Mostrando postagens com marcador Personalidades da Medicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Personalidades da Medicina. Mostrar todas as postagens

3 de novembro de 2015

História da Psiquiatria: Seminário do Período 2015.1

Relatório do Seminário - Por Milton da Silva Linhares Júnior

Seminário “História da Psiquiatria” em 26/10/15, no módulo de História da Medicina e da Bioética / Universidade Federal da Paraíba. 
Os apresentadores foram estudantes do 3o. período do curso de Medicina da UFPB: Alinne Mirlânia, Jaciara, Jennyfer, Liliane e Sayron.

Jaciara iniciou a apresentação com a introdução do tema através da história da psiquiatria na Antiguidade, mencionando que referências às doenças mentais remontam aos egípcios, mesopotâmicos, gregos, romanos e hindus, e que tais afecções eram consideradas como castigos divinos ou possessões demoníacas. Ela citou alguns tratamentos que eram dados aos doentes mentais, como rituais de magia, exorcismos, castigos físicos, destacando, ainda, por outro lado, que os gregos utilizavam também músicas, atividades recreativas e passeios para o tratamento desses enfermos. Mencionou que há também registros sobre doenças mentais na Cultura Judia, na qual estes transtornos eram tidos como castigos impostos por Javé (um dos nomes usados no Antigo Testamento para Deus). Jaciara fez menção também ao rei da Babilônia Nabucodonosor II, que enlouqueceu e foi considerado possuído por espíritos, assim como lembrou ainda que o rei dos judeus, Saul, sofreu de depressão grave e apresentava ataques de fúria, sendo tratado por David, seu sucessor, através da música. 
Jaciara salientou ainda que na Índia, o Mahabarata (um dos maiores épicos clássicos da Índia, o principal texto religioso da religião hindu) descreve vários personagens loucos, e este livro tem destaques para a lipemania (tristeza, desgosto), a mania ambiciosa, a mania homicida, a epilepsia, a histeria e a neurose obsessiva. Continuou afirmando que no Código de Hammurabi havia crenças de que eram os demônios que causavam as doenças. Também no antigo Egito consideravam-se os alienados como seres possuídos por "espíritos do mal". 
Jaciara destacou ainda o problema da histeria, termo muito utilizado pelos gregos - sendo encontrado também no papiro de Kahun, dos egípcios -, e que foi uma terminologia criada por Hipócrates, e derivada da palavra "útero", pois acreditava-se que a histeria era uma doença que acontecia apenas em mulheres. Este transtorno era atribuído à movimentação do útero pelo corpo da mulher. A apresentadora mencionou também que Hipócrates fez as principais descrições da histeria e, segundo ele, esta era uma doença típica das mulheres, nas quais o útero ficava desidratado e leve, devido à falta de relações sexuais, e acabava movimentando-se dentro do corpo, ocasionando a doença. Além disso, falou da ligação, feita por Hipócrates, de quadros mentais com o desequilíbrio dos “humores” (fleugma, sangue, bile amarela e bile negra). 
Jaciara lembrou também que Hipócrates reconheceu que a epilepsia era uma doença natural, originada no cérebro, e não uma "doença sagrada", como era vista anteriormente. Assim, nCorpus Hipocraticus (conjunto de obras atribuídas a Hipócrates), passou-se a considerar a epilepsia como uma doença cerebral, sem relação com crenças mágicas e religiosas. 
Os autores romanos que viveram depois de Hipócrates, como Galeno e Celso, consideravam que havia três tipos de doença mental: a frenite, a mania e a melancolia. Jaciara citou o médico grego Asclepíades de Bitínia, que baseou sua prática médica na teoria do atomismo de Demócrito, segundo a qual as doenças ocorriam pela movimentação irregular de corpúsculos no organismo e também acreditava que as doenças mentais eram uma consequência de alterações das paixões. 
Para concluir sua parte na apresentação do seminário, citaram-se outras grandes personalidades da Antiguidade que tiveram influência sobre o que se pensava a respeito das doenças mentais, como Galeno (refutou a ideia de que o útero se deslocaria pelo corpo, e foi o primeiro a considerar que a histeria também poderia ocorrer em homens), Aristóteles (precursor da psicologia, descrições do conteúdo da consciência, teoria da melancolia) e Sócrates (considerou os estados corporais como reflexos psicológicos).
Alinne continuou a apresentação abordando a história da psiquiatria na Idade Média e Idade Moderna. Ela salientou que a maioria das doenças nos tempos medievais tinha explicações sobrenaturais, tendo, portanto, ocorrido um retorno ao pensamento fantástico, que predominou na Antiguidade, antes de Hipócrates. Alinne mostrou uma tabela que criou para resumir os conceitos de loucura como manifestação divina, referente ao início da Idade Média, como a crença da possessão demoníaca, e ao fim do medievo, com a atribuição de bruxaria às mulheres e aos portadores de doenças mentais. Destacou que o conceito de bruxaria acarretou condenação à morte na fogueira no tribunal da Inquisição da Igreja Católica. Não apenas os supostos praticantes de bruxarias, mas também os indivíduos considerados hereges pela Igreja, foram condenados e castigados severamente neste tribunal. 
Alinne mencionou as personalidades de destaque da época, como Santo Agostinho (religioso que fez observações importantes na área da memória e da consciência, mas não pôde ultrapassar os “muros” da igreja), Alexander de Tralles (descreveu a epilepsia e diversos transtornos mentais), Constantino Africano (descreveu sintomas depressivos) e Avicena (descreveu melancolia, mania e epilepsia).
Alinne destacou que uma relevante mudança no desenvolvimento da psiquiatria na Idade Média foi o surgimento dos primeiros estabelecimentos precursores dos hospitais psiquiátricos. Em 1409, surgiu o primeiro hospício, em Valência, na Espanha. Explanou também que na Idade Moderna, houve uma expansão dos hospitais psiquiátricos, mas estes possuíam condições consideradas inaceitáveis para seres humanos, exemplificando tais condições através de uma citação direta cunhada por Etienne Esquirol (1772-1840) no século XIX: 
Eles são mais mal tratados que os criminosos; eu os vi nus, ou vestidos de trapos, estirados no chão, defendidos da umidade do pavimento apenas por um pouco de palha. Eu os vi privados de ar para respirar, de água para matar a sede, e das coisas indispensáveis à vida. Eu os vi entregues às mãos de verdadeiros carcereiros, abandonados à vigilância brutal destes. Eu os vi em ambientes estreitos, sujos, com falta de ar, de luz, acorrentados em lugares nos quais se hesitaria até em guardar bestas ferozes...”. 
Alinne terminou sua apresentação falando sobre uma figura central da Psiquiatria da Idade Moderna, Philipe Pinel, um médico francês influenciado pelas ideias do Iluminismo e pelos ideais revolucionários franceses de liberdade. Mencionou também que Pinel preconizou o tratamento moral para os doentes mentais e os desacorrentou a partir de sua nova prática médica, exercida enquanto chefiou os hospitais em Bicêtre e La Salpêtrière na França. Alinne salientou que Pinel revolucionou a história da psiquiatria com tratamentos mais racionais e humanizados. Salientou ainda que Pinnel foi autor do livro "Tratado Médico-Filosófico sobre Alienação ou a Mania", e recebeu o título de "pai da psiquiatria moderna".      
Jennyfer passou, então, a abordar a história da psiquiatria nos séculos XIX e XX. Mencionou que o século XIX "foi um grande edifício de asilos", e que o termo asilo era utilizado para estabelecimentos privados que tentavam viabilizar o cuidado de pessoas que eram consideradas um fardo para sociedade, como idosos, pessoas com deficiências físicas e doenças mentais. O termo manicômio surgiu a partir do século XIX, para designar o hospital psiquiátrico. Ela destacou também que houve uma disseminação da prática de retirar os doentes mentais do convívio social para colocá-los nos manicômios, que proliferaram para abrigar os doentes e também outras pessoas marginalizadas socialmente. 
Jennyfer continuou sua explanação mencionando personalidades importantes na história da psiquiatria do século XVIII e XIX e algumas de suas contribuições: Theodor Meynert (psiquiatra austríaco que fazia secções cerebrais, e que não acreditava em aspectos sociais das doenças mentais e nem na sua cura); Jean Martin Charcot (abordagem psicossocial da doença mental e  estudos sobre histeria): Pierre Janet (parceiro de Charcot nas hipnoses para curar os pacientes com histeria e criador do termo "neurastenia"); Benédict-Augustin Morel (criador da teoria da degeneração progressiva ou degenerescência); Richard Von Krafft (atribuiu o excesso de sexualidade como fator predisponente à doença mental); Adolf Meyer (abandonou o estudo biológico da psiquiatria em favor de estudos biopsicossociais dos pacientes); e Eugen Bleuler (cunhou o termo esquizofrenia). Em 1924, Bleuler (1857-1939) estudou sobre a chamada "demência precoce", para a qual propôs o nome esquizofrenia, e descreveu os sintomas desta doença. 
Após menção a grandes personalidades da psiquiatria nos séculos mais recentes, Jennyfer mencionou brevemente Sigmund Freud e a criação da Psicanálise. Este tópico foi desenvolvido pela moderadora do seminário, uma vez que a aluna responsável por este tópico encontrava-se de licença.
Posteriormente, Jennyfer passou a discorrer sobre a história da terapia medicamentosa em psiquiatria. Ela destacou que a psicofarmacologia moderna inicia-se no final da década de 1940, quando foram introduzidos os primeiros fármacos com a finalidade específica de tratar os transtornos psiquiátricos. Esta história começa com a clorpromazina, que proporcionou uma revolução no tratamento da esquizofrenia, permitindo que muitos pacientes deixassem os asilos onde tinham sido previamente confinado, e passassem a viver na comunidade. Jennyfer mencionou também Julius Jauregg, Paul Ehrlich e Alexander Fleming, como precursores de tratamentos medicamentosos, que embora estes não fossem psicofármacos, contribuíram significativamente na história dos medicamentos relacionados a doenças com manifestações neurológicas e psiquiátricas. No tocante a outras substâncias psicoativas, a apresentadora citou ainda a utilização de drogas como apomorfina, barbitúricos e benzodiazepínicos. Relatou o emprego de determinadas medidas terapêuticas controversas como a eletroconvulsoterapia e o choque insulínico, assim como a lobotomia, destacando, em relação a esta última, o papel do precursor, o português Egas Moniz, e do americano Walter Freeman, que difundiu e popularizou o emprego da técnica através do uso de um furador de gelo (lobotomia trans-orbital), realizada de forma indiscriminada nos anos 1930 nos Estados Unidos. Também mencionou a descoberta do papel dos neurotransmissores e os novos exames do cérebro por imagem na segunda metade do século XX
Sayron apresentou a história das reformas psiquiátricas. Iniciou referindo que os primeiros questionamentos sobre o papel da psiquiatria começaram a surgir no período pós-segunda guerra mundial, influenciados pelas experiências realizadas pelos nazistas, o ataque pela bomba atômica e outras barbáries que aconteceram até a segunda metade do século XX. Mencionou ainda que foi nesse período que surgiram o aconselhamento psicológico, os estudos fenomenológicos e o existencialismo como forma de acolher o ser humano que estava abalado, enquanto que paralelamente ocorreram as primeiras tentativas de se modificar o hospital psiquiátrico, buscando-se humanizá-lo, pois sabia-se que os maus tratos aumentavam os índices de cronificação das doenças e estavam em oposição à proposta de uma instituição de saúde e cura. Nesse sentido, Sayron listou alguns movimentos que aconteceram ao redor do planeta, entre eles: o movimento das comunidades terapêuticas na Inglaterra; a psicoterapia institucional e a psiquiatria de setor, que buscavam a recuperação da função terapêutica do hospital psiquiátrico na França; a psiquiatria comunitária nos Estados Unidos, com foco na prevenção e promoção de saúde mental; na Inglaterra também surgiu o movimento da Antipsiquiatria, que propunha a loucura como um fato social sem necessidade de tratamento; a psiquiatria democrática italiana, evento de maior ruptura, e que determinou o reconhecimento da existência da doença mental, porém com a proposta de um novo olhar sobre ela, que era mais complexo, não enxergando somente o doente mental como ser isolado. 
Sayron mencionou também as reformas que ocorreram no Brasil devido às ideias que começaram a aparecer na década de 1980, no período de redemocratização, enquanto o Brasil passava por uma série de mudanças. O apresentador afirmou ainda que em 1982 houve a criação do programa de reorientação da assistência psiquiátrica pelo Ministério da Previdência e Assistência Social, e em 1987, houve a I Conferência Nacional de Saúde Mental, o II Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental, o fim da trajetória sanitarista e movimentos a favor do fim dos manicômios. Mencionou que houve a criação do dia da luta antimanicomial, que passou a ser o dia 18 de maio, além da criação da lei da saúde mental, em 2001, e de uma série de portarias, entre elas a 189 e 224, que regularizaram os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e os Núcleos de Atenção psicossocial (Naps). 
Liliane prosseguiu a apresentação do seminário, abordando a história da psiquiatria brasileira, começando sua fala com menção aos primórdios da psiquiatria no Brasil. Mencionou a criação do hospício Pedro II em 1852 como um marco importante. Referiu também que os doentes mentais eram cuidados por curandeiros e religiosos até o século XVIII, com exceção dos mais ricos, que eram trancafiados dentro de suas casas ou enviados para a Europa para se tratarem. Segundo ela, antes da criação do Hospital Pedro II, havia as Santas Casas de Misericórdia, desprovidas de atenção médica e de higiene. Sobre o Hospital Pedro II, Liliane afirmou que foi criado de acordo com o modelo asilar francês e que tinha o intuito de abrigar os doentes mentais e oferecer tratamento, mas possuindo também o caráter de consolidar uma política civilizatória e ordenada no Brasil para se equiparar às potências ocidentais. Mencionou que a administração desse hospício foi feita pela Santa Casa de Misericórdia até 1890 com atuação muito forte de religiosos, o que mostra que a psiquiatria no Brasil enquanto política de assistência precedeu a psiquiatria como saber médico especializado. Liliane mencionou a fase de "medicalização" da loucura, a incorporação de colônias agrícolas na rede de assistência, a criação da lei de assistência aos alienados em 1903, a instituição da psiquiatria como posição central dentro dos hospícios, e a criação de vários hospícios públicos em outros estados, citando o exemplo da Paraíba, na qual houve criação do Asilo Santa Ana, em João Pessoa. Mencionou que os pacientes psiquiátricos passaram a ter o trabalho como tratamento terapêutico para estimular o cérebro e reduzir as manifestações delirantes. 
Sobre o início do processo de institucionalização da psiquiatria, a aluna disse que em 1881 houve a reforma no ensino, que levou à criação da cátedra de clínica psiquiátrica e de moléstias mentais, e da qual Teixeira Brandão foi o primeiro psiquiatra responsável. Lembrou também que em 1907 houve a criação da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, propiciando um campo para debates de casos clínicos, diagnósticos e reunião de médicos interessados na psiquiatria. 
Liliane falou também sobre o famoso psiquiatra baiano Juliano Moreira, que foi diretor do Hospício Nacional de Alienados entre 1903 e 1930, tendo sido também fundador, juntamente com Afrânio Peixoto, da Revista Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins em 1905, e foi quem introduziu o modelo teórico e assistencial baseado na psiquiatria alemã.  
Entre 1920 e 1930, Liliane citou os seguintes acontecimentos marcantes na psiquiatria: disseminação do ideário psiquiátrico preventivista e a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental, criada por Gustavo Riedel, e baseada em conceitos de eugenia, hereditariedade e de críticas às condições sociais. Nas décadas de 1940 e 1950, disse que houve uma expansão dos hospitais públicos, principalmente a criação de hospitais estaduais, assim como a introdução de instrumentos de tratamento como o choque cardiazólico, a psicocirurgia, a insulinoterapia e a eletroconvulsoterapia, utilizando a imagem das esculturas de Lúcio Noeman para ilustrar esta fase da história da psiquiatria no Brasil. 
A respeito das décadas de 1960 e 1970, Liliane destacou as raízes da reforma psiquiátrica brasileira, com a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) em 1966, o que acarretou o crescimento dos hospitais particulares em detrimento dos públicos, assim como a realização do I Congresso Brasileiro de Psiquiatria, e que houve forte influência da psiquiatria preventivista. Encerrou a apresentação, afirmando que, nesse período, houve muitas críticas ao governo federal por causa da política privatista, fraudes e muitas denúncias contra maus tratos, abandonos e violências nos hospitais psiquiátricos, mas que a partir da década de 1980 tomou forma a Reforma Psiquiátrica.

Após a apresentação, houve a demonstração de obras de arte escolhidas pelos alunos e relacionadas com a temática da história da psiquiatria.
Jaciara escolheu a obra “Os jardins do Asilo de Arles”, de Vincent Van Gogh - 1888.

Aline mostrou a obra “Philippe Pinel à la Salpetriere”, de Tony Robert-Fleury, 1876:

 Jennyfer trouxe a obra “The Rake’s progress”, de William Hogarth, 1735:

Sayron destacou o trabalho “O ateliê segundo Emygdio”, do Ateliê de pintura da psiquiatra brasileira Nise da Silveira:

Por fim, Liliane apresentou um trecho da obra “O Cemitério dos Vivos”, do escritor Lima Barreto:

As referências apresentadas ao final do seminário foram as seguintes:





18 de outubro de 2015

Ao Bom Médico...

"O bom médico é aquele que refaz, mesmo sem o saber, a trajetória da medicina através dos tempos. 
Como Hipócrates (460-377 a.C.), sabe que a vida é curta mas a arte é longa; sabe que a ocasião é fugidia, a experiência, enganadora, o julgamento, difícil." [...] 
"O bom médico sabe, como o francês Ambroise Parré (1510-1590) que curar é mais do que intervir; curar como diz a origem latina da palavra, significa cuidar." [...]
"O bom médico sabe, como o inglês Thomas Sydenham (1624-1689), que a enfermidade tem certa lógica, segue aquilo que se pode chamar de uma história natural, que aos poucos, e seguindo um trajeto mais ou menos previsível, transporta a pessoa para outra realidade, a realidade da doença" [...]
"O bom médico sabe, como o alemão Rudolf Virchow (1821-1902), que a doença deve ser procurada não apenas no que é visível, mas também ali onde os olhos não enxergam". [...] 
"O bom médico, como o austríaco Sigmund Freud (1856-1939), sabe que é preciso ter coragem de defender as próprias convicções, como aquelas sobre a existência do inconsciente, mesmo quando elas se chocam com os preconceitos e as idéias preestabelecidas.
O bom médico sabe, como o brasileiro Oswaldo Cruz (1872-1917), que é preciso enfrentar a doença na população, mesmo trabalhando na complicada fronteira entre medicina e política. [...]

"O bom médico talvez não seja tão famoso como Hipócrates ou Parré, quanto Sydenham ou Virchow, quanto Freud ou Oswaldo Cruz; mas para seu paciente, para a comunidade da qual cuida, ele é a própria medicina, ciência e arte."

[In: SCLIAR, M. O olhar médico: Crônicas de Medicina e Saúde. São Paulo: Agora, 2005] 

7 de fevereiro de 2012

Frederick Novy: Curiosidade Científica Sempre


Frederick George Novy (1864-1957), médico americano e professor da Universidade de Michigan,  foi um microbiologista muito influente do início do século XX. Ele criou técnicas de cultura para visualizar bactérias anaeróbicas, parasitas e espiroquetas.

Em 1909, começou a investigar a causa de mortes inexplicáveis ​​em ratos de seu laboratório, e que hipoteticamente deviam-se a um "organismo ultramicroscópico" ou "vírus filtrável". Entretanto, em 1918, os tubos de ensaio que ele estava usando para estes experimentos desapareceram de seu laboratório. Seu sonho de encontrar um vírus como a causa provável das mortes misteriosas de seus ratos, aparentemente, foi perdido. Frederick Novy aposentou-se em 1935.

Trinta e três anos depois, em 1951, uma caixa contendo os tubos de ensaio foi descoberta por acaso durante a limpeza do laboratório. A curiosidade de Novy não tinha diminuído com o tempo. Avisado sobre o achado, e 16 anos após sua aposentadoria, ele voltou ao antigo laboratório, com 88 anos de idade, para continuar os experimentos que ele tinha começado mais de 40 anos antes.

Novy completou suas investigações em 1953 e publicou suas descobertas de que um vírus era de fato o organismo não identificado que havia matado ratos rapidamente seu laboratório em 1909.

Fonte: KASANJIAN, J. Lifelong Curiosity: Frederick Novy and the Rat Virus. Annals of Internal Medicine.  156 (3): 234-237, 2012.

27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar, Médico-Escritor

"A morte de Ivan Ilitch, do Tolstoi, é uma verdadeira lição de vida, e a prova de que alguns livros de ficção podem ensinar mais do que qualquer manual de medicina." "A gente nunca pode desistir de encontrar sentido no aparente absurdo da nossa existência."
(Moacyr Scliar)
Moacyr Scliar, médico sanitarista, escritor prolífico e membro da Academia Brasileira de Letras, morreu hoje. Foi um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Os temas dominantes de sua obra são a realidade social da classe média urbana no Brasil, a medicina e o judaísmo. Ainda na Faculdade de Medicina, começou a escrever histórias sobre suas vivências como estudante, depois reunidas em um livro, "Histórias de médico em formação." Mas o tema da medicina é recorrente em sua obra: "A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura", "Doutor Miragem", "Sonhos Tropicais", baseado na vida de Oswaldo Cruz, "A Majestade do Xingu", inspirado no sanitarista Noel Nutels, além de vários ensaios que escreveu sobre o tema. Segundo Scliar (2010), para a medicina, responder à pergunta do paciente, “o que vai me acontecer agora?” é sempre um desafio. "Um desafio que exige o desenvolvimento de habilidades especiais, tanto do ponto de vista científico como do ético e psicológico. E é um desafio que surge cedo na história da medicina. Podemos dizer que a arte do prognóstico antecipou mesmo a do diagnóstico" (SCLIAR, 2010, p. 14). Em uma das muitas entrevistas que concedeu, disse que gostaria de ser lembrado no futuro como alguém que amou as pessoas, amou seu país e sua cultura, amou a literatura, amou a medicina (http://livrosrevisados.forumeiros.com/t116-entrevista-moacyr-scliar).

Ele dizia que acreditava em inspiração como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas, como o sonho, por exemplo. Mas, para ele, só inspiração não era suficiente. Afirmou: "Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais. Preciso só de um teclado."
Sobre o início de sua obra literária, disse:

[...] Tenho o livro número um e o número zero. O livro número zero resultou das minhas histórias como estudante de Medicina. Com essa vivência ia escrevendo e publicando meus contos no jornal da faculdade, que se chamava Bisturi. Alguns colegas achavam estranho esse negócio de escrever historinha e outros gostavam muito. E esses que gostavam me disseram para publicar um livro. Próximo à época da formatura... isso é interessante, porque faz exatamente 40 anos, e o livro saiu nesta época, outubro, novembro... Procurei um amigo que tinha uma pequena editora. Ele não levava fé nenhuma, e com toda a razão, mas como era amigo não podia dizer que não. Fizemos 500 livros. O título era “Histórias de um Médico em Formação”. Foi um sucesso, porque meus pais obrigavam todo mundo a comprar. Minha mãe ia de porta em porta dizendo: “Olha, saiu o livro do meu filho”. Houve alguns comentários, é claro, aí comecei a reler o livro e me dar conta de que tinha algumas coisas que estavam mal redigidas, algumas histórias mal construídas, mal terminadas. Era um livro de amador. Olha, entrei em depressão e comecei a achar que tinha me enganado, que só eu achei que era escritor. E decidi trabalhar só com Medicina. Nos seis anos seguintes continuei a escrever, é claro, mas daí eu aprendi. Escrevia, guardava, depois relia e seis anos depois tinha uma coleção de histórias e, tinha certeza, era o melhor que eu poderia fazer. [...] Trecho de Entrevista concedida por Moacyr Scliar - Disponível em: http://www.revistapress.com.br.

Em sua tese, defendida em 1999, "Da bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica", analisa as ideias sobre saúde, doença e prática médica na cultura judaica. Mostrou que, como em outras culturas, essas idéias sao moduladas pelo contexto histórico, social, econômico e cultural. Quatro fases ou períodos sao identificados nesta trajetória, que abrange um período de três milênios: fase teológica ou bíblica; fase teológico-filosófica, ou talmúdica; fase médico-filosófica; fase moderna. Estas fases correspondem, aproximadamente, a três modelos de pensamento médico que se sucederam na cultura ocidental: mágico-religioso, empírico e científico. Em cada fase ou período há um figura polarizadora do pensamento sobre saúde e doença e da prática médica: o sacerdote, rabino, o filósofo, o médico com formaçao científica, codificada (SCLIAR, 1999). Para Guimarães (2005), a intensidade da ironia scliariana é característica de uma espécie de parábola contemporânea, que combina a fantasia com a tragicômica realidade. "Scliar cria narrativas aparentemente simples, semelhantes às do imaginário infantil que, na verdade, devem ser entendidas como metáforas, no universo adulto" (GUIMARÃES, 2005, p. 13). Scliar deixa legado fundamental e diverso, com uma grandiosa obra literária, sem deixar de lado sua carreira médica. Moacyr Scliar também tinha profundo conhecimento da história da medicina.

Referências GUIMARÃES, L. C. A ironia na recriação paródica em novelas de Moacyr Scliar. [Tese] São Paulo: Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, 2005. Disponível em: http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bas/33004048019P1/2005/guimaraes_lc_dr_assis.pdf. Acesso em: 27 fev. 2011. SCLIAR, M. A difícil arte do prognóstico. CREMESP: Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. 50: 14, 2010. http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=459 SCLIAR, M. J. Da bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. [Tese]. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, 1999.Disponível em:portalteses.icict.fiocruz.br/pdf/FIOCRUZ/1999/scliarmjd/capa.pdf. Acesso em: 27 fev. 2011.

27 de setembro de 2010

Girolamo Fracastoro: Pioneiro da Teoria Microbiana

Girolamo Fracastoro (1478 - 1553)
Girolamo Fracastoro foi um médico e poeta italiano, nascido em Verona, Itália, que elaborou uma teoria racional sobre a infecção ainda em 1546, tornando-se pioneiro na afirmação de que várias doenças eram causadas por germes. Isso ocorreu 300 anos antes da comprovação experimental da existência de micróbios por Antoine Béchamp, Louis Pasteur e Robert Koch.
Coube, então, a Girolamo Fracastoro o mérito da primeira tentativa de analisar e compreender o contágio. Suas idéias acerca do contágio, que define como "uma infecção que passa de um ser vivo a outro ser vivo", são inspiradas na doutrina atomística de Leucipo e Demócrito. Aceitando que o corpo humano é constituído por um conjunto inumerável de partículas invisíveis e em constante movimento, Fracastoro, mesmo sem abandonar a teoria humoral, afirma que quando o indivíduo é atacado por uma doença infecciosa, ocorre no seu organismo uma "putrefação especial", que libera os "germes da doença", aos quais ele chamou de seminaria morbi (FERREIRA et al., 1996), ou "sementes da doença".
A sua principal contribuição para a Medicina foi o livro De contagione et contagiosis morbis ("Acerca do contágio e das Doenças Contagiosas"), publicado em 1546 e no qual afirmou que o contágio era causado por corpos minúsculos do agente causador da doença, facilmente multiplicáveis, passavam de um organismo infectado para o indivíduo sadio e aí, estes hipotéticos corpúsculos teriam o poder de se multiplicar no organismo do novo portador. Esta passagem se daria pela transmissão através de agentes inanimados ou fômites (roupas, objetos de uso manual, etc.) e à distância, pelo ar.
Em carta de Fracastoro a René Descartes, em 1547, lê-se o relato de suas idéias sobre o contágio:

Publiquei no início de 1546 o livro De contagione et contagiosis morbis et curatione, onde pela primeira vez foram descritas as enfermidades que podem classificar-se como contagiosas, incluindo a peste, a lepra, a tisis, a sarna, a raiva, a erisipela, a varíola, o antrax e o tracoma. Incluí ainda, como contagiosas, o tifo exantemático e a sífilis. (FRACASTORO, apud FERREIRA et al., 2010).

Em 1530 publicou seu poema com 1300 versos intitulado Syphilis Sive Morbus Gallicus, nos quais descreveu uma doença que assolava o mundo, a sífilis. No poema em três volumes, descreveu a sífilis e fez uma das primeiras descrições sobre o tifo exantemático, deu nome à doença, descreveu sua natureza e prescreveu seu tratamento.
Portanto, Girolamo Fracastoro foi um cientista do século XVI que descreveu detalhes de doenças e sua transmissão, comprovados somente alguns séculos depois, adotando para tanto a observação, o entendimento, a imaginação, a intuição e a dedução. De acordo com Ferreira et al. (1996), este "foi o primeiro passo, ainda incerto e tateante, numa longa caminhada", que continua ainda nos nossos dias.
Fracastoro teve pouca influência com suas idéias sobre o contágio, mas o interesse no seu trabalho foi reavivada no século XIX, quando surgiu a moderna teoria microbiana.
Referências
FERREIRA, L. A. P.; RAMOS, F. R.; ASSMANN, S. O encontro de Fracastoro com Descartes: reflexão sobre a temporalidade do método. Texto contexto - enferm. 19 (1): 168-175, 2010.
SOUSA, A. T. Curso de História da Medicina: Das Origens aos Fins do Século XVI. Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 1996.
Figura: Retrato de Girolamo Fracastoro ("Dottore Fracastoro") feito por Tiziano Vecellio. Disponível em: http://www.nationalgallery.org.uk. Acesso em: 28 set. 2010.

13 de setembro de 2010

John Snow e a veiculação hídrica da Cólera

John Snow (1813-1858)
John Snow foi um dos mais influentes sanitaristas do século XIX.
Médico inglês conhecido por seu trabalho pioneiro sobre a cadeia de transmissão do vibrião colérico, John Snow é considerado um dos fundadores da moderna Epidemiologia. Também tem uma grande contribuição na área da Anestesiologia.
Graduou-se na Universidade de Londres (1843). Nunca se casou e dedicou toda sua vida aos seus pacientes e à pesquisa médica.
No decênio de 1840 desenvolveu pioneiramente equipamentos empregados para aplicação do éter com segurança para pacientes. Seu livro On Ether (1847) permaneceu como referência padrão até meados do século XX (FERNANDES, 2002). Publicou artigos sobre o uso seguro da anestesia com éter (SNOW, 1852).
Em 1854, John Snow demonstrou que as fezes contaminavam a água e esta era a origem da infecção pela cólera quando, na época, acreditava-se que a contaminação ocorria através de miasmas.
Além da clareza de raciocínio, epidemiologica e clinicamente, dos escritos de John Snow, o seu exemplo bem adaptou-se bem à epidemiologia do iniício do século XX, uma vez que chegou muito perto do paradigma bacteriológico atual.
A evolução da interpretação da obra de John Snow foi inicialmente estudado em profundidade na literatura médica holandesa e, posteriormente, nos estudos de bacteriologia, higiene e literatura epidemiológica da Alemanha, o Reino Unido e Estados Unidos (WANDERBROUKE et al., 1991).
A hipótese de Snow de que a cólera era transmitida por água contaminada foi testada na epidemia da "Broad Street" de 1854. Snow rapidamente identificou a água utilizada nas casas atingidas pela cólera através da bomba da Broad Street, e convenceu a junta sanitária a remover a alça. A epidemia desapareceu. O Conselho não acreditou realmente, de modo que o pároco, Henry Whitehead, repetiu o trabalho de Snow, embora a um ritmo mais vagaroso, já que a epidemia tinha abrandado.
Através de mapas da cidade, Snow localizou 700 casos de mortes em um raio de quilômetros e mostrou que o uso de água da bomba da localidade Broad Street estava fortemente correlacionada com a morte por cólera. Descreveu então o comportamento da cólera por meio de dados de mortalidade, frequência e distribuição dos óbitos segundo os locais de ocorrência. Assim, começou a "epidemiologia geográfica", e por isso, John Snow é considerado um dos patronos da Epidemiologia (NEWSON, 2006).
Questiona-se na literatura por que as avaliações dos resultados de John Snow pelos contemporâneos foi o inverso da avaliação existente hoje. Na década de 1840 e 1850, o trabalho de William Farr, seu contemporâneo e também inglês, foi considerado definitivo, enquanto o de Snow foi tido como falho. Sua descoberta sobre o surto de cólera em Londres em 1849 não foi muito convincente para seus contemporâneos. Uma grande mudança no pensamento sobre as causas das doenças seria necessária antes que o trabalho de Snow pudesse ser amplamente aceito. Estudos posteriores de William Farr contribuíram para essa aceitação.
Mais de um quarto de século antes da descrição de Koch sobre o vibrião da cólera, na época de Snow foram visualizados ao microscópico "vibriões" nas fezes tipo "água de arroz" de doentes de cólera que, mais tarde, concluiu-se ter sido o bacilo da cólera. Apesar de este achado ser uma evidência potencial para a demonstração de Snow de que a cólera era devida a um agente contagioso e transmitida pela água, provavelmente na água de abastecimento, o conselho de saúde britânico rejeitou as suas conclusões (PANETH et al., 1998).
John Snow morreu aos 45 anos durante a terceira pandemia de cólera asiática (1846-1863) em Londres.
Referências
EYLER, J. M. The changing assessments of John Snow's and William Farr's cholera studies. Soz Praventivmed. 46(4):225-32, 2001.
FERNANDES, C. Só Biografias. Disponível em: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias. Acesso em 13 set. 2010.
NEWSON, S. W. Pioneers in infection control: John Snow, Henry Whitehead, the Broad Street pump, and the beginnings of geographical epidemiology. J Hosp Infect.;64 (3):210-6, 2006.
PANETH, N.; VINTEN-JOHANSEN, P.; BRODY, H.; RIP, M. A rivalry of foulness: official and unofficial investigations of the London cholera epidemic of 1854. Am J Public Health. 88(10):1545-53, 1998. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1508470/?tool=pubmed. Acesso em 13 set. 2010.
SNOW, J. Cause and Prevention of Death from Chloroform. Lond J Med, 4(40):320-329, 1852. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2544276/?tool=pubmed
VANDERBROUCKE, J. P.; EELKMAN, R. H. M.; BEUKERS, H. Who made John Snow a hero? Am J Epidemiol. 15;133(10):967-73, 1991.

23 de janeiro de 2010

Quem tem medo de Sigismund?


O médico neurologista judeu-austríaco, fundador da Psicanálise, Sigismund Schlomo Freud, alterou seu nome para Sigmund Freud em 1877.
Freud, além de ter sido um grande cientista e escritor, é considerado, assim como Charles Darwin e Karl Marx em seus respectivos campos, mentor de uma revolução no âmbito do conhecimento humano: a idéia de que somos movidos pelo Inconsciente.
O pensamento freudiano tem defensores e críticos, mas sempre servirá como um dos pólos do debate sobre o psiquismo e como matriz comum para as diversas escolas da psicanálise e para praticamente todas as áreas psíquicas.
Freud viveu em uma sociedade de forte repressão sexual. Na atualidade, em uma sociedade sexualmente mais liberalizada, talvez as neuroses clássicas descritas por ele já não sejam mais encontradas. No entanto, as sociedades modernas ainda geram culpa e neurose. Contudo, é possível supor que a explicação psicanalítica decorra de peculiaridades do século XIX, embora Freud tenha transferido inapropriadamente para outras épocas, anteriores à dele, o sistema de repressão do período vitoriano, supondo que as forças atuantes naquele momento teriam agido também na Idade Média (LEITE, 1992).
Vive-se em uma sociedade do individualismo e da exigência de êxito e sucesso para cada pessoa. Kehl (1996) afirma no livro "Psicanálise e o Contemporâneo", que a frase já banalizada "Freud explica" é empregada para fundamentar e desculpar nossos atos através da explicação das motivações inconscientes, que serviriam assim, como justificativa para o exercício da "soberania narcísica do cidadão". Parece bem contemporânea essa concepção, na medida em que a construção do indivíduo moderno implica um verdadeiro "culto do eu".
Vestir-se de acordo com a última moda, cultuar a vaidade perfeccionista e o consumismo são valores cada vez mais vistos na sociedade contemporânea. O imperativo do sucesso também faz parte disso. Temos quase uma "obrigação" de conseguir sucesso... Somos bem narcisistas, não? Não falo do narcisismo na sua conotação do "belo", mas na concepção de que devemos ser sempre o "melhor" e aparecer como o melhor.
Na linha do ceticismo, tentando desmistificar Freud, Lopes (2008) diz que a Psicanálise virou apenas dogma e exibicionismo literário, e que Freud "não explica quase nada". Por sua vez, Moon (2009) menciona as inúmeras revisões sofridas pela teoria psicanalítica de Freud nas duas últimas décadas, afirmando que esta foi "ofuscada" pelos efeitos obtidos com as drogas antidepressivas, que evidenciaram uma base neurobiológica para vários quadros psíquicos explicados antes pela Psicanálise.
A polêmica obra de Freud já foi objeto de inúmeras controvérsias, como qualquer outro corpus teórico de maior importância. Contudo, um dos biógrafos de Freud considera que ele é mais controverso agora do que nunca (GAY, 1989). Claro que uma teoria deve sempre ser revisada e estar em movimento, fazendo rever seus conceitos de base.
Porém, para alguns autores, a Psicanálise, hoje, pode ser vista como reacionária e ultrapassada. Apontam-se erros metodológicos e clínicos durante os seus 100 anos de existência. LEVY (1994), entretanto, considera que mesmo concordando com as críticas que se fazem à psicanálise atualmente, esta está fazendo uma completa reformulação a partir da observação dos excessos cometidas pelos psicanalistas mais ortodoxos. Esse autor afirma: "será possível falar em ultrapassado de algo que serve de base ou de apoio para tantas e tão variadas formas de terapia? Negar a existência do Inconsciente é como voltar a dizer que o mundo é quadrado."
Conta-se que Freud alertou seus seguidores sobre a chegada dos "homens da seringa". Teria com isso chamado a atenção, simbolicamente, para o avanço das neurociências – em particular a neurofarmacologia – quanto ao seu empenho na busca da origem e da terapia dos distúrbios mentais fundada na ciência empírica, capaz de pôr em dúvida o método que criara para o tratamento considerado não-experimental de pelo menos alguns desses distúrbios (MENDES, 1996).
Mendes (1996) afirma ainda que, apesar das críticas à teoria psicanalítica, Freud foi o pioneiro na concepção do Inconsciente, o primeiro a especular que os eventos traumáticos da infância podem influenciar a vida do adulto, e a postular que na psicanálise o paciente, não o médico, dirige a terapia, tirando este último de um papel autoritário para outro mais receptivo e dialógico. Nesse sentido, as várias formas de terapia pela fala poderiam ser consideradas um legado de Freud.
Na sua época, Freud sofreu muitas resistências no espaço universitário. Mas propôs o ensino da psicanálise nas escolas médicas como um curso elementar para os estudantes de graduação em Medicina. Há consenso quanto à questão de que, no Brasil, os objetivos prioritários dos cursos de graduação em Medicina devem ser orientados para a formação de médicos generalistas capacitados para atender às necessidades de saúde da maioria da população. Os currículos devem, pois, ser ajustados no sentido de relacionar tal necessidade com o conteúdo e a metodologia de ensino.
Porém, como afirma Lowenkron (1997), o inconsciente "fala", ou seja, os sintomas, mesmo quando observados no campo da Medicina Interna, podem ter um outro sentido, que remeta ao psíquico, um idioma que a princípio pode não ser compreendido, mas que é possível de ser decifrado: o interlocutor capaz de escuta analítica cria as condições de transformação desses sintomas em palavras, expressão de conflito psíquico, ampliando a inteligibilidade da comunicação.
Ainda segundo o referido autor, tornar-se um médico capaz de uma escuta atenta e de uma observação sensível, implica reconhecer, para além do corpo biológico do paciente, aquilo que por esse é falado e sofrido. A aquisição de tal habilidade envolve, além de conhecimento teórico, o desenvolvimento de atitudes adequadas. Assim, uma disciplina com conteúdos elementares em Psicanálise é importante na formação do estudante de medicina na descoberta da dimensão inconsciente dos fenômenos psíquicos, o que pode ser de grande valia na sua prática clínica.
Voltando às controvérsias em torno da teoria psicanalítica, salienta-se um polêmico artigo publicado na Revista Der Spiegel em 1998 pelo neurologista Eric Kandel, Prêmio Nobel de Medicina em 2000 e presidente da Society for Psychotherapy Research. Segundo ele, a Psicanálise, que existe há mais de um século, está fadada a perder cada vez mais influência. Nesse artigo, intitulado "A biologia e o futuro da psicanálise", Kandel (1998) considera totalmente ultrapassado o modelo id-ego-super ego do aparelho psíquico elaborado por Freud.
Os críticos da teoria psicanalítica afirmam que faltam evidências científicas das noções de um "inconsciente" e de um mecanismo de "repressão", assim como qualquer prova de que o pensamento ou o comportamento conscientes são influenciados por memórias reprimidas, noções fundamentais da teoria da Psicanálise.
Segundo Pena (1998), a terapia psicanalítica baseia-se na busca do que "provavelmente não existe", ou seja, memórias de infância reprimidas, assumindo o que provavelmente é falso (as experiências de infância provocam os problemas do paciente), além de associar-se a uma terapêutica incorreta, baseada na tentativa de trazer as memórias reprimidas ao consciente.
Por outro lado, há críticos que consideram que ênfase dada por Freud às relações familiares e à sexualidade como modelos limitados de interpretação do sofrimento psíquico. A Psicanálise estaria excessivamente fechada em modelo de indivíduo do tempo de Freud, não levando em consideração que há uma infinidade de outras causas que podem ser responsáveis pelos distúrbios mentais (BOLTANSKI, 1989; IBAÑEZ-GARCÍA, 1989). Já alguns neurocientistas afirmam que a Psicanálise funciona, mas pelo seu efeito placebo (AMARAL; SABBATINI, 1999).
Freud escreveu muito e escrevia muito bem. Suas "Obras Completas" compõem-se de 24 volumes e incluem ensaios relativos a aspectos da prática clínica, uma série de conferências que delineiam toda a teoria, além de monografias especializadas sobre questões religiosas e culturais. Há quem considere que atualmente a tendência é a de que suas obras devam ser valorizadas pelo valor literário: "Não é à toa que nas principais universidades americanas as idéias de Freud estão saindo dos departamentos de medicina e psicologia e sobrevivem apenas nos cursos de literatura." (GRUMBAUM, Apud PASQUALI, 2010).
De qualque forma, Freud ainda parece ser o autor de língua alemã cuja tradução é de longe a mais debatida e estudada.
Mesmo nós, simples mortais, podemos ler seus livros. Ler Freud não é apenas para uns poucos "iniciados". Alguns pouco familiarizados com a literatura psicanalítica podem apreciar suas obras. Freud escrevia de modo agradável e com muita clareza.
Durante o Mestrado, li alguns dos livros da coleção "Obras Completas": "Interpretações dos Sonhos I", Duas Histórias Clínicas ("O Pequeno Hans" e o "O Homem dos Ratos"), além de "O Futuro de Uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos" disponíveis na Biblioteca Central da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Inicialmente levada por uma necessidade acadêmica, pensava que seria uma tarefa difícil a leitura, porém me surpreendi como esta fluiu de forma relativamente fácil, principalmente na descrição e interpretação dos casos clínicos.
Ler Freud pode ser aprazível. Pode-se perceber o escritor impecável, seu talento narrativo e sua prosa rica, embora sua obra de Freud já tenha sido criticada como ingenuidade subjetiva, não tendo uma demarcação rígida entre prosa científica e prosa artística. Talvez por isso mesmo, a despeito dessa estética literária rígida, grande parte da obra de Freud seja de leitura agradável. Afinal, quem tem medo de Sigismund?

Referências

AMARAL, J.L. do; SABBATINI, R.M.E. Efeito placebo: o poder da pílula de açúcar. Rev. Cérebro e Mente. n. 9. Universidade Federal de Campinas: São Paulo, 1999.Disponível em http://www.epub.org.br/cm/n09/mente/placebo1.htm Acesso em: 23 jan 2010.
BOLTANSKI, L. As classes sociais e o corpo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1989.
GAY, P. Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
IBAÑEZ-GARCÍA, T. La Psicologia Social como dispositivo desconstruccionista. In: Ibañez-García, T. El conocimiento de la realidad social. Barcelona: Sendai, 1989.
KEHR, M. R. Você decide... e Freud explica. In: Chalhub, S. Psicanálise e o Contemporâneo. São Paulo: Hacker Editores, Cespuc, 1996.

LEITE, D. M. O caráter nacional braseiro: História de uma ideologia. São Paulo: Ática, 1992.
LEVY, L. Freud: Atual ou ultrapassado? Trabalho apresentado no Delphos Espaço
Psico-Social, Rio de Janeiro, 1994. Disponível em: http://febrap.org.br/pdf/Atualizando_Cena.pdf. Acesso em 22 jan 2010.
LOPES, R. J. Freud não explica (quase) nada. Disponível em: http://ceticismo.net/ciencia-tecnologia/freud-nao-explica-quase-nada/. Acesso em 23 jan 2010.
LOWENKRON, F. O ensino da psicanálise na graduação médica. Relatório para o Seminário Psiquiatria e Psicanálise Hoje, XV Congresso Brasileiro ed Psiquiatria. Brasília, Outubro de 1997. Disponível em: http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/original3_02.htm. Acesso em: 22 jan 2010.
MENDES, E. G. Freud e a fisiologia. Estud. av. 10(27): 79-93, 1996.
MOON, P. Novas pesquisas questionam teoria da evolução de Darwin. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI26070-15224,00-NOVAS+PESQUISAS+QUESTIONAM+TEORIA+DA+EVOLUCAO+DE+DARWIN.html. Acesso em: 23 dez 2010
PASQUALI, S. Uma "Crítica" (Sic) a Psicanálise Freudiana... Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/2043394. Acesso em 23 jan 2010.
PENA, S. Psicanálise: A Oficialização da Mentira. 1998. Disponível em: http://www.priory.com/psych/vitpsica.htm. Acesso em 23 jan 2010.

16 de janeiro de 2010

Zilda Arns: Ser humano integral

Assisti recentemente a uma entrevista com Zilda Arns em que lhe perguntaram se ela era a mulher mais famosa do Brasil. Ela respondeu que sabia ser a mais amada. Não poderia ser diferente, seu lema era: "É preciso ajudar as pessoas a ter dignidade".
Médica pediatra e sanitarista brasileira, Zilda Arns lutou para salvar crianças pobres da mortalidade infantil, da desnutrição e da violência em seu contexto familiar e comunitário. Compreendendo que a educação é a melhor forma de combater a maior parte das doenças de fácil prevenção e a marginalidade das crianças, ela desenvolveu uma metodologia própria de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres.
Assim, fundou em 1983 a Pastoral da Criança, órgão ligado à Igreja, para ajudar famílias carentes a criar os filhos em boas condições de higiene e saúde.
Recebeu diversas menções especiais e títulos de cidadã honorária. Da mesma forma, a Pastoral da Criança recebeu diversos prêmios pelo trabalho que vem sendo feito desde a sua fundação, sendo indicada ao Prêmio Nobel da Paz três vezes seguidas e recebeu 19 prêmios entre 1988 e 2002. São exemplos: menção especial pela UNICEF – Brasil como personalidade brasileira de destaque no trabalho em prol da saúde da criança; o Prêmio Internacional OPAS – Organização Pan-americana de Saúde, em Administração Sanitária, em 1994, e o título de Heroína da Saúde Pública das Américas, em 2002.

Todo esse reconhecimento não é por acaso. Ela dedicou sua vida à causa humanitária. O trabalho que liderava envolvia mais de 83 mil voluntários e acompanha mais de 2 milhões de famílias e 3 milhões de crianças menores de 6 anos de idade em 22 mil comunidades pobres de todo o país.

Uma líder que inspirava serenidade, determinação e doçura. Esta última estava patente em sua expressão, dizem que ficava feliz quando via que uma criança havia ganho peso e quando via que nenhuma gestante havia ficado sem reforço alimentar.

Zilda Arns encontrava-se no Haiti em missão humanitária e preparava-se para uma palestra sobre a Pastoral da Criança na Conferência dos Religiosos do Caribe quando começou o terremoto. Foi uma das vítimas fatais do forte terremoto que atingiu Porto Príncipe há quatro dias (12 de janeiro de 2010). Essa tragédia dizimou milhares de pessoas e também essa mulher extremamente altruísta e humana. Ela não foi apenas uma grande personalidade da Medicina brasileira, foi uma missionária do mundo.

21 de novembro de 2008

Alexander Fleming e a Serendipidade



Alexander Fleming (1888-1955), médico e bacteriologista inglês, a quem se deve a descoberta da penicilina, o antibiótico mais conhecido da história.
Depois de estudar medicina, Alexander Fleming foi trabalhar no St. Mary’s Hospital, da Universidade de Londres. Seu desempenho na época de faculdade foi brilhante, ele ganhou vários prêmios em sua classe e se destacou nas área de fisiologia, farmacologia, patologia e medicina forense. Tornou-se pesquisador do St. Mary’s Hospital e professor de bacteriologia da Universidade de Londres. Como cientista, ele dedicou-se a pesquisar substâncias capazes de matar ou impedir o crescimento de bactérias nas feridas infectadas.

Os dois descobrimentos de Fleming ocorreram nos anos de 1920 e ainda que tenham sido acidentais demonstram a grande capacidade de observação e intuição deste médico britânico. O descobrimento da lizosima ocorreu depois que o muco de seu nariz, procedente de um espirro, caísse sobre uma placa de cultura onde cresciam colônias bacterianas. Alguns dias mais tarde notou que as bactérias haviam sido destruídas no local onde se havia depositado o fluido nasal.
A Alexander Fleming credita-se a descoberta da penicilina em 1929. O laboratório de Fleming estava habitualmente desorganizado, o que resultou em uma grande vantagem para sua segunda importante descoberta. Trabalhando com estafilococos em 1928, ao preparar placas para o crescimento desta bactéria, contaminou sua amostra com esporos de um fungo. Deixou suas amostras na bancada e partiu para duas semanas de férias. Quando voltou para o laboratório, notou que algumas placas haviam fungado, e ao redor do fungo não cresciam estafilococos. Ao invés de jogar fora a placa, resolveu estudar as propriedades daquele fungo. Ele observou uma cultura de bactérias do tipo estafilococo e o desenvolvimento do mofo a seu redor, onde as bactérias circulavam livres.
Fleming não patenteou sua descoberta, pois achava que assim seria mais fácil a difusão de um produto necessário para o tratamento das numerosas infecções que castigavam a população. Por seus descobrimentos, Fleming compartilhou o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina junto a Ernst Chain Boris e Howard Florey.
Fleming tentou aprofundar a pesquisa e constatou que uma cultura líquida de mofo do gênero Penicillium evitava o crescimento dos estafilococos. Publicou os resultados desses estudos em 1929, mas não obteve reconhecimento nem recursos financeiros para aperfeiçoar o produto durante os anos seguintes.
O fármaco foi desenvolvido por uma equipe de cientistas, incluindo Howard Florey (1898-1968), Ernst Chain (1906-79) e Norman Heatley (nascido em 1911). Esta equipe trabalhou no desenvolvimento de penicilina durante toda a segunda guerra mundial, o que conduziu ao primeiro teste bem sucedido em camundongos, em 25 maio 1940. Em 1943, a penicilina passou a ser produzida em massa, e até 1944 era suficientemente disponível para tratar qualquer soldado que dela necessitasse.
Eleito membro da Royal Society (1943), foi nomeado cavaleiro (1944) em reconhecimento ao seu trabalho. Nos últimos anos da vida foi diretor do Wright-Fleming Institute of Microbiology. O cientista teve oportunidade de acompanhar a repercussão de sua descoberta e a evolução dos antibióticos, medicamentos dos mais utilizados no mundo e responsáveis pela cura de doenças graves, como a tuberculose, antes de morrer em Londres, de infarto agudo do miocárdio.
"Não inventei a penicilina", disse Alexander Fleming. "A natureza é que a fez. Eu só a descobri por acaso".
A Penicilina revolucionou o tratamento da infecção e marcou o início da era antibiótica.

Referências
YENNE, B. Cem homens que mudaram a história do mundo. São Paulo: Ediouro, 2002.
FERNANDES, C. Só Biografias. Alexander Fleming. Disponível em: <http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/BIOGVINC.htm?submit=Voltar+ao+Dicion%E1rioAcesso: 21 nov 2008.

Imagem: Alamy Stock Photo

11 de setembro de 2008

Thomas Sydenham: O Hipócrates Inglês


Thomas Sydenham (1624-1689), médico inglês, é considerado um dos precursores da epidemiologia. Ele estabeleceu, baseado na metodologia científica para o estudo das doenças: as enfermidades deveriam ser classificadas. Além de classificar, Sydenham procurava traçar para cada doença uma história natural, ou seja, a evolução natural de cada enfermidade. Dados como faixa etária, época do ano em que a doença mais ocorria e o perfil da pessoa deveriam ser valorizados.
Thomas Sydenham foi nomeado o "Hipócrates Inglês", o Hipócrates do seu século, o século XVII. Em seu epitáfio lê-se: medicus em omne aevum nobilis. Não era um erudito nem um escritor prolífico, foi um prático da Medicina.
Assim, Sydenham contribuiu para o conceito e o conhecimento da "história natural das doenças". Era muito bom observador, muito bom médico. A partir de Sydenham, nasceu o conceito de doença como entidade abstrata, mas captada a partir da observação de pacientes reais. Ele descreveu os sintomas clínicos da gota, a partir do qual ele sofreu, e várias outras doenças epidêmicas, assim, varíola, disenteria, sarampo, sífilis e a Coréia da febre reumática, que também leva o seu nome (Coréia de Sydenham). 
Assim, sob a orientação do conceito de Sydenham, várias doenças começaram a ser descritas e definiram-se as condições clínicas e seus cursos. Foi, então, que começaram a aparecer monografias sobre várias doenças, como acidente vascular cerebral, tuberculose e raquitismo.
SCLIAR, Moacir. Do mágico ao social: trajetória da saúde pública. São Paulo: Senac, 2002.

1 de setembro de 2008

Jean-Martin Charcot: o Pai da Moderna Neurologia

Jean-Martin Charcot (Paris, 1825 – Morvan, 1893) foi um médico e cientista francês que alcançou fama no terreno da Psiquiatria na segunda metade do século XIX. Foi um dos maiores clínicos e professores de Medicina da França e juntamente, com Guillaume Duchenne, o fundador da moderna Neurologia. Estudantes vinham de todas as partes do mundo para ter aulas com ele em Paris, inclusive Sigmund Freud em 1885.
Usou a hipnose como ferramenta de diagnóstico em seu estudo da histeria, e infuenciou as opiniões de Freud sobre a origem das neuroses. Charcot fez numerosas descobertas médicas importantes, e há até mesmo uma doença que leva o seu nome (a artropatia neurogência) é também conhecida como "junta de Charcot"). Em um determinado ponto de sua ilustre carreira, Charcou acreditou ter descoberto uma nova doença, que ele chamou de "histero-epilepsia". Os sintomas incluíam "convulsões, contorções, desmaios e falha transitória da consciência." Apresentou a seus alunos vários exemplos da nova doença durante suas passagens pelo Hospital Salpêtrière em Paris.
Tornou-se professor de anatomia patológica na faculdade de medicina da Universidade de Paris (1860). Dois anos mais tarde iniciou seu trabalho com a equipe médica do Hospital Salpêtrière, hospital parisiense criado por Luís XIV (1656) para indigentes e presidiários, famoso pelo estudo das doenças nervosas.
Descreveu a afecção nervosa que chamou de esclerose lateral amiotrófica, hoje conhecida como doença de Charcot. Estabeleceu a diferenciação das lesões que provocam a falta de coordenação de movimentos e distinguiu a esclerose múltipla da paralisia agitante. Suas maiores contribuições para o conhecimento das doenças do cérebro foram o estudo da afasia e a descoberta do aneurisma e seu papel como causador das hemorragias cerebrais.

14 de agosto de 2008

Ele foi William Osler


William Osler foi o mestre dos clínicos de sua época, e de todas as épocas posteriores à dele. Era incontestavelmente o mais sábio de sua época, o mais arguto clínico; sua habilidade em diagnosticar era legendária.

Em uma época em que não havia recursos terapêuticos eficazes como hoje, Osler se notabilizou como por compreender muito bem as pessoas, além da doença. Ele entendia o sofrimento humano e o respeitava. Seus esforços para compreender o mecanismo e as conseqüências das doenças ia além do físico e do químico para penetrar no espírito das pessoas e partilhar suas aflições.
Ele tinha intrínseco, genuíno otimismo e grande compaixão. Seu elo pessoal com os pacientes adquiria formas de seita, de religião. Ele usava poucas drogas e foi descrito como um miilista no que respeita à terapêutica. Mas era um exímio entendedor da natureza humana. Tinha sempre bom humor com os pacientes e lhes transmitia grande segurança.
Foi um devoto da medicina de beira-de-leito. Suas visitas médicas nas enfermarias chegaram a assumir proporções incômodas tal o número de pessoas que vinham para ouví-lo.
Os pacientes esperavam por ele e aceitavam sua palavra como final, e não era nunca de desencorajamento...
A palavra humanismo tem sido freqüentemente usada para descrever a atuação de Osler. Isso parece apropriado, mas deve-se salientar que humanismo não necessita apenas compaixão e vontade de ajudar. Humanismo é também "uma arte de palavras e de atitudes"; como mestre das palavras, Osler era capaz de se comunicar de maneira clara e profunda com seus pacientes. Assim, despertava fé e transmitia confiança.
Osler considerava que sua mais importante função era ensinar estudantes na enfermaria. Ele chegou a sugerir que no seu epitáfio se inscrevesse simplesmente "Eu ensinei estudantes de medicina nas enfermarias".
Osler tinha idéias claras a respeito do ensino médico nas faculdades de medicina. Acreditava que a educação dos estudantes deveria incluir grande porção de humanidades, ao lado dos conhecimentos técnicos. Ele mesmo era um leitor assíduo de clássicos da literatura como Platão e Shakespeare. Acreditava também que a função do ensino era desenvolver o gosto pelo conhecimento, e não encher a cabeça dos estudantes com meros fatos. Isto contrasta com o que vemos hoje quando estudantes são treinados principalmente para serem técnicos e pouco para cuidar de pessoas.
Escreveu extensamente sobre várias facetas da medicina; deu conferências e aulas em muitos lugares, deu conselhos a estudantes ensinando-lhes não apenas conhecimentos técnicos mas maneiras de agir, princípios de moral e ética médicas, e sobretudo humanismo.

Referências

Lopes DA, Lichtenstein A. William Osler. Rev Med (São Paulo). 2007; 86(3):185-8

Luz PL, court LV. William Osler, Médico. Sem data. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/caminhos/010/default.asp