24 de junho de 2020

ESTIGMA E PRECONCEITO COMO UM SÓ CONSTRUCTO SOCIAL


Rilva Lopes de Sousa Muñoz

Esta é a tradução livre (não é uma tradução literal) de um artigo da subárea do conhecimento de Psicologia Social, publicado no periódico Social Science & Medicine, edição especial de 2008 (v. 67, n. 3) da revista, resultante das discussões de um grupo de trabalho realizado em 2006, denominado Working Group on Stigma, Prejudice, Discrimination and Health” (Grupo de Trabalho sobre Estigma, Preconceito, Discriminação e Saúde), patrocinado pela escola de saúde pública da Universidade de Colúmbia e de serviço social da Universidade de Washington. Este grupo de trabalho resultou na produção de vários artigos enfocando fatores estruturais, culturais e políticos não reconhecidos, ou pouco estudados, subjacentes às teorias relacionados ao estigma e ao preconceito. Trata-se de um artigo teórico, analítico, publicado originalmente em inglês.

Antes de passar à tradução livre do referido artigo, é necessário apresentar uma breve nota da tradutora, destacando que a presente versão em português  compreende a interpretação do significado do texto original da fonte, ou seja, é uma tradução que se pode chamar de "semântica". É possível que nesta translação de tradutora "amadora", a versão transposta apresente alguns problemas relacionados às equivalências do idioma original do artigo e sua versão para o português. Afinal, a linguagem está ligada à cultura e, além disso, o artigo traduzido está inserido na área sociológica. Entre a tradução "fiel" e a "semântica" é que a primeira é literal, enquanto a segunda é mais flexível e admite uma exceção criativa à fidelidade de 100% ao original.
A seguir, passo à tradução do artigo (título na imagem no topo da presente postagem e referência completa ao final desta).
O artigo é de autoria de pesquisadores conhecidos da linha de estudos sobre estigma e discriminação (PHELAN et al., 2008) e será referido ao longo deste texto, e no corpo do manuscrito traduzido, como Phelan et al. (2008) ou como “os autores”.
Neste artigo, Phelan et al. (2008) tiveram o objetivo de explorar pontos comuns e distinções entre preconceito e estigma. Os autores afirmam que apesar dos esforços já realizados até a data da publicação deste seu artigo, no sentido de consolidar as construções (constructos*) de estigma e preconceito na teoria e na pesquisa, ainda não tinha havido uma comparação dos modelos conceituais para explicar o estigma e o preconceito. Este artigo apresenta, então, uma análise de 18 modelos conceituais de preconceito e estigma. Eles codificaram cada modelo em várias dimensões e compararam os modelos em busca de pontos em comum e também das distinções entre eles, concluindo que os modelos de estigma tendem a se concentrar nos alvos (target, em inglês - como eles denominaram as pessoas estigmatizadas), enquanto modelos de preconceito tratam mais dos processos relacionados aos agressores (estigmatizadores) e às ações discriminatórias individuais. Os autores encontraram, no entanto, muita sobreposição entre os modelos.
Os modelos de estigma geralmente enfocam características individuais, como doenças ou desvios do denominado "normal", enquanto modelos de preconceito geralmente enfatizam características no âmbito do grupo, como raça/cor. Assim, o estigma e o preconceito são processos sociais de exploração/dominação (manter as pessoas em baixo), impor normas sociais (manter as pessoas dentro – das normas) e evitar doenças (manter as pessoas afastadas).
Os autores entendem, a partir deste artigo que, embora existam aspectos únicos para cada um, para estigma e para preconceito, a análise atual indica que a teoria e a pesquisa sobre estes constructos refletem um "único conceito”, ou seja, segundo os autores, empregando uma metáfora, constituem “um único animal". Esforços para reduzir o estigma e o preconceito poderiam se beneficiar se prestássemos atenção a quem e ao quê esses processos servem e também às características dos estigmatizados.
Como epígrafe, o artigo apresenta duas citações diretas dos autores pioneiros no enquadramento teórico dos dois constructos - do estigma e do preconceito (Gordon Allport e Erving Goffman).
“O preconceito étnico é uma antipatia baseada em uma generalização defeituosa e inflexível. Pode ser sentido ou expresso. Pode ser direcionado a um grupo como um todo ou a um indivíduo porque ele é um membro desse grupo” (Gordon Allport 1954 : 9).
"Estigma é a situação do indivíduo que é desqualificado da plena aceitação social" (Erving Goffman 1963: prefácio). O indivíduo estigmatizado é "reduzido em nossas mentes de uma pessoa comum e habitual para uma pessoa contaminada e diminuída" (Goffman 1963:3).
Phelan et al. (2008) afirmam neste artigo que os termos "preconceito" e "estigma" são definidos pelos pensadores que deram vida a cada um - Allport, publicando The Nature of Prejudice, em 1954, e Goffman, no seu livro Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity, em 1963. Desde a publicação desses trabalhos, conjuntos de publicações separadas têm se desenvolvido em torno dos dois conceitos. No entanto, há evidências de que os trabalhos realizados a partir das obras desses sociólogos pioneiros, começaram a se fundir. O aumento da atenção dos pesquisadores do preconceito aos alvos (pessoas estigmatizadas) deste na década de 1990 trouxe maior sobreposição ainda aos trabalhos sobre estigma e preconceito.
Os conceitos de estigma, preconceito e discriminação são cada vez mais utilizados pelos mesmos pesquisadores da área e nos mesmos textos. Em 2006, o Instituto Nacional de Saúde Mental (principal agência federal de pesquisa sobre transtornos mentais dos EUA), reuniu pesquisadores que estudam preconceito e estigma para tratar do problema do estigma em relação às pessoas com doença mental. Nesta conferência, reuniram-se conceitos e pesquisas identificados sobre estigma, preconceito e discriminação. Contudo, argumentam os autores deste artigo que está sendo traduzido, que até onde sabiam eles, ainda não haviam sido comparados modelos conceituais sobre preconceito e estigma (ou seja, até até 2008, ano da publicação do seu ensaio teórico e de revisão analítica). Assim, eles consideraram que era necessário buscar diferenças essenciais entre os modelos de preconceito e estigma, por meio de uma comparação entre os dois constructos, para aprimorar a compreensão dos conjuntos de modelos e revelar o espaço conceitual mais amplo no qual ambos residem.
Então. os autores Phelan et al. (2008) perguntam como questão norteadora doseu artigo: “Estigma e preconceito são uma consequência da aplicação de termos diferentes pelos teóricos pioneiros em diferentes campos para descrever basicamente os mesmos processos, ou existem diferenças mais fundamentais nos processos que foram rotulados de estigma e preconceito?”
Para responder a essa pergunta, os autores revisaram 18 modelos conceituais-chave nos domínios do estigma e do preconceito, que resumiram na Figura 1, um mapa conceitual dos estudos revisados por eles. Alguns dos trabalhos que os autores revisaram são teorias, enquanto outros não – outros são metodológicos e empíricos. Como o preconceito geralmente lida com raça, e esta e o racismo são reconhecidos como conceitos intimamente relacionados, eles incluíram modelos de racismo na categoria de preconceito. Os autores incluíram também modelos que julgaram serem particularmente conhecidos ou influentes ou que contribuíam de maneira única para conceituar estigma ou preconceito. Além disso, quatro deles foram adicionados por sugestão de revisores. Segundo Phelan et al. (2008), o conjunto de 18 modelos que elaboraram "não é exaustivo" (grifo nosso).
Eles analisaram os modelos conceituais de três maneiras. Primeiro, codificaram cada uma das seguintes dimensões: 
(1) Quais são as principais construções do modelo? 
(2) Onde o modelo focaliza atenção (por exemplo, em indivíduos estigmatizados ou em estigmatizadores); em indivíduos que são objeto de estigma ou preconceito (doravante referidos como “alvos” ou estigmatizados); nas interações entre estigmatizadores e alvos; e/ou em estruturas sociais? Se o foco está nos indivíduos, em quais processos o modelo se concentra (cognitivo, emocional, comportamental)? 
(3) A quais características humanas o modelo é aplicável? e
(4) Os processos de estigma/preconceito são vistos como normais ou patológicos?  Como processos comuns entre indivíduos ou que variam entre indivíduos?
Os autores compararam cada par de modelos em busca de contradições ou incompatibilidades - que seriam os casos em que os modelos fazem previsões diferentes. Depois, eles questionaram se as características humanas eram intercambiáveis ​​no modelo (ou seja, características diferentes daquelas explicitamente endereçadas poderiam estar "conectadas" ao modelo?)
Essa análise poderia potencialmente apoiar várias conclusões diferentes: (a) Modelos de estigma e preconceito são paralelos (isto é, descrevem os mesmos fenômenos em termos diferentes) ou complementares (isto é, descrevem partes diferentes de um processo abrangente) - estas conclusões levariam à consideração que são “um animal”, ou seja um só conceito; ou (b) Os modelos seriam contraditórios (ou seja, fazem previsões conflitantes) ou desconectados (descrevem processos distintos e não relacionados), o que levaria à consideração de que há "dois animais", isto é, dois conceitos diferentes.

Sinopses de esquemas conceituais de preconceito e estigma agrupados em modelos de preconceito e modelos de estigma
(1) MODELOS DE PRECONCEITO (organizados cronologicamente)
A natureza do preconceito (Allport, 1954)
"O preconceito étnico é uma antipatia baseada em uma generalização defeituosa e inflexível. Pode ser sentido ou expresso. Pode ser direcionado a um grupo como um todo ou a um indivíduo porque ele é um membro desse grupo ”(p. 9). [...]"O preconceito é, em última análise, um problema de formação e desenvolvimento da personalidade" (p. 41). Uma ampla gama de influências afetaria o desenvolvimento do preconceito, incluindo fatores cognitivos, sociais estruturais, culturais e psicodinâmicos.
Modelo realista de conflito de grupo (Sherif, 1958)
Indivíduos reunidos com objetivos comuns formam estruturas “em grupo” com status e papéis hierárquicos. Se dois grupos são reunidos em condições de competição e frustração, atitudes e ações hostis e distância social se desenvolvem entre eles.
Teoria da identidade social (Tajfel e Turner, 1979)
Os indivíduos têm múltiplas identidades sociais correspondentes a diferentes participações em grupos. A importância das diferentes identidades varia de acordo com o contexto. Quando a identidade com um grupo específico é destacada, a auto-estima ficaria associada à participação nesse grupo e o favoritismo no grupo. O preconceito resulta da necessidade de uma identidade social positiva com o ingresso no grupo. A identidade social é a identificação do indivíduo decorrente do seu senso de pertencimento a um grupo social, como uma percepção e assimilação do eu, arquitetada a partir do grupo ao qual ele pertence. Essa identificação afetaria o indivíduo em aspectos psicológicos e comportamentais, provocando mudanças em seus pensamentos, sentimentos e ações. 
Preconceito aversivo/racismo (Gaertner e Dovidio, 1986)
“O racismo aversivo representa um tipo particular de ambivalência em que o conflito está entre sentimentos e crenças associadas a um sistema de valores sinceramente igualitário e sentimentos e crenças negativas em relação à raça/cor não são reconhecidas. O efeito negativo que os racistas aversivos exercem sobre os negros não é hostilidade ... [mas] desconforto, mal-estar, nojo e, às vezes, medo (Gaertner e Dovidio 1986; pp. 62-3).
Perspectiva cognitiva (Hamilton e Trolier, 1986)
Os sistemas de processos de informação humanos inevitavelmente resultam na categorização dos indivíduos em grupos, o que resulta inevitavelmente em estereótipos e preconceitos dentro do grupo sob a forma de atitudes e comportamentos.
Componentes automáticos e controlados de estereótipos e preconceitos (Devine, 1989)
O conhecimento dos estereótipos é distinto do seu endosso (preconceito). Os estereótipos são aprendidos no início da vida e ativados automaticamente. Crenças pessoais preconceituosas ou sem preconceitos são adquiridas posteriormente, estão sob controle consciente e podem substituir as respostas baseadas em estereótipos.
Racismo como estressor (Clark et al., 1999)
"A percepção de um estímulo ambiental como racista resulta em respostas psicológicas e fisiológicas exageradas ao estresse que são influenciadas por fatores constitucionais, sociodemográficos, psicológicos, comportamentais e respostas de enfrentamento. Com o tempo, essas respostas ao estresse influenciam a saúde" (p. 806).
Racismo sistêmico (Feagin, 2000; Feagin e McKinney, 2003)
O racismo tem sido um aspecto central da cultura e sociedade americanas desde a fundação do país. Ela está enraizada na dependência da riqueza da elite do novo país da escravidão e é mantida por uma ideologia racista de superioridade branca e vantagens sistemáticas para os brancos.
Modelo de conteúdo de estereótipos (Fiske et al., 2002)
"As duas dimensões primárias (do conteúdo do estereótipo) são competência e calor. [...] grupos mistos frequentes combinam alto calor com baixa competência (paternalista) ou alta competência com baixo calor (invejoso), e emoções distintas (pena, inveja, admiração, desprezo) diferenciam as quatro combinações competência-calor" (p. 878)

(2) MODELOS DE ESTIGMA (organizados cronologicamente por Phelan et al., 2008)
Estigma: notas sobre a gestão da identidade deteriorada (Goffman, 1963)
Estigma é "a situação do indivíduo que é desqualificado da plena aceitação social" (prefácio). O indivíduo estigmatizado é “reduzido em nossas mentes de uma pessoa comum e habitual para uma pessoa contaminada e inferior" (p. 3). Goffman enfatiza o estigma como promulgado em "interações mistas" entre indivíduos estigmatizados e não estigmatizados e também como os indivíduos estigmatizados reagem nessas interações.
Estigma social: a psicologia dos relacionamentos marcados (com marca, estigma) (Jones et al., 1984)
“O processo estigmatizante envolve categorizações envolventes, acompanhadas de afetos negativos, tipicamente ligados à ambivalência ou racionalizados através de alguma versão de uma hipótese de mundo justo” (p. 296). Jones et al. identificaram seis dimensões de “marcas” estigmatizantes: ocultação, curso, perturbação, qualidades estéticas, origem e perigo.
Teoria da rotulagem modificada de transtornos mentais (Link et al., 1989)
A socialização leva a crenças sobre como a maioria das pessoas trata pacientes mentais. Quando os indivíduos começam um tratamento psiquiátrico, essas crenças se tornam pessoalmente relevantes. Quanto mais os pacientes acreditam que serão desvalorizados e discriminados, mais se sentem ameaçados ao interagir com os outros. Eles podem empregar estratégias de enfrentamento que têm  consequências negativas para redes de apoio social, empregos e auto-estima.
Modelos de ameaça de identidade (Crocker et al., 1998; Major e O’Brien, 2005; Steele e Aronson, 1995)
Segundo a teoria da ameaça, quando um indivíduo vai realizar uma ação em que os estereótipos de seu grupo sejam evidenciados antes da ação tencionada, o seu desempenho será enfraquecido, "confirmando", assim, a estereotipia que é aplicada ao grupo alvo.

Na discussão do artigo, o foco da análise foi o mapeamento do terreno teórico do estigma e do preconceito. Primeiro, os autores compararam os fenômenos abordados pelos modelos existentes de preconceito e estigma. Eles começaram enumerando as construções centrais de cada modelo separado, ajustando-as no mapa conceitual mostrado na figura 1, que os autores intitularam de “fatores envolvidos no estigma e no preconceito”. Como na codificação aberta do texto, os autores afirmaram que acreditavam que essa abordagem de baixo para cima permitiria identificar áreas de foco sobrepostas e não sobrepostas nos modelos analisados de estigma e preconceito. 

Figura 1 - Fatores envolvidos no estigma e no preconceito (Fonte - Phelan et al., 2008)

Cada caixa do mapa conceitual representa uma construção (de constructo) e inclui os modelos que incluem esta construção. Os autores não indicaram relações causais específicas entre construtos; portanto, o mapa conceitual desenhado não representa causalidade. No entanto, os autores pretenderam que a figura representasse uma progressão aproximada de efeitos causais da esquerda para a direita. Acima da linha pontilhada há os processos referentes a autores de estigma e preconceito. Abaixo da linha, estão os processos relativos aos alvos. Na linha pontilhada existem processos envolvidos pelos dois grupos.
Na coluna 1, há fontes ou funções básicas de estigma e preconceito e de respostas a estes processos. Acima da linha, estão as diferenças de poder, que Link e Phelan (2001) consideram necessárias para um grupo efetivamente estigmatizar o outro; desejo de poder e ganho econômico (por exemplo, os motivos de lucro subjacentes à escravidão dos EUA); o desejo dos grupos sociais por ordem e conformidade, implicado pela identificação das normas referidas por Goffman como a causa do estigma; e pressões evolutivas, que Kurzban e Leary (2001) citam como fonte de toda estigmatização.
Abaixo da linha, estão os principais objetivos sociais (Fiske, 2004 ) que o estigma e o preconceito ameaçam e influenciam as estratégias de enfrentamento por parte dos estigmatizados (Swim e Thomas, 2006) Valores culturais amplos ou locais influenciam quais características têm mais probabilidade de serem alvo de estigma e preconceito e quais valores sociais são mais ameaçados por estigmatizados (Yang et al. 2007).
Na coluna 2, há concorrência intergrupos, que vemos como resultado de desejos econômicos e de poder; estereótipo e rótulos, enfatizados como a base cognitiva do preconceito e estigma na maioria dos nossos modelos; e normas (Goffman, 1963).
Na coluna 3, há uma gama de processos cognitivos e emocionais gerados pelas forças nas colunas 1 e 2. Esses processos são mais frequentemente incluídos quando se referem os estigmatizadores, mas alguns modelos também atendem a esses processos nos estigmatizados.
Na coluna 4, há três maneiras pelas quais os processos nas colunas anteriores são traduzidos em comportamento e outros resultados concretos que afetam os objetivos. A discriminação estrutural refere-se a práticas estruturadas que podem operar independentemente de atitudes preconceituosas, por exemplo, ambientes construídos que impedem o funcionamento de pessoas com deficiência física. O comportamento discriminatório pode ocorrer fora das interações, por exemplo, quando um empregador descarta um pedido de emprego divulgando um histórico de hospitalização psiquiátrica de um candidato. Finalmente, as forças nas colunas anteriores, trabalhando tanto com os autores quanto com os alvos, moldam os processos que se desdobram em "interações mistas" (Goffman, 1963 ) entre estigmatizadores e estigmatizados.
Na coluna 5, estão as respostas dos alvos à discriminação e interações problemáticas com os estigmatizadores, incluindo percepções de estigma ou preconceito, estresse e enfrentamento. Estes, por sua vez, afetam os desfechos da vida dos estigmatizados, como status, auto-estima, trabalho, moradia, desempenho acadêmico e saúde, conforme descrito na Coluna 6. A Coluna 6 também inclui esses resultados referentes aos estigmatizadores, porque conforme sugerido pelos modelos que enfatizam conflitos e dominação (Feagin 2000 ; Parker e Aggleton 2003), quando os estigmatizados perdem em termos de resultados como trabalho, moradia e renda, os estigmatizadores ganham.
Este mapa conceitual construído pelos autores do artigo revela uma variação considerável entre os modelos em termos dos processos em que eles se concentram. Os modelos de estigma enfatizam um pouco mais os estigmatizados, particularmente em termos de estereótipos / expectativas, identidade e emoções (Coluna 3). Os modelos de preconceito prestam mais atenção a esses processos nos estigmatizadores, bem como ao comportamento discriminatório individual fora das interações. Essas diferenças refletem os focos contrastantes nos dois trabalhos seminais sobre preconceito e estigma: Allport (1954) claramente se concentrou no agressor, enquanto Goffman (1963) se concentrou mais na vítima. Contudo, a figura 1 não revela uma linha de falha clara entre os modelos de estigma e preconceito e, de fato, mostra considerável sobreposição de foco.
Finalmente, o conceito de preconceito refere-se especificamente às atitudes dos perpetradores e, portanto, pode parecer mais restrito em escopo do que o conceito de estigma. Contudo, este MC mostra que, quando se consideram modelos explicativos de preconceito que incluem não apenas o construto em si, mas também suas causas e conseqüências, o escopo dos modelos de preconceito e estigma é semelhante.

Previsões contraditórias
Em seguida, comparamos pares de modelos em busca de previsões contraditórias. Phelan et al. (2008) identificaram dois pontos de discórdia. O primeiro diz respeito ao impacto do estigma ou preconceito no bem-estar psicológico dos estigmatizados. Com base na natureza situacional do estigma e na importância do enfrentamento, os modelos de ameaça de identidade de Crocker et al. (1998) e de Major e O'Brien (2005) argumentam que alvos de estigma e preconceito não são necessariamente tão psicologicamente prejudicados quanto a maioria dos modelos sugere. O modelo evolutivo não nega que os processos sociais possam desempenhar um papel, mas argumenta que os processos evolutivos realmente explicam a maior parte da estigmatização. Modelos sociais e psicológicos de preconceito e estigma geralmente não mencionam fatores evolutivos. Nenhuma dessas discordâncias representa um cisma entre modelos de preconceito e estigma. Os modelos de ameaça à identidade e de evolução se identificam com o estigma, e os modelos dos quais diferem incluem os modelos de estigma e preconceito. No geral, a revisão dos modelos separados levou os autores do artigo (PHELAN et al., 2008) a concluir que as diferenças de foco indicam complementaridade e não contradição. 

Normalidade/processos comuns versus psicopatologia/variação individual
Em seguida, os autores consideraram se os modelos veem o estigma ou o preconceito como sendo enraizados em processos normais que funcionam de maneira semelhante entre os indivíduos, ou se eles se concentram nas diferenças individuais ou na psicopatologia. 
Em geral, os modelos de estigma enfatizam que o estigma está enraizado em processos normais comuns entre os indivíduos. Goffman expressa isso de maneira mais eloquente: “a gestão do estigma é uma característica geral da sociedade [...] os estigmatizados e os normais têm a mesma composição mental, e essa é necessariamente a norma em nossa sociedade; quem pode desempenhar um desses papéis [...] possui exatamente o equipamento necessário para desempenhar o outro” (referindo-se a  Goffman 1963: 130-31). 
A maioria dos modelos de preconceito também enfatiza processos normais comuns entre indivíduos. Tajfel atribuiu a discriminação fora do grupo a "uma norma genérica de comportamento" que é "extraordinariamente fácil de desencadear" (Tajfel,1970: 102). Feagin (2000) enfatiza que o racismo está enraizado no sistema e não nos indivíduos. Embora Allport considere o preconceito como um processo normal (o capítulo 2 de seu livro é intitulado “a normalidade do preconceito”), ele se destaca entre os modelos. 
Phelan et al. (2008) analisaram também a ênfase colocada na variação individual e na psicopatologia (isto é, personalidades preconceituosas versus personalidades tolerantes). Eles afirmam que não encontraram nada nos modelos que enfatizasse processos comuns que pudessem negar o papel de variações individuais. Por exemplo, ao enfatizar as raízes do preconceito em processos comuns, Sherif (1958) observa que "há boas razões para acreditar que algumas pessoas que crescem em circunstâncias infelizes da vida podem se tornar mais intensas em seus preconceitos e hostilidades" (Sherif, 1958: 350). Da mesma forma, Allport (1954) não nega o papel dos processos mais universais. Portanto, os autores do artigo que está sendo traduzido dizem que não viam isso como uma linha divisória entre os conceitos de estigma e preconceito.

Intercambiabilidade de características que são objeto de estigma e preconceito
A análise de Phelan et al. (2008) sobre intercambialidade das características sugere variações nos modelos conceituais que não se alinham à distinção estigma/preconceito. No entanto,  eles encontraram uma distinção que consideraram significativa e questionaram: “um determinado modelo poderia ser aplicado a características diferentes daquelas abordadas explicitamente pelo próprio modelo?” Em outras palavras, as características que são objeto de estigma ou preconceito são equivalentes?
Todos, exceto um dos modelos de estigma, segundo os autores do artigo, são abrangentes em termos das características que abordam, com e exceção da teoria da rotulagem modificada de Link et al., que se aplica especificamente a doenças mentais; no entanto, o modelo deve ser aplicável a qualquer característica estigmatizada sobre a qual atitudes culturais são aprendidas antes da aquisição do rótulo estigmatizado. Por exemplo, os estigmas tribais de Goffman, marcas de caráter individual e abominações do corpo, parecem cobrir todas as formas imagináveis ​​de estigma ou preconceito. Da mesma forma, vários dos modelos de preconceito não estão vinculados a determinados grupos internos e externos, e a teoria da identidade social é baseada em pesquisas que mostram que características arbitrariamente identificadas podem servir como base de discriminação (Tajfel, 1970). No entanto, outros modelos de preconceito são mais restritivos, como o de Allport, que antecedeu o de Goffman, e se concentra na nacionalidade, raça/etnia e religião. Para alguns desses modelos mais restritos, segundo Phelan et al. (2008), é fácil imaginar a substituição de outras características humanas por raça. Eles exemplificam com a análise de Clark et al. (1999), das consequências estressantes da discriminação, que devem ser aplicadas a qualquer característica que seja alvo de estigma ou preconceito. No entanto, em outros casos, essa substituição não faz sentido. Isso é mais claro para Allport (1954) e para Feagin (2000) no modelo de racismo sistêmico.
Embora grande parte da análise de Allport possa se aplicar a características como doença mental ou desvio sexual, uma afirmação chave é a seguinte: “Em todas as sociedades do mundo, a criança é vista como membro dos grupos de seus pais. Ela pertence à mesma raça/cor, tradição familiar, religião, casta e status ocupacional” (Allport 1954: 31). O mesmo não pode ser dito para a maioria das doenças e deficiências ou “desvios” da norma, como sexualidade não normativa, que podem ser alvo de estigma ou preconceito. Elas podem ser mais comuns em algumas famílias do que em outras, mas não são compartilhadas pelas famílias da mesma forma que raça/cor, religião e casta. Por isso, Phelan et al. (2008) acreditam que essa distinção entre o que chamaram de características do "grupo" (compartilhadas por membros da família) e características do "indivíduo" (aquelas que ocorrem mais esporadicamente nas famílias) é uma significativa descoberta feita na sua análise de modelos de preconceito e estigma.
Essa distinção é reforçada por uma avaliação das características humanas que foram analisadas em termos de “estigma” e “preconceito” na literatura publicada. Phelan et al. (2008) pesquisaram os títulos dos artigos de periódicos indexados no Psycinfo a cada cinco anos, de 1955 (o ano após a publicação do pioneiro “The Nature of Prejudice”, de Allport) até 2005, e analisaram os artigos para identificar as características humanas que eles avaliaram. Esses anos foram escolhidos como uma amostra dos 52 anos entre a publicação de “The Nature of Prejudice” e a data da publicação do artigo que está sendo traduzido e sintetizado aqui. Eles localizaram 162 artigos com “estigma” no título e 139 com “preconceito”. O número de artigos relevantes aumentou constantemente ao longo do tempo; consequentemente, 46% dos artigos foram publicados em 2005 e 75% dos artigos foram publicados em 1995 ou posteriormente. Os resultados são mostrados na tabela 1.


Na maioria dos casos (62%), o “preconceito” estava relacionado à raça, seguido por 11% para artigos que tratavam do preconceito como um fenômeno geral. Nesses casos, raça ou etnia seria implicitamente considerada uma característica central dos estudos. Por outro lado, uma proporção esmagadora de artigos com “estigma” no título - 92% -  enfocava doenças, deficiências ou desvios comportamentais ou de identidade. Phelan et al. (2008) usaram o termo “desvio” não como um termo pejorativo, mas no sentido sociológico clássico de desvio das normas de um grupo social específico. Eles incluíram comportamento e identidade desviantes. Por exemplo, o desvio sexual pode ser definido em termos de comportamento ou identidade; ambos são objetos de estigma e preconceito. Apenas 6% dos artigos de estigma tratavam de raça, etnia ou gênero.

Por que algumas características se tornam alvo de estigma e preconceito e outras não?
Essa distinção entre os tipos de características estudadas em nome de preconceito versus estigma levou Phelan et al. (2008) a outra pergunta: Por que características particulares se tornam objeto de estigma e preconceito, se existem diferentes razões para diferentes características? Muitos dos modelos que eles examinaram enfatizam que o que estigma e preconceito são socialmente construídos e variam ao longo do tempo e do local. Para os autores, este é um aspecto importante do estigma e do preconceito. Ao mesmo tempo, a escolha de características humanas específicas como alvos de estigma e preconceito não seria um processo aleatório. Assim, eles acreditam que as razões pelas quais determinadas características são selecionadas podem representar uma variação importante que foi revelada pela comparação que fizeram no mapeamento de modelos de estigma e preconceito.
Phelan et al. (2008) discutiram anteriormente a associação de preconceito com “grupo” e estigma com características “individuais”. Porém, depois eles fazem uma distinção adicional entre o que consideraram os dois principais tipos de características abordados na literatura sobre estigma:  doença / incapacidade / identidade desviante. Com base nessas distinções, os autores desenvolveram uma tipologia de funções de estigma e preconceito. No entanto, eles não sugerem que um estigma e preconceito sejam distinguidos por causa da "função", pois usaram  o termo para indicar as fontes, razões ou motivos de estigma e preconceito.
Em seguida, os autores propõem que haja três funções de estigma e preconceito: (1) exploração/dominação, (2) aplicação de normas sociais e (3) prevenção de doenças. Eles também se referiram a estas categorias como formas de manter as pessoas em posição de inferioridade, mantendo as pessoas dentro das normas  e manter as pessoas afastadas.

Exploração e dominação
Alguns grupos devem ter menos poder e menos recursos para os grupos dominantes terem mais. Alguns grupos fornecem trabalho que é explorado por outros ou executam tarefas desagradáveis ​​ou perigosas que outros preferem evitar. As ideologias se desenvolvem para legitimar e ajudar a perpetuar essas desigualdades e, neste ponto, os autores se referem a Marx e Engels. Phelan et al. (2008) argumentam que a exploração e a dominação, juntamente com suas ideologias correspondentes, são uma função básica do estigma e do preconceito. Eles destacam que raça é um exemplo claro. Eles recorrem a Feagin, que descreve como o racismo foi "essencial para a fundação dos Estados Unidos" Feagin, 2000: 2). Continuam citando este último autor: “No coração da Constituição estava a proteção da propriedade e da riqueza da burguesia abastada na nova nação” (Feagin, 2000: 10). A escravidão era vista como uma ferramenta essencial para manter a riqueza e a discriminação e, portanto, era considerada necessária. Ideologias que viam os afro-americanos como inferiores, menos dignos e perigosos (ou seja, vistos por meio de estereótipos) foram desenvolvidas para legitimar a discriminação.
Por esse raciocínio, Phelan et al. (2008) também consideraram o estigma e o preconceito contra mulheres, pessoas de baixo nível socioeconômico e grupos minoritários étnicos como arraigados na exploração e no domínio por meio da aplicação de normas sociais . As sociedades também acham necessário manter a conformidade com as normas sociais. Nesse sentido, Phelan et al. (2008) propões, então, que o não cumprimento dessas normas, geralmente expressas em termos de moralidade ou caráter (e citam Goffman, 1963), é um segundo fundamento para estigmatização e preconceito. Aqui, a função do estigma e do preconceito pode ser fazer com que os “desviantes da norma” se conformassem e se juntassem ao grupo, como na vergonha reintegrativa, citando Braithwaite (1989), ou pode ser para esclarecer para outros membros do grupo os limites do comportamento e identidade aceitáveis, assim como as conseqüências para a não conformidade (citando Erikson, 1966). Em ambos os casos, o objetivo seria aumentar a conformidade com as normas. Esse tipo de estigma e preconceito deveria se aplicar apenas ao comportamento ou identidade percebida como voluntária. Por exemplo, embora as pessoas com retardo mental possam se comportar de formas divergentes, Phelan et al. (2008) não incluíram retardo mental no seu estudo, porque não se pode esperar que a aplicação de estigma e preconceito mude o comportamento. Exemplos dessa forma de estigma e preconceito são numerosos, como eles citam: comportamentos ou identidades sexuais não normativas, como homossexualidade, poligamia ou (em alguns contextos) sexo extraconjugal; desvios políticos; várias formas de comportamento criminoso, como roubo, estupro ou assassinato; abuso de substâncias; tabagismo; talvez obesidade e algumas doenças mentais, como depressão.
Embora haja discordância sobre se as orientações e identidades sexuais são voluntárias, Phelan et al. (2008) afirmaram que acreditam que o estigma ou preconceito contra pessoas com orientações e identidades sexuais não normativas se baseia na percepção pública de que são voluntárias e, portanto, as incluímos sob estigma e normas baseadas em normas. preconceito. Essa função de estigma e preconceito está alinhada com a exploração/dominação, na medida em que o grupo dominante é influente na definição do inaceitável. No entanto, difere de maneira importante porque o grupo dominante não lucra de maneira significativa com o trabalho dos desviantes. acreditamos que o estigma ou preconceito contra pessoas com orientações e identidades sexuais não normativas se baseia na percepção pública de que são voluntárias e, portanto, as incluímos sob estigma e preconceito baseados em normas. Essa função de estigma e preconceito estaria, segundo eles, alinhada com a exploração/dominação, na medida em que o grupo dominante é influente na definição do que deve ser considerado inaceitável. No entanto, a diferença está no fato de que o grupo dominante não lucra de maneira significativa com o trabalho dos desviantes. Por isso, os referidos autores acreditam que o estigma ou preconceito contra pessoas com orientações e identidades sexuais não normativas se baseia na percepção pública de que são voluntárias e, portanto, Phelan et al. (2008) as incluíram sob estigma e preconceito baseados em normas.

Prevenção de doenças
Para Phelan et al. (2008), um grande conjunto de características ainda precisa ser explicado em termos de função de estigma e preconceito. Na revisão de artigos de periódicos (tabela 1), eles agruparam esses itens como doença e incapacidade e constituíram o maior conjunto de artigos com a palavra “estigma” no título. Entre estas estão incluídas doenças mentais, incluindo retardo mental, doenças físicas como câncer, doenças de pele e AIDS, deficiências físicas e imperfeições, como falta de membros, paralisia, cegueira e surdez. Novamente, o grupo dominante não lucra com o trabalho de pessoas com essas características; na verdade, elas têm problemas para conseguir emprego. Phelan et al. (2008) afirmaram que os do grupo dominante não estavam tentando controlar seu comportamento ou dar o exemplo para os outros, submetendo-os ao estigma e preconceito. Os autores consideraram difícil explicar essa forma de estigma e preconceito em termos puramente sociais ou psicológicos, e se voltaram para a psicologia evolucionária, citando Kurzban e Leary (2001) e Neuberg et al. (2000), que argumentam que existem pressões evolutivas para evitar que membros de uma espécie sejam “infectados por parasitas” (grifo nosso). Parasitas podem levar a "desvios do fenótipo normal (saudável) do organismo"como assimetria, marcas, lesões e descoloração, além de  anomalias comportamentais devido a danos nos sistemas de controle muscular. Eles argumentam que a vantagem de evitar a doença "pode ​​ter levado à evolução de sistemas que consideram os desvios do fenótipo típico da espécie local... sem atrativos" (reticências e aspas são dos autores); e que sistemas podem se desenvolver em que as pessoas “desejam evitar... proximidade de indivíduos potencialmente parasitados”.
Quanto à estética, um estudo de Jones et al. (1984) destaca seis dimensões de “marcas” estigmatizadas. Uma explicação evolutiva para evitar doenças seria compatível com a preferência estética dos seres humanos pela simetria facial (citam Grammar; Thornhill, 1994), que se desenvolve cedo na vida e entre culturas e de que as anomalias físicas parecem “induzir automaticamente respostas afetivas 'primitivas' no espectador, não mediadas por rótulos ou atribuições causais” (citação de Jones et al. 1984: 226). Eles salientam também que, consistente com Kurzban e Leary's (2001), o argumento de que a repulsa deve ser a principal emoção associada ao estigma inclui reações afetivas ao desvio físico, incluindo repugnante, nauseante, ofensivo, doentio, repulsivo, revoltante (citam novamente Jones et al. 1984).
A explicação evolutiva aplica-se mais claramente a doenças visíveis, deformidades e desvios nos movimentos físicos. Se o "fenótipo atípico da espécie" pode ser estendido a doenças que não são necessariamente visíveis, como o câncer, e ao funcionamento psicológico que parece "doente", como a psicose, o modelo evolutivo pode se aplicar amplamente à categoria "doença e incapacidade". No entanto, essa ampla aplicação depende criticamente da força do viés em relação a falsos positivos, o que é um fator desconhecido. Como faltam evidências para conectar muitas doenças estigmatizadas à prevenção de parasitas, a explicação evolutiva deve ser considerada provisória.
De acordo com esse argumento, a função do estigma e do preconceito para evitar doenças está enraizada no passado evolutivo, e não nas atuais pressões sociais. As pessoas podem de fato evitar conscientemente outras porque parecem estar infectadas. No entanto, as fortes reações emocionais envolvidas nesse tipo de estigma e preconceito, bem como sua aplicação a indivíduos que não são realmente infectados (“falsos positivos”), são atribuídas à sobrevivência e procriação desproporcionais de indivíduos que exibiram extrema vigilância, resultando em em reações exageradas em atualmente observadas. Assim, Phelan et al. (2008) salientam que quando eles  se referem à função de evitar estigma ou preconceito, estão se referindo à sua função passada, não atual.
Os autores destacam que Stangor e Crandall (2000) argumentaram que toda estigmatização está enraizada na ameaça percebida ao indivíduo ou à cultura, incluindo conflitos intergrupos, ameaças à saúde, características físicas que denotam ameaça, crença em um mundo justo e ameaças morais. Cada um de nossos três tipos de estigma e preconceito pode ser interpretado como ameaça (dominação/exploração defende contra a ameaça de perda de poder e vantagem econômica; a imposição de normas defende contra a ameaça de desordem social e danos aos membros do grupo; e a prevenção de doenças defende contra ameaça de infecção). No entanto, particularmente para a exploração / domínio, os modelos que enfatizam o papel de diferenças de potência e de estado em estigma e preconceito (citam Feagin 2000; Fiske et al 2002; Link e Phelan 2001; Parker e Aggleton 2003) fornecem uma representação mais precisa. Consequentemente, a função do estigma e do preconceito, baseada na exploração e na dominação, é o desejo de manter vantagem. Omitindo o conceito de exploração/dominação e subordinando-o ao conceito de ameaça, os autores acreditam, retira-se do esquema funcional o que o marca como estigma e preconceito baseados em grupo, como o racismo.
Os autores consideraram que o esquema funcional de Kurzban e Leary (2001) se sobrepõe fortemente ao deles e corresponde considerando-se funções de aplicação de normas, exploração dominação e prevenção de doenças. Ambos os esquemas também correspondem intimamente aos de Goffman (1963), com três tipos de estigma - estigmas tribais, manchas de caráter individual e abominações do corpo. Goffman, no entanto, não os analisou em termos de suas funções. Na medida em que os comportamentos adaptativos no passado são atualmente adaptativos, o estigma e o preconceito podem ser co-determinados por vestígios biológicos de pressões de adaptação passadas e pelas atuais pressões sociais e psicológicas. Por exemplo, os grupos sociais se beneficiam agora, como no passado distante, de dominar e explorar outros grupos. Da mesma forma, o controle de pelo menos alguns tipos de comportamento desviante serve ao bem-estar do grupo agora como no passado. Nesses casos, quaisquer que sejam as funções evolutivas que tenham sido cumpridas, elas são fortemente reforçadas pelas atuais funções sociais. Acreditamos que essas funções sociais são um foco mais produtivo para a compreensão e, principalmente, a redução do estigma e do preconceito. 
Por outro lado, como discutido acima, achamos difícil explicar o estigma e o preconceito para evitar doenças em termos de funções atuais. Embora seja funcional evitar alguém com uma doença infecciosa grave, é difícil discernir a função de evitar alguém com uma doença não infecciosa ou imperfeição física. É o ilógico dessa evitação, bem como as reações emocionais fortes e aparentemente automáticas a esses indivíduos que nos levam a recorrer a processos evolutivos. Atualmente, é impossível determinar em que medida o estigma e o preconceito podem ser atribuídos às pressões evolutivas e em que extensão podem ser devidos às atuais pressões sociais / psicológicas: Todo ou nenhum desses tipos de estigma pode ter raízes evolutivas. De maneira mais geral, os dados não estão disponíveis para determinar quais das três explicações funcionais que comparamos - Todo ou nenhum desses tipos de estigma pode ter raízes evolutivas. De maneira mais geral, os dados não estão disponíveis para determinar quais das três explicações funcionais que comparamos - Todo ou nenhum desses tipos de estigma pode ter raízes evolutivas. 

Distinções e pontos comuns nos processos de estigma / preconceito nas três funções
Nossa tipologia funcional levanta a questão de saber se o processo de estigma / preconceito varia dependendo da função. Por exemplo, o raciocínio por trás do estigma e do preconceito baseado na exploração / dominação sugere que a competição intergrupos, estereótipos depreciativos e discriminação na alocação de recursos podem ser particularmente proeminentes e emoções de piedade ou medo e ódio também podem ser importantes. 
Entretanto, sugerimos que os processos sociais envolvidos na promulgação e manutenção do estigma e do preconceito são mais parecidos do que diferentes quando uma característica humana é selecionada como base para o estigma e o preconceito. Todos envolvem categorização, rotulagem, estereotipagem, emoções negativas, desconforto interacional, rejeição social e outras formas de discriminação, perda de status e outros efeitos nocivos nas chances de vida dos alvos, bem como gerenciamento e enfrentamento do estigma. As experiências de diferentes grupos-alvo podem tornar-se "homogeneizadas" por uma confluência dessas pressões. Os autores citam Morone (1997), que descreve como os grupos raciais, étnicos e imigrantes se tornam estereotipados como ameaças morais e de saúde à maioria. Aqui, o estigma e o preconceito enraizados na exploração/dominação põem em serviço as outras duas bases do estigma e do preconceito: imposição de normas e prevenção de doenças. Da mesma forma, embora a exploração possa não ter sido a função original do estigma e preconceito contra pessoas com depressão ou AIDS, essas pessoas são mais vulneráveis ​​à exploração como resultado do status social degradado que atende a todas as formas de estigma e preconceito. Finalmente, o estigma e o preconceito contra algumas características cumprem mais de uma função. Por exemplo, o estigma e o preconceito associados ao HIV/AIDS provavelmente se baseiam no cumprimento das normas e na prevenção de doenças.
Uma área em que as distinções baseadas na função podem ser particularmente importantes é a questão de como prevenir ou reduzir o estigma e o preconceito. Alguns aspectos do estigma e do preconceito podem ser reduzidos sem atenção à função. As leis anti-discriminação diminuíram a discriminação e não dependem de uma consideração da função. Argumentamos, no entanto, que a redução do estigma e do preconceito será aprimorada pela atenção à função. O preconceito sutil, mas significativo, contra os negros persiste, apesar das mudanças reais realizadas pela lei (Gaertner; Dovidio 1986) A exploração contínua de afro-americanos pode ajudar a explicar por que o preconceito racial tem sido tão difícil de erradicar: A exploração continuada requer justificação contínua. As legitimações modernas são mais sutis, mas permanecem poderosas. O estigma e o preconceito baseados na exploração / dominação não podem ser completamente eliminados sem mudanças na hierarquia de poder (Parker e Aggleton 200 ). Da mesma forma, pode ser difícil erradicar o estigma e o preconceito baseados na imposição de normas sem mudanças nas normas sociais.
Uma base evolutiva para estigma e preconceito baseada na prevenção de doenças pode parecer argumentar contra qualquer possibilidade de redução do estigma ou preconceito. Mas isso não é necessariamente verdade. Os papéis sexuais também podem ter alguma base evolutiva, mas podem ser alterados. O estigma e o preconceito baseados em doenças podem operar amplamente através de reações emocionais automáticas, e a familiaridade pode reduzir essas reações, assim como a dessensibilização por exposição pode reduzir fobias baseadas na evolução. Consequentemente, a pesquisa sugere que o contato pessoal é uma das abordagens mais promissoras para reduzir o estigma e o preconceito associados à doença mental (Kolodziej; Johnson 1996) Se nosso esquema particular das funções de estigma e preconceito é ou não útil, acreditamos que os esforços para reduzir o estigma e o preconceito serão aprimorados, considerando-se por que a característica é alvo de estigma e preconceito.

Conclusões: Um animal ou dois?
A conclusão de Phelan et al. (2008) foi de que sua análise sugere algumas diferenças de ênfase e foco, mas concluímos que modelos de preconceito e estigma descrevem um único animal. No entanto, distinções nas funções de estigma e preconceito nos levaram a delinear três subtipos deste animal. Os autores acreditam que pode ser feita uma distinção útil entre estigma e preconceito, com base na exploração e dominação (manter as pessoas em baixo), aplicação de normas (manter as pessoas dentro das normas) e prevenção de doenças (manter as pessoas afastadas). Essa tipologia distinguiria, segundo eles o trabalho nas tradições de estigma e preconceito. Embora essas distinções estejam diminuindo, o trabalho na tradição do preconceito cresceu a partir de preocupações com processos sociais impulsionados pela exploração e dominação, como o racismo, enquanto o trabalho na tradição do estigma tem se preocupado mais com processos conduzidos pela imposição de normas e prevenção de doenças. A análise de Phelan et al. (2008) sugere, no entanto, que esses processos são bastante semelhantes e fazem parte do mesmo animal.
Phelan et al. (2008) perguntam, então, “Como devemos chamar esse animal?” e prosseguem: “ao longo deste artigo, emparelhamos de forma agnóstica os termos “estigma” e “preconceito” ao investigarmos a relação entre os conjuntos correspondentes de modelos conceituais.” No futuro, eles dizem que seguirão Dovidio et al. (2000) [Dovídio também é coautor do estudo que está sendo traduzido) e outros no uso do termo “estigma” ao se referir a um processo mais amplo, incluindo muitos componentes mostrados na figura 1, e “preconceito” para se referir aos componentes atitudinais desse processo.
Por fim, Phelan et al. (2008) afirmam que sua comparação de modelos conceituais de estigma e preconceito se mostrou proveitosa de várias maneiras. Primeiro, a forte simpatia e o alto grau de sobreposição que encontraram entre os modelos de estigma e preconceito devem incentivar os estudiosos a atravessar as linhas de estigma/preconceito ao procurar teoria, métodos e descobertas empíricas para orientar seus novos empreendimentos. Além disso, eles consideram que o mapa conceitual que geraram (figura 1) pode ajudar pesquisadores a identificar novas construções relevantes para seus pensamentos e pesquisas atuais. Finalmente, Phelan et al. (2008) dizem que esperam que a distinção entre estigma e preconceito baseada na exploração/ dominação e aplicação de normas e prevenção de doenças seja útil para entender o estigma e o preconceito de maneira mais completa e reduzir os dois animais a apenas um.

* Constructo, segundo Martins e Pelissaro (2005: 83): 
"Constructos podem ser entendidos como operacionalizações de abstrações que os cientistas sociais consideram nas suas teorias, tais como: status social; custo social; inteligência; risco, etc. [...] Um constructo é uma variável – conjunto de termos, de conceitos e de variáveis –, isto é, uma definição operacional robusta que busca representar empiricamente um conceito dentro de um quadro teórico específico."

Referência do artigo traduzido: Phelan JC, Link BG, Dovidio JF. Stigma and prejudice: one animal or two? Soc Sci Med. 2008;67(3):358-367.

Outras referências empregadas para esclarecer terminologias:
Martins GA, Pelissaro J. Sobre Conceitos, Definições e Constructos nas Ciências Contábeis. Base 2005;  2(2):78-84

22 de junho de 2020

IMPACTO ATUAL DO CONFINAMENTO DA COVID-19 SOBRE PESQUISAS

A atual cessação temporária de atividades presenciais tem sido um enorme disruptor das funções das instituições de ensino superior. O impacto dessa interrupção é altamente variável e depende, primeiro, da capacidade de cada um permanecer ativo remotamente nas suas atividades acadêmicas até o fim do isolamento social. Quem tinha pesquisas que exigem trabalho de campo, teve a coleta presencial de dados interrompida, ou substituída por uma coleta remota, em uma reformulação que nem sempre é possível. O objetivo deste vídeo é refletir sobre a execução de pesquisas científicas, como nossa atividade acadêmica, durante esta fase de confinamento, sobretudo quando se trata de pesquisas qualitativas. A apresentação deste tema continua no próximo vídeo.

21 de junho de 2020

A Alegria foi Cancelada na Teoria da Terra Parada? Uma Analogia com o Futebol

A teoria da "terra parada"?
Junho de 2020: Agora a conversa é sobre máscaras (boas), vacinas (esperança). 
É o que acontece quando não existe uma vacina e os méritos versus os custos de um bloqueio, que é, nesta fase, uma discussão teórica desde "nenhum de nós sabe como será a trajetória do coronavírus" até o medo de "a economia global vai quebrar".
Neste vídeo o jornalista Guilherme Fiúza expressa sua opinião sobre o assunto.

19 de junho de 2020

Carta Aberta ao Coronavírus


Enquanto o Quênia fecha para impedir a disseminação do Coronavírus, um jovem queniano diz que seu país tem muitas outras ameaças com as quais se preocupar.
Poucos dias após o governo queniano começar a fechar escolas e aeroportos, e pedir às pessoas que ficassem em casa, o estudante Lucky Samuel Man'gera escreveu uma "carta aberta ao coronavírus", na sua conta de Facebook, contando sobre as ameaças e disparidades em saúde que existem no seu país, que tem múltiplos problemas crônicos e que matam pessoas todos os dias. 
O Quênia registrou cerca de 4.300 casos de COVID-19, com 119 mortes até este momento em que estou escrevendo esta postagem. O governo queniano implementou um bloqueio cada vez mais rigoroso, que agora inclui toque de recolher. 
Contudo, homens, mulheres e crianças são vistos nas ruas, comprando e vendendo produtos, embarcando em ônibus lotados e sem máscaras. Os sentimentos desse estudante do Quênia ressaltam as complexidades que as pessoas vulneráveis ​​enfrentam durante as epidemias e a necessidade de capturar essa complexidade para entender o alcance e o impacto da pandemia. 
O jornalista Eyder Peralta publicou uma entrevista com o espirituoso e resiliente estudante queniano, com o título “Maravilhas de estudantes universitários: no centro do Quênia, é necessário o bloqueio do COVID-19?” 
Entrevista: Peralta E. College Student Wonders: In Hardcore Kenya, Is COVID-19 Lockdown Needed? Publicado em 25 mar. 2020, 05h03 AM.
#covid19 #quenia #cartaaocoronavirus #eyderperalta #diversidadeesaude #luckysamuel #NPR

18 de junho de 2020

Estigma e Discriminação na Atenção à Saúde: I Encontro Síncrono da Turma EDAS


Por Rilva Lopes de Sousa Muñoz

Hoje, na nossa primeira telerreunião pelo Google Meet no Curso Livre "Estigma e Discriminação na Atenção à Saúde", do semestre suplementar 2020.3 na Universidade Federal da Paraíba, o principal tópico de discussão foi o enquadramento conceitual de estigma e discriminação, confrontando-se com o relato de experiências dos estudantes associadas ao grande problema social das ações discriminatórias.
Os principais objetivos da discussão foram destacar questões relativas a estigma e discriminação em diferentes contextos, sobretudo na atenção à saúde, e sob diferentes perspectivas, assim como relatar vivências e opiniões sobre estigma e discriminação, por parte dos alunos do curso, com moderação e feedbacks das professoras Rilva e Lílian.
Antes de começar a discussão temática, a moderadora Profa. Rilva fez uma breve explanação sobre o "Dia Mundial de Zero Discriminação". Este dia é celebrado globalmente em 1º de março, representando uma oportunidade para destacar como todas as pessoas podem fazer parte da transformação e se posicionar em favor de uma sociedade mais justa. Esta é uma campanha das Nações Unidas.
O Secretário-geral das Nações Unidas afirmou que a discriminação é uma violação dos direitos humanos e o chefe da UNAIDS/ONU disse que “livrar o planeta do estigma e da discriminação não é uma opção, é um dever”. 
O primeiro "Dia Mundial de Zero Discriminação" foi celebrado em 2014 pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS). A borboleta foi escolhida como símbolo da campanha por representar transformação.
A Profa. Lílian destacou os conceitos de estigma, preconceito e discriminação, lembrando que o estigma está no âmbito do pensamento (cognição), o preconceito está ligado à dimensão afetiva (emoção) e a discriminação, na ação, no comportamento. A Profa. Lílian mencionou ainda um fato recente ocorrido em uma mídia social em que uma mulher branca que tem um perfil famoso no Instagram afirmou em vídeo que “o racismo sempre vai existir enquanto a maioria dos crimes for causado pela população negra” e que “o preconceito é algo natural, um instinto de defesa”. Este fato midiático foi correlacionado às leituras que temos feito nos tópicos 1 e 2 do nosso curso.
Em seguida, C. referiu um problema pouco aventado na mídia e nas discussões da sociedade ou da academia no contexto dessa temática, o de que muitas minorias raciais e étnicas são menos propensas que a população branca a receber transplantes de órgãos, assim como têm cuidados médicos de pior qualidade. Ele comentou também que as disparidades raciais tornaram-se centrais também na discussão atual sobre a pandemia de COvID-19. Muitas populações correm um risco maior de desenvolver a infecção e de morrer porque os determinantes sociais subjacentes às condições de saúde que afetam essas populações levam à maior vulnerabilidade ​​ao vírus. Esses determinantes incluem, entre outros, o menor acesso à saúde, baixo poder econômico, más condições de moradia e baixa disponibilidade de recursos. A Profa. Rilva mencionou que havia lido um artigo recentemente abordando a questão da maior vulnerabilidade de minorias à COVID-19 (segue a referência do artigo após este texto). Neste artigo, mostra-se que os negros representam 13% da população dos EUA e, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), eles respondem por 28% dos casos de  COVID-19 e 33% das internações pela doença.
Por sua vez, N. destacou em sua leitura do primeiro capítulo do livro de Erving Goffman ("Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada") trechos relacionados com a comparação da adolescente grávida que quebra padrões familiares, em relação a uma mulher de 35 anos à qual a sociedade impõe o estigma associado ao fato de não ter tido filhos. A maternidade na adolescência está relacionada preconceituosamente à irresponsabilidade e as jovens mães relatam experiências de estigma e discriminação. O estigma pode impedir as mães adolescentes de acessar serviços de apoio durante e após a gravidez. Isso coloca em questão a hipótese de que estigma estaria relacionado a uma má evolução da gravidez na adolescência. Tal estigma não deve, portanto, ser "aplaudido" como uma maneira de reduzir a ocorrência de gravidez na adolescência. 
A gravidez na adolescência levou ao desenvolvimento de esforços de prevenção  nos EUA. Embora os programas de prevenção de gravidez entre adolescentes tenham contribuído para a redução da gravidez nesta fase precoce nos EUA, poucos estudos exploraram os danos por estigmatização que esses programas podem impor a adolescentes grávidas. No entanto, supõe-se que os referidos programas criam e perpetuam estereótipos da maternidade adolescente por meio da ênfase excessiva nos efeitos adversos da gravidez e maternidade na adolescência, assim como na representação de mães adolescentes como “mães ruins”. As questões legais decorrentes de gestações de menores de idade acaba encobrindo o direito de autodeterminação da adolescente, assim como o direito à confidencialidade, não havendo uma discussão maior sobre o impacto da Lei de Direitos Humanos sobre essa questão. Assim, a maternidade na adolescência não é uma questão única, mas um fenômeno que está profundamente enredado com desafios sociais contemporâneos de raça/cor, pobreza e estigmatização, pois geralmente há intersecção destes outros tipos de preconceito e discriminação, considerando-se que a gravidez na adolescência é mais frequente entre jovens pobres e de grupos étnicos minoritários.
N. apontou ainda a contradição entre o estigma que existe em relação à adolescente grávida e, por outro lado, também à idade materna avançada, que é considerada como um fator gerador de risco para a gestação, pois gestantes com idade superior a 35 anos são tidas como tardias, sendo mais suscetíveis ao desenvolvimento de complicações durante a gravidez.
Em seguida, J. disse que era policial militar e comentou que a ação policial é vista como pautada na omissão, preconceito e violência, associados ao exercício de poder e instrumento de preconceito e discriminação racial, em razão da dominação de um grupo sobre outro e reprodução social dessa exploração. Ele mencionou que um colega de corporação que cursa um programa de doutorado, e que expressa sua identidade profissional como policial, identificando-se com o Estado, o corporativismo da polícia, sua rigidez e até práticas de violência contra minorias, e ao mesmo tempo, sente sua outra identidade, como doutorando, e percebe o antagonismo de suas duas identidades. Como agente da polícia, sua identidade profissional que remete ao “nós” em contraposição ao “eles”, os diferentes ou minorias desviantes e estigmatizadas. Há um conflito nesse processo em um misto de pertencimento e estranhamento. Como parte do lado militarizado, ele, o colega de J., pode sofrer esse conflito, pois convive com duas realidades distintas, uma dentro dos quartéis, e outra de fora. O de dentro do quartel pode ter que assumir o estereótipo de policial militar que classifica as pessoas com base em sua origem social e étnica. Nesse sentido, a Profa. Lílian comentou o estereótipo da polícia como corporação que comete excessos e, dentro do grupo, aquele agente que resiste ou não compactua com esse comportamento, pode ser discriminado pelos próprios pares. J. complementou, afirmando que na polícia militar, a heteronormatividade é hegemônica e tende a discriminar os agentes que têm orientação homossexual. A Profa. Rilva destacou que  o policial passa a ser um agente da discriminação e ao mesmo tempo, é alvo desta e, que muitas vezes, esconde que é policial militar em sua própria comunidade urbana, onde reside com a família.
MF compartilhou sua vivência ao participar de um projeto de pesquisa em um centro de reabilitação de pessoas com deficiência, salientando que observa nesta instituição manifestações de estigma e discriminação em relação aos usuários. Ela refletiu também que é flagrante o reducionismo contido na prática médica, que é fragmentada, o que não é compatível com o modelo social da deficiência. A Profa. Rilva corroborou esta assertiva, referindo que o modelo biomédico ainda é hegemônico desde o século XIX, e que demorará a ser substituído pelo modelo biopsicossocial ou pelo modelo clínico centrado na pessoa.
Rebecka falou de seu trabalho de extensão em um centro de atenção psicossocial e salientou a importância do estigma, preconceito e discriminação relacionados às pessoas com transtornos mentais. Tanto o estigma público - a reação que a população em geral tem a pessoas com doenças mentais - quanto o auto-estigma - atitude preconceituosa que as pessoas com doença mental dirige contra si mesmas - são um dos problemas enfrentados pelas pessoas com transtornos mentais, com efeitos prejudiciais sobre elas pessoas, alvos de discriminação generalizada, que resulta em exacerbação de sintomas, má adesão ao tratamento e maus resultados deste.
A. disse que embora seja estudante de Sociologia, considerou que o trabalho de Goffman às vezes parecia difícil de ler, pela própria linguagem usada na sua obra. Ele também pontuou uma questão que raramente é abordada, tanto na literatura acadêmica quanto na imprensa em geral, que é o da doação de sangue por pessoas LGBT, pois o Ministério da Saúde ainda tratava até recentemente como “inaptos temporários” à doação de sangue os homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes. Para ativistas LGBT, estas normas são discriminatórias; para representantes do governo, visam à proteção dos receptores. Porém, por maioria de votos, recentemente (abril de 2020), o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inconstitucionais essas normas.
A. relatou ainda que teve um companheiro que chegou a afirmar que se sentia uma “pessoa estragada”, o que o fez pensar que o estigma contra pessoas homossexuais chegava a constituir um problema de saúde pública no contexto de repercussões altamente danosas observadas nas pessoas que são alvo do estigma. Ele lembrou que o enredo do filme “Extraordinário”, que conta as dificuldades de um menino com uma síndrome genética, visto como “diferente”, que enfrenta estigma, preconceito e discriminação. Ainda na linha de filmes com temáticas compatíveis com a questão do estigma e da discriminação, citou também o filme “Família Bélier”, uma família em que todos são surdos - exceto uma adolescente, de quem toda a família depende.
Após 1 hora e 30 minutos, a telerreunião foi encerrada, tendo contado com a presença de 14 alunos do curso. A maioria dos participantes considerou produtivo o formato adotado para o primeiro encontro síncrono da turma. A Profa. Rilva queixou-se da presença de menor número de alunos que o esperado no universo de 23, o que representou 60,8% da turma.

Referências
Center for Disease Control and Prevention.  COVID-19 in Racial and Ethnic Minority Groups. Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/need-extra-precautions/racial-ethnic-minorities.html

15 de junho de 2020

AGEÍSMO E SAÚDE: CONTEXTUALIZAÇÃO E IMPLICAÇÕES NA EDUCAÇÃO MÉDICA

#ageismo #ageism #saudedoidoso #velhice #robertbutler #discriminação #envelhecimentosocial #aposentadoria #teoriasocial #educacaomedica #estudantedemedicina #ufpb
O ageísmo deve ser compreendido como consequência da mudança das sociedades agrárias para as sociedades industriais e as transformações que ocorreram na estrutura social e a consequente redução do status social do idoso. Atualmente, vivemos em uma sociedade que aclama a juventude e teme a velhice. Essas questões têm implicações importantes sobre atitudes ageístas observadas no setor de saúde, ao influenciar significativamente a prática médica e a atenção ao paciente idoso. Para melhorar esse tipo de atitude, é preciso promover o desenvolvimento de atitudes positivas em relação às pessoas idosas durante a graduação na área da saúde.

14 de junho de 2020

AGEÍSMO E SAÚDE: SITUANDO O PROBLEMA

#ageísmo #discriminaçãoetaria #diversidade #velhice #saudedoidoso #preconceito #discriminação #estereótipo #preconceito
A discriminação por idade, ou AGEÍSMO, pode ocorrer como comportamentos prejudiciais, intencionais ou não - atuando como uma barreira ao estilo de vida saudável dos idosos. Este vídeo situa e delimita o fenômeno do ageísmo, a título de introdução, com o objetivo de apresentar e discutir a noção de ageísmo e seus paradoxos nas práticas de atenção à saúde do idoso, ou seja, no âmbito da saúde.

6 de junho de 2020

Sobre a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência

#CDPD #PessoasComDeficiencia #PcD #ONU #Acessibilidade #Igualdade
Neste vídeo, abordamos a importância da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), que foi elaborada ao longo de quatro anos, e adotada pela ONU e seus países membros, após décadas de intenso debate na comunidade internacional sobre a necessidade de se reconhecerem as pessoas com deficiência como detentoras de direitos. A CDPD marca uma mudança na maneira como eram predominantemente vistas as  pessoas com deficiência, como destinatárias de caridade, de "medicalização" e de assistência social, para reconhecê-las como “titulares de direitos ” e membros ativos da sociedade.

18 de maio de 2020

Explicando o Projeto Diversitas 2- Públicos-Alvo e Justificativa

Neste segundo vídeo do nosso projeto de extensão DIVERSIDADE NOS SERVIÇOS DE SAÚDE: PROMOVENDO A ACESSIBILIDADE PARA USUÁRIOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS EM UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO, são abordados os público-alvo e a justificativa da ação.

17 de maio de 2020

Vieses da Comparação de Taxas de Mortalidade pela COVID-19 entre Países

As taxas de mortalidade por coronavírus variam significativamente entre os diferentes países. Se avaliarmos as taxas de mortalidade de dez países, por exemplo, e compararmos os seus índices, encontraremos diferenças estatísticas grandes. Mas existe uma incerteza considerável sobre as taxas exatas de mortalidade porque muitos fatores intervenientes afetam esses números. Em alguns países, todo mundo que morre após ter recebido diagnóstico de COVID-19 é registrado como uma morte pela infecção, mesmo que a doença não tenha sido a causa principal, enquanto outras pessoas podem morrer por esta doença sem terem recebido diagnóstico de COVID-19. A comparação discutida entre dois diferentes países neste vídeo é um exemplo de uma análise eivada de tendenciosidade, mostrando que há premente necessidade de transparência nas políticas de testes e nos relatórios das evidências, com apresentação, no mínimo, da idade, sexo, nível socioeconômico, grau de instrução, status clínico comórbido e acesso aos serviços de saúde das pessoas afetadas. Finalmente, como é a COVID-19 uma epidemia nova, é necessária uma vigilância contínua, com relatórios transparentes e precisos das características dos pacientes, de vários países, para melhor entender a epidemiologia global desta epidemia.

15 de maio de 2020

Hospital Amigo de Pessoas com Deficiência

Um hospital amigo das pessoas com deficiência é aquele que permite a elas moverem-se livremente e com segurança e acessar as instalações dentro do hospital. Esse edifício hospitalar proporciona um ambiente de independência aos indivíduos com deficiência, que é seu direito concedido por lei. Paciente com deficiência é considerado um paciente vulnerável e os hospitais são obrigados a cuidar de sua segurança.

Vídeo produzido no #projextdiversitas por Renata Freitas, bolsista do Probex/UFPB
#diversidadeesaude #extensaoufpb #extensaoccm

9 de maio de 2020

Projeto Diversitas 1- Acessibilidade de Usuários com Deficiência em Serviço de Saúde

Este é o primeiro vídeo do nosso novo projeto de extensão DIVERSIDADE NOS SERVIÇOS DE SAÚDE: PROMOVENDO A ACESSIBILIDADE PARA USUÁRIOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS EM UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO.
A definição de deficiência, como diversidade, tem um significado estreito para muita gente. Ter uma deficiência ainda é considerado por muitos como algo puramente relacionado à saúde, doença, limitação funcional e comprometimento do corpo, especialmente nas ciências da saúde. A deficiência é uma faceta fundamental e heterogênea da diversidade humana.
Os termos "diversidade" e "competência cultural" são apontados como prioridades importantes nos programas de ciências da saúde e educação médica. A diversidade na atenção à saúde é importante, pois permite que profissionais da saúde ofereçam melhores cuidados aos seus pacientes, usuários dos serviços onde atuam, porque podem se relacionar melhor com eles. A diversidade nas ações de saúde inclui gênero, idade (idosos), etnia, deficiência, religião, orientação sexual, status socioeconômico, status da educação, origem nacional e características físicas, e muito mais. Neste projeto, o objeto da nossa ação é a deficiência. É vital que comecemos a treinar e criar mais diversidade no campo da saúde.

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1 de maio de 2020

Mensagem para nosso Colega e Amigo Dr. Fabinho


Caro Dr. Fabinho, você trabalha incansavelmente para tratar as pessoas e colocar sorrisos nos seus rostos, não apenas cor e vitalidade em seu sangue. Documento este dia de um feliz aniversário, pensando na esperança receitada por médicos amorosos como você. Diz-se frequentemente que o poder de cura é uma questão de como as pessoas se sentem, então, para além dos transplantes de medula, você injeta esperança nos seus pacientes. Feliz dia!...

12 de abril de 2020

A Distorção Ideológica dos Conceitos de Razão, Liberdade e Autonomia

Texto de Marcelo Ferreira Caixeta, médico psiquiatra, especialista em psiquiatria da infância e adolescência pela Universidade de Paris, pós-graduado em psiquiatria infantil pela USP, psiquiatra forense pela Associação Médica Brasileira/Associação Brasileira de Psiquiatria

Reproduzido e publicado neste blog com permissão do autor, a partir de sua página do Facebook; o título da presente postagem foi adicionado por esta weblog-editora (link da versão original a seguir) -

Como o "Cristianismo", Kant, Rousseau, os Iluministas e a Revolução Francesa nos jogaram nos braços do Esquerdismo-Totalitarismo- Estatismo?

(1) As regras morais têm base no que é útil, no que é bom ou no que é justo? Razão e emoção jogam que papel na determinação da moral?
O filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant, estudou exaustivamente esse problema (conforme seus livros “Crítica da Razão Pura” - Ed. 70; “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” - Ed. Claret; “Metafísica dos Costumes” - Ed. PubliFolha).
Como já vimos nos nossos livros "Psiquiatria das Condutas Imorais" - Ed. Sparta; Psiquiatria Forense da Consciência Moral - Ed. Sparta), Kant conclui que a Moral tem de ser uma Lei Racional, isto é, não dependente das coisas práticas/empíricas da vida, ou seja, não dependente do que é útil, nem do que é belo, nem do que é agradável, isto é, não pode depender do que é experimentado, do que é vivenciado, mas sim do que é raciocinado, sim, daquilo que nossa vontade racional nos manda fazer (Imperativo Categórico: que seus atos possam ser uma Lei Universal).
Podemos nos perguntar: por que Kant tem tanta necessidade de que a Moral não seja algo derivado do que é sensível-emocional-vivenciado-experienciado-útil-agradável? Há vários níveis de resposta para a pergunta acima, que tentaremos deslindar a seguir.
(2) Em primeiro lugar, Kant pensa que todos nós temos uma consciência moral inata dentro de nós, uma Lei Moral que não sabemos de onde vem. É uma Lei que está sempre a julgar nossos atos, impedindo-nos de prejudicar alguém (Ver o caráter inato dessa instância moral em nossos livros "Psiquiatria das Condutas Imorais" [Ed. Sparta] e Psiquiatria Forense da Consciência Moral [Ed. Sparta]). De fato, lá pudemos ver e investigar que há, sim, uma tendência inata dos indivíduos para se comportarem de acordo com um maior ou menor grau de moralidade, mostramos que essas tendências, apesar de racionalizadas no atualmente têm, no seu passado, uma base emocional-prazerosa em suas origens.
Essa base emocional da Moral perde-se na linha do tempo, e o indivíduo não tem mais noção dela, olhando para dentro de si e achando que sua moral tem uma origem puramente racional-inata.
(3) Mas Kant não tem só essa base empírica (“olhar para dentro e ver uma moral inata dentro de si”) para considerar a moral como algo primário, algo não baseado nas emoções e na experiência. Ele tem outros motivos, mas não os julga ou não os propala conscientemente. Vamos estudar a seguir dois outros desses motivos: (3.a) um motivo ansioso-obsessivo e (3.b) um motivo estético-intelectivo.
Kant tem uma necessidade premente, pervasiva, de retirar a Moral do campo empírico-utilitário-emocional e colocá-lo no campo do racional, do absoluto, do volitivo, do necessário, do não-contingente, do não-temporal. Kant não tem uma consciência muito explícita dessa necessidade.
(3.a) Kant nitidamente é um indivíduo com uma estrutura obsessiva do pensamento. Nesta estrutura obsessiva, o controle racional é muito importante: o controle e a ansiedade "pensando lá na frente", controlando racionalmente as variáveis que podem "causar problemas no futuro". A obsessividade não é algo primariamente patológico. A natureza dotou nosso cérebro com mecanismos naturalmente obsessivos para que possamos acompanhar e prever o que vai acontecer no Universo. Quando podemos prever, podemos prevenir, é assim que "pensa a Natureza". Muitos de nossos comportamentos racionais-morais têm como base a prevenção de "coisas ruins", que podem ocorrer no futuro ("não vou largar minha esposa por outra mais nova porque não quero vê-la sofrer, não quero sentir falta dela, não quero ficar sem ver e conviver com meus filhos", etc).
Temos em nosso cérebro um mecanismo ansioso-obsessivo que nos capacita e nos induz a "acompanharmos o Universo" para onde o Universo caminha e evolui. Esse aparelho mental ansioso-obsessivo não deixa de ser racional, pois não vive aquelas situações de modo prático-empírico, vive-as apenas virtualmente-racionalmente. Esse aparelho apenas racionaliza-previne o que vai acontecer; nesse sentido, é algo "teórico". Kant é muito obsessivo, é muito teórico, e tem muito gosto nisso, muito gosto na simetria, rigor e regularidade do que acontece e vai acontecer no Universo. Ele é contra empirismos relativistas, daí seu gosto pela normatização absoluta, um modo de se aferrar ao conceito de Verdade, de ir contra a "relatividade moral".
(3.b) Há um gosto estético e um prazer em racionalizar-obsessionar as coisas. Dá uma sensação de domínio, controle; dá uma sensação de que estamos "trabalhando" sobre o futuro, uma sensação de que estamos construindo algo racionalmente dentro do Universo, uma sensação de potência, de plenitude, de segurança, e até de aconchego no meio do "seio de Deus", a sensação de estar "fazendo a coisa certa", "trilhando o rumo seguro e certo".
Quando controlamos com a razão, a segurança que sentimos é bem maior do que quando somos impelidos pela emoção; isso é um dos motivos pelos quais Kant quer tirar a moral da emoção e passá-la para os braços da razão. Planejar racionalmente aumenta muito mais a força do espírito do que nos deixarmos guiar por reações emocionais; dá a sensação de que o espírito está no controle. Dá a sensação de que estamos trabalhando ativamente na construção de nossa existência, e não apenas "sofrendo essa existência" de modo passivo e emocional. Kant não é um artista-emocional, é um racionalista-filósofo, e tem muito gosto nessa racionalidade ("instinto laboral").
(4) Na construção de seu sistema filosófico, Kant precisa de causas racionais, não de causas empíricas-emocionais. Seu sistema, desde a "Crítica da Razão Pura", é como um edifício sólido, no qual não pode haver "furos não-racionais". Com a "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", com a "Crítica da Razão Prática", Kant liga a racionalidade à vontade/volição. Desta forma ele ganha para si dois dos três "gigantes da alma" (razão, volição, emoção). Ele mostra que a Moral é uma vontade dirigida pela razão. Esta razão é baseada em "Leis Morais", não em vivências emocionais-experienciais-empíricas. Para Kant, as Leis Morais são prescritas pela nossa própria razão, com base em tendências morais inatas que trazemos em nós. Kant não explica como e de onde surgem essas tendências/Leis Morais dentro de nossa alma. Apenas relata , muito timidamente/brevemente, que são inatas , conforme se vê na “Metafísica dos Costumes” (Ed. Publifolha) e na "Crítica da Razão Prática" (Ed. 70). O problema é que , quando o homem não cria suas leis, apenas obedece leis morais já existentes dentro de si, ele passa a ter uma posição passiva de novo, algo que Kant não quer. E, com as ideias inatas, voltamos a ser vítimas do inexplicável e do irracional.
(5) Não há como fugir da emocionalidade na prática da Lei Moral (sobre detalhes mais profundos sobre isso, ver nosso livro "Psiquiatria Forense da Consciência Moral", Ed. Sparta). Até para querer o bem dos outros precisamos da emoção: temos dentro de nós um instinto gregário/altruísta/especular que nos faz ficar alegres quando fazemos os outros alegres. Refletir "especularmente" a alegria dos outros nos torna mais felizes. Portanto, agir para o bem dos outros não é algo assim tão racional como Kant quer fazer crer. Para Kant, temos de querer o bem dos outros porque tudo que queremos para nós, nós temos de querer para os outros. A causa disso é a Lei da Liberdade/Autonomia do espírito: só num mundo onde todos têm direitos iguais pode haver Liberdade, e só onde há liberdade o espírito pode ter autonomia; e só onde o espírito tem autonomia ele pode realizar-se na plenitude de suas evoluções. E só realizando-se a si mesmo é que o espírito pode fugir do determinismo físico-biológico-material. Para Kant, só a fuga do determinismo físico-biológico-material consegue explicar nosso gosto pela liberdade, nossa capacidade moral de agirmos contra nossos próprios instintos, nossa capacidade de agirmos contra nossa própria biologia.
Kant comete aqui vários erros, que veremos a seguir:
(5.a) O "erro" de considerar "todos iguais" - quando, na verdade, não somos todos iguais - isso deu origem a sistemas políticos esquerdistas degenerados em totalitarismos de igualdade, e tais sistemas tentam anular as liberdades individuais, levando ao oposto daquilo que Kant queria, ou seja, a plena autonomia/liberdade do indivíduo.
(5.b) Somos, de fato, determinados pela biologia, como se mostra com a origem emocional-prazerosa da Moral (ver sobre isso nosso livro "Psiquiatria Forense da Consciência Moral", Ed. Sparta).
(5.c) Nossa liberdade é relativa. Só temos a liberdade de fazer aquilo que segue as Leis do Universo. Quando nossa liberdade individual nos leva a não fazermos o que está pré-determinado na Leis Evolutivas do Universo, nós estagnamos e sofremos.
(5.d) As Leis do Universo apontam no sentido da evolução e da complexificação. Se não sairmos de nós mesmos (egoísmo), em direção ao outro (altruísmo ), nós não nos complexificamos. Portanto, mais cedo ou mais tarde, somos "obrigados" a amar, algo que está no âmbito da moralidade (querer aos outros o que queremos a nós mesmos). E se somos "obrigados a amar", isto está fora da Liberdade, está fora da Autonomia, está no âmbito do determinismo.
(5.e) A "liberdade" pode ser interpretada em dois sentidos: a liberdade do "ego" (instância psíquica mais evoluída) e a liberdade do "id" (instância psíquica mais primitiva ), conforme Freud.
São duas liberdades diferentes: o ego quer o fortalecimento do espírito, rege-se pelo princípio do gosto pela eficiência, gosto pela realização. Já o "id" quer o prazer, rege-se pelo "princípio do prazer". Um (o ego) quer a liberdade de criar, realizar, construir; o outro (o id) quer a liberdade do prazer. Ambos são opostos, a liberdade do prazer cria a prisão da alma. São duas liberdades que não podem ser confundidas. A "liberdade do ego", na verdade, é uma prisão para o id: não deixa que este realize seus prazeres que prejudicam os outros ou a si mesmo (o seu próprio corpo ou sua própria vida). A "liberdade de criar", "liberdade de perseverar no próprio eu" (ver Espinosa), liberdade de moldar o próprio rumo, liberdade da autonomia, também tem suas bases biológicas, não é algo "suprassensível", como Kant gostava de dizer. A liberdade é, portanto, biologicamente determinada, ao contrário do que dizia Kant.
(6) Quando os iluministas, Kant e Rousseau, assim como quando a Revolução Francesa colocaram a liberdade autônoma como base do sentimento de dignidade humana, não sabiam que estavam induzindo, com a "igualdade", sistemas políticos de Esquerda (esquerdismo) que iriam redundar exatamente no contrário disso: perdas das liberdades individuais. "Forçar a igualdade" produziu os horrores do comunismo; tratar como iguais a todos, sendo células de um corpo estatal, levou aos terrores do totalitarismo. Kant criou normas/leis extra biológicas-suprassensíveis, Liberdade e Autonomia que, sendo interpretadas e usadas de forma equivocada, levaram a desastres políticos. A "igualdade" leva à uma diluição da Lei Moral, pois a igualdade é colegiada, não segue um princípio único. Decisões colegiadas passam a julgar a moralidade. Pessoas que têm gosto pelo colegiado, não pelo trabalho (políticos), dominam o sistema político, distorcem as normas morais, cria-se uma "moral relativística do que é votado".
Normas extra biológicas criaram a falsa ilusão de que "medidas racionais" podem bem dirigir os homens. E isso é bem aproveitado por homens que querem dirigir outros homens (mais do que trabalhar e construir). Eles se aproveitam dessa justificativa kantiana para justificarem moralmente a obediência a normas suprassensíveis, extra biológicas: obedecer a um Estado que simboliza, consubstancia, tudo isso. Passa-se à falsa ideia de liberdade/autonomia levada a cabo pela equalização que o Estado faz dos cidadãos.
Ideias que têm pretensa base ou força moral são muito poderosas. A distorção kantiana nos faz esquecer o básico: somos biologicamente todos muito diferentes.
(7) A errada - mas moralmente chamativa - noção iluminista/kantiana de liberdade/autonomia juntou-se ao "igualitarismo cristão" (“nossos irmãos e iguais perante Deus") para fortalecer o estatismo/esquerdismo. É claro, como sempre, que isso acaba por fortalecer os indivíduos ávidos de poder (políticos), que  se aproveitaram disso mais uma vez.
É claro que tudo isso tinha também outras justificativas menos filosóficas: a "burguesia" precisava trabalhar (liberdade) sem as amarras dos poderosos, nobres, déspotas, reis, indivíduos autoritários e fortes. A busca filosófica da liberdade/autonomia veio a calhar nesse momento.
(8) Mesmo com regimes totalitários, ou sob capitalismo selvagem, é possível ao indivíduo exercer sua "liberdade de evoluir": é porque essa liberdade não depende da economia ou leis, coisas externas, que não atingem o âmago da alma do indivíduo. É nesse âmago que se trava a verdadeira batalha pela liberdade, que é a batalha pela libertação do ego em relação ao id. O eu evoluído, ou o "eu secundário", o eu moral, libertando-se do eu primitivo-instintivo-prazeroso. Isso é uma batalha interna, não externa. Leis, Estado, Economia, não atingem diretamente essas instâncias internas. É claro um Estado libertário, não-despótico, ajuda nesse processo, não querendo moldar a moral individual, não querendo interferir na liberdade do indivíduo, liberdade tanto para pecar (involuir, estagnar) quanto para se santificar (evoluir).
O problema é que todo Estado interfere nisso, até aqueles pretensamente libertários: um Estado que tem sucesso em ser libertário é raríssimo, porque todas as realizações do Estado, até em tentar diminuir-se, só fazem aumentá-lo. É um paradoxo: o Estado que fala em se diminuir, se tiver sucesso, está é aumentando o seu poder; e se tiver fracasso, também estará é aumentando o poder do Estado. Um governante que tem sucesso em diminuir o Estado quer continuar tendo sucesso à frente desse Estado, e aí, com essas manobras políticas, só faz aumentar o poder do Estado, gerando o paradoxo.
A única solução é a da Sociedade Civil lutar todo o tempo para diminuir o Estado, diminuir a ação do Estado quando este interfere pejorativamente na capacidade de o indivíduo ser autônomo em suas decisões e iniciativas.
(9) A única função que sobraria para o Estado, dentro dessa concepção acima, seria aquela da "prender os indivíduos que perturbam a liberdade/autonomia dos outros indivíduos evoluírem". Mesmo assim, mesmo nessa área, a própria Sociedade Civil disso também poderia se encarregar, com milícias próprias e presídios/hospitais psiquiátricos de custódia geridos/mantidos pela própria iniciativa privada.
Economia, saúde, educação, segurança etc., tudo poderia ser muito bem gerido pela sociedade civil, sem o atravessamento do Estado.
Mas isso só se dará com um gradativo e contínuo processo, não com um golpe de misericórdia. A luta contra a diminuição do Estado tem de ser geral e contínua, em todos os setores da vida civil. Só assim o indivíduo poderá ser verdadeiramente livre para evoluir ou involuir (estagnar) como assim o desejar. Fora disso o Estado estará sempre no intuito de interferir e ferir as liberdades individuais. Mesmo os Estados que se dizem "libertários", como mostramos anteriormente, não fugirão dessa armadilha para a liberdade real do indivíduo.
(10) É algo mais ou menos do tipo: os "muito competentes" cuidam de si, apesar do Estado; os "competentes" são” incompetentizados” pelo Estado; e os verdadeiramente "incompetentes" seriam ajudados pelos outros dois tipos se não fosse o Estado.

Imagem: Pinterest

11 de abril de 2020

Estratégias de Ventilação Mecânica para Doentes com Covid-19


Esclarecimentos sobre estratégias de ventilação mecânica para doentes com Covid-19 pela médica pneumologista e intensivista Eliáuria Martins, professora de Semiologia Médica da Universidade Federal da Paraíba

Covid-19: Origem, Patogenia e Sintomas


Vídeo instrucional com a Profa. Eliáuria Martins, médica pneumologista e intensivista, professora de Semiologia Médica da UFPB, sobre a Covid-19

10 de abril de 2020

História em Saúde Pública e Grandes Epidemias - Parte 2



História em Saúde Pública e Grandes Epidemias - Parte 2

Esta é a segunda parte da apresentação sob a forma de videoaulas intituladas "História em Saúde Pública e Grandes Epidemias".
No primeiro vídeo, ou Parte 1, foi abordada a importância da História da Saúde Pública e seus aspectos conceituais de uma perspectiva histórica. A ideia era também incluir noções sobre a origem e evolução de medidas de SP ao longo do tempo, mas vou adicionar este tópico ao presente vídeo, no qual serão abordados também fatores moldaram os modernos sistemas de saúde pública. Então, no terceiro vídeo, serão enfocadas as grandes epidemias da história.
A evolução da saúde pública é um processo contínuo; os patógenos mudam, assim como o ambiente e o hospedeiro. Para enfrentar os desafios futuros, é importante entender o passado. Embora haja muita coisa nova nesta era, muitos dos debates e argumentos atuais em saúde pública são ecos do passado.