. Contudo, a deficiência é parte da diversidade humana. É uma entre as muitas condições que existe entre todas as nossas características, e se pode dizer que a deficiência é um elemento inevitável da vida, seja transitória ou permanente, em graus variados e em alguma dimensão da existência.

PcD motoras, intelectuais, visuais ou auditivas formam o maior grupo social minoritário no mundo atual, mas embora a própria deficiência seja um elemento importante da diversidade humana, raramente é reconhecida como tal.

#Deficiencia #Diversidade #PcD #Saúde #UFPB


18 de maio de 2021

ACESSO À SAÚDE PELOS POVOS CIGANOS: O LUGAR DE FALA DE UMA EDUCADORA DA ...

A Série DIÁLOGOS DA DIVERSIDADE HUMANA NA SAÚDE II foi o segundo ciclo de encontros acadêmicos associados ao Curso DIVERSIDADE CULTURAL E SAÚDE, do Departamento de Medicina Interna (Centro de Ciências Médicas) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), aberto a alunos e outros membros da comunidade universitária para aprender e discutir questões críticas para a igualdade na saúde, diversidade e inclusão.

A redução das disparidades de saúde e a obtenção de cuidados de saúde equitativos continuam a ser uma meta importante para o sistema de saúde no Brasil. A competência cultural é amplamente vista como um pilar fundamental para reduzir as disparidades por meio de cuidados de qualidade culturalmente sensíveis e imparciais. O cuidado culturalmente competente é definido como o cuidado que respeita a diversidade da população de pacientes e os fatores culturais que podem afetar a saúde e os cuidados com a saúde, como linguagem, estilos de comunicação, crenças, atitudes e comportamentos.

Este foi o segundo dia do II ENCONTRO, realizado em 10/05/21 - ACESSO Á SAÚDE PELOS POVOS CIGANOS, com exposição de Marcilânia Gomes Alcântara, cigana de etnia Calon, pedagoga, pós-graduada em Neuroaprendizagens e Práticas Pedagógicas, professora da Educação Básica do Município de Sousa-PB e Membro do Conselho Nacional de Promoção e Igualdade Racial.

#povosciganos #diversidadeesaude #estigma #calon #sousapb #paraiba #ufpb


9 de maio de 2021

COMO REAGIR DIANTE DE MICROAGRESSÃO RACISTA DE UM PACIENTE?

#racismo #microagressões #profissionaldesaude #diversidade #microinsulto #microinvalidacao #servicodesaude

O racismo em relação a profissionais de saúde é um fator de estresse para os médicos negros. Ignorar esses comentários e "tentar superar" a situação pode manter o fluxo de trabalho e o profissionalismo, mas os profissionais  também devem ter o direito de trabalhar sem serem alvo de abuso verbal, ameaça e intimidação com base na raça, ou de outras questões identitárias, como as de gênero ou religião.

Se um profissional da saúde percebe comentários ou ações preconceituosas de  pacientes que atende, qual deveria ser a sua resposta apropriada?

24 de abril de 2021

PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA EM SAÚDE

Os princípios da prática baseada em evidências (PBE) não são facilmente aplicados na atenção primária em saúde como são no contexto biomédico e mais centrado na doença da assistência hospitalar, onde a PBE foi originalmente desenvolvida. Há que ter em conta o "pensamento complexo", que enfatiza a interconexão e a imprevisibilidade, e é preciso considerar também, entre outros fatores apresentados neste vídeo, que quando se pensa em PBE na clínica ampliada da atenção primária, há em múltiplos problemas indiferenciados e um amplo espectro de interações complexas, como questões clínicas, sociais, culturais, políticas e psicológicas.

#praticabaseadaemevidencias #atencaoprimariaemsaude #complexidade #medicinatranslacional #diretrizesclinicas #perguntapico #profsaude #forumdediscussao #mestradoprofissional #praticabaseadaemexperiencia #clinicaampliada

22 de abril de 2021

SEMIOTÉCNICA DE PALPAÇÃO E PERCUSSÃO DO FÍGADO


Neste vídeo, o colega Prof. José Luis Simões Maroja, professor de nossa disciplina de Semiologia Médica da UFPB, demonstra sinteticamente manobras da semiotécnica de palpação bimanual e percussão limitante do fígado.

O exame é realizado com o paciente em decúbito dorsal e o examinador destro posicionado à direita do paciente. Todo esforço deve ser feito para que o paciente relaxe e evite tencionar a musculatura abdominal. Flexionar os joelhos ou colocar um travesseiro sob os joelhos pode facilitar o relaxamento da musculatura da parede abdominal.

A palpação é realizada para determinar a forma, tamanho, borda, superfície, sensibilidade e consistência do fígado. A palpação com uma mão é usada para indivíduos magros, enquanto a técnica bimanual é melhor para indivíduos obesos ou musculosos e também para palpação profunda. Usando qualquer uma das técnicas, o fígado é sentido melhor na inspiração profunda.

Na maioria dos exames normais, o fígado não é palpável. Casos em que o fígado normal é palpável incluem enfisema, derrame pleural do lado direito, corpo magro, lobo de Riedel ou excursão diafragmática profunda.

No enfisema, os pulmões são hiperexpandidos com achatamento diafragmático, diminuindo assim as bordas superior e inferior do fígado. Um grande derrame pleural à direita terá o mesmo efeito de reduzir os limites do fígado. A percussão precisa da borda superior do fígado em um paciente com derrame pleural à direita pode ser difícil devido à densidade do fluido que recobre o embotamento do fígado. Pessoas com excursão diafragmática profunda, como cantores e atletas de resistência, podem ter um fígado palpável na inspiração.

As doenças mais comuns associadas a um fígado palpável e aumentado incluem câncer metastático, linfoma, insuficiência cardíaca congestiva, hepatite alcoólica e esteatohepatite não alcoólica (por exemplo, desvio jejunoileal e nutrição parenteral total). A cirrose pode estar associada a um fígado de tamanho pequeno, normal ou aumentado.

Para palpação bimanual, a mão esquerda do examinador é mantida posteriormente, entre a décima segunda costela e a crista ilíaca, lateralmente aos músculos paraespinhosos, pressionando suavemente para cima para elevar a maior parte do fígado a uma posição mais acessível, enquanto a mão direita é mantida anterior e lateralmente à musculatura do reto. A mão direita move-se para cima usando uma pressão suave e constante até sentir a borda do fígado.

A percussão é realizada para determinar o tamanho do fígado, pois as margens deste órgão podem ser estimadas por esta técnica. A borda superior é percutida, eliminando a qualidade ressonante produzida pelo segmento sobrejacente do pulmão. A percussão leve determina melhor a borda inferior do fígado, devido à aposição do fígado à parede abdominal anterior. A extensão inferior pode ser subestimada se uma percussão pesada for usada. A percussão deve ser realizada primeiro na linha hemiclavicular direita e, em seguida, nas linhas médio esternal e axilar anterior. O nível superior normal do fígado está ao nível do mamilo direito, enquanto a margem inferior do fígado está na margem costal direita. O tamanho normal é variável, principalmente em relação ao tamanho corporal, mas geralmente mede cerca de 12 cm.

#palpacaodofigado #examedofigado #semiologiamedica #semiotecnica #joseluismaroja

3 de abril de 2021

A LEI DO INSTRUMENTO OU "O MARTELO DE MASLOW"

A “lei do instrumento”, também conhecida como “martelo de Maslow”, é um viés cognitivo que envolve uma dependência excessiva de uma ferramenta que nos é familiar. Um martelo não é a ferramenta mais apropriada para todos os fins. No entanto, uma pessoa com apenas um martelo provavelmente tentará consertar tudo usando seu martelo, sem sequer considerar outras opções. Preferimos nos contentar com o que temos em vez de buscar alternativas melhores.

Em 1966, o proeminente psicólogo Abraham Maslow publicou “The Psychology of Science: A Reconnaissance” citando essa máxima em referência ao excesso de confiança em uma ferramenta. As ferramentas que podemos aplicar aos problemas alteram a nossa percepção dos desafios que enfrentamos e das soluções adequadas. A tendência é que os trabalhos sejam adaptados às ferramentas, ao invés de se adaptarem as ferramentas ao trabalho. Se alguém tem um martelo, tende a procurar pregos.

Não é nenhuma surpresa especial descobrir que um cientista formula problemas de uma maneira que requer, para sua solução, apenas aquelas técnicas nas quais ele próprio é especialmente hábil. Temos essa tendência de formular nossos problemas de forma a dar a impressão de que as soluções para esses problemas exigem exatamente o que já temos em mãos.

Ao longo dos anos, me encontrei nessa situação, pegando as ferramentas ou abordagens que atendiam muito bem às minhas necessidades no passado e tentando forçá-las a ser a solução certa para meus desafios ou problemas mais recentes.

A verdadeira transformação de qualquer tipo deve ser feita por meio da integração das ferramentas certas e da mentalidade certa.

#leidoinstrumento #martelodemaslow #semiobloghumanitas

1 de abril de 2021

DESAMARRANDO UM NÓ

Os nós são necessários. Sem nós, como se amarrariam os sapatos? (ainda que aí se trate de um laço e não de um nó...). Melhor exemplo é o nó em um barbante, então... E o nó duplo de pescador? Ele tem esse nome não porque seja impossível amarrar - na verdade é muito fácil - mas porque é quase impossível desamarrar. E o nó Górdio? Este foi um dos nós mais teimosos da história e não podia ser desamarrado, não importa o quanto as pessoas tentassem. No final, Alexandre, o Grande, resolveu facilmente a questão cortando-o com uma espada. Mas Alexandre estudou com Aristóteles! Aristóteles, que estudou com Platão! Sua mente teve o benefício de ter sido meticulosamente preparada por uma das maiores mentes que o mundo já conheceu.

É por isso que usamos a frase "nó górdio" para nos referir a qualquer problema que pareça complicado demais para ser resolvido.

Apesar desse mito, não é fácil desfazer certos nós. É preciso mais que uma espada.

#desfazernós #aristoteles #nogordio #maximas 

5 de março de 2021

ANAMNESE - PARTE I: DA IDENTIFICAÇÃO AO INTERROGATÓRIO SISTEMÁTICO

 
Aula inicial sobre ANAMNESE para estudantes de medicina do segundo ano (quarto período) da graduação (CCM/UFPB) - primeira aula teórica da disciplina de Semiologia Médica em modalidade remota. Exposição sobre os ANTECEDENTES (Pessoais, Familiares e Psicossociais) serão ministrados por meio do envio de aula gravada em vídeo para a turma.