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18 de setembro de 2025

SEMIOLOGIA DIGESTIVA 4: Constipação Intestinal

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11 de setembro de 2022

DIVERSIDADE HUMANA E SUBJETIVIDADE NA SAÚDE: DISCUSSÂO COM A TURMA 113


Na aula de “Diversidade Humana e Subjetividade na Saúde”, considerei produtiva a dinâmica de relato e discussão de casos com a turma 113 da graduação em Medicina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), à qual apresentei descritivamente e de forma resumida dois casos relacionados à temática proposta, fornecendo informações para que meus alunos da turma 1 do Módulo de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina, analisassem, pensassem e descobrissem relações e soluções dentro das situações-problema propostas.

Os alunos dessa turma me parecem ter um estilo de aprendizagem indutivo, mas também aparentam ser estudantes raciocinadores dedutivos, o que significa que aprendem melhor com exemplos de casos concretos que com o desenvolvimento teórico de conceitos; então, deixei para apresentar os princípios básicos relacionados ao assunto posteriormente à discussão, quando havia pouco tempo de aula. Como não houve tempo para sedimentar os conceitos, enviei um arquivo com os slides da exposição por meio de nosso sistema de gestão acadêmica, SIGAA/UFPB. Considerei também que eles haviam lido o texto proposto para o encontro, e vários deles citaram pontos do texto proposto durante a discussão. Tenho percebido que o uso de estudos de caso é uma técnica muito eficaz em sala de aula em módulos reflexivo-humanísticos. Os alunos aparentaram estar ativamente engajados em descobrir os princípios teóricos do tema, abstraindo dos casos relatados. Isso contribui para seu desenvolvimento em habilidades para solução de problemas, de ferramentas analíticas qualitativas, dependendo do caso, além de tomada de decisão em situações complexas, na presença de ambiguidades e conflitos humanos repercutindo na saúde.

Relato resumido do Caso 1

Gorete (nome fictício) tem 23 anos e apresenta episódios de ansiedade, acompanhados de sentimentos de morte iminente, falta de ar, palpitações e perda de sensibilidade nos membros com duração de 15 a 20 minutos. Os sintomas são acompanhados por uma mudança na consciência em que os “espíritos ancestrais” parecem assumir o controle sobre seu corpo e identidade pessoal. Essa experiência é acompanhada por comportamento agressivo e alteração na voz. Os níveis de escolaridade dos membros da família variam do analfabetismo ao ensino médio completo; mas Gorete é bem-educada, recém-graduada em pedagogia e tem planos para realizar mestrado. No entanto, seus estudos precisarão ser interrompidos porque ela descobriu que está grávida após ter um relacionamento com um colega da universidade, que retornou para sua cidade em outro estado após a formatura. A família é muito unida, evangélica e muito conservadora. Gorete não compartilhou isso com a família por medo dos pais, que eram muito severos e não aceitariam seu  comportamento em relação à sexualidade. Ela apresentou uma série de problemas e não se lembra de episódios que familiares afirmaram que estava possuída por forças sobrenaturais. Uma amiga de Gorete a convenceu a ir ao curandeiro religioso local, a quem a família dela vem consultando há muito tempo. Ela foi um templo afro-brasileiro (terreiro) onde seriam realizados rituais para “expulsar espíritos de seu corpo”. Seus sintomas melhoram, mas apenas por alguns dias. A família procurou ajuda e aconselhamento do médico da unidade básica de saúde para o comportamento anormal de Gorete, e ele considerou que se tratava de um quadro de transtorno mental e foi feito um encaminhamento para um psiquiatra local. No entanto, Gorete ficou relutante em procurar ajuda psiquiátrica, em parte devido ao estigma associado a esse tipo de terapia. Sua família também não estava aberta à psicoterapia. Houve demora na procura de ajuda do especialista foi de seis meses, em grande parte devido às crenças familiares e à falta de autopercepção de Gorete sobre sua doença.

Aberta a discussão, observei que os alunos compreendiam os vários lados da situação e se sentiam desafiados a refletir. 

Marina questionou se seria a primeira vez que a paciente apresentava uma crise aguda semelhante e perguntou se não havia antecedentes familiares de transtornos psíquicos, opinando que possivelmente a gravidez pode ter sido um gatilho para o início das crises, inclusive por não ter apoio do seu companheiro em relação à gestação indesejada. Sérgio falou de critério da Classificação Internacional das Doenças (OMS) em que havia uma exceção para se estabelecer diagnósticos em situações de sofrimento psíquico agudo relacionado a manifestações em cultos religiosos. Realmente, o funcionamento religioso e espiritual dos pacientes são uma questão de diversidade humana. Tais questões podem ser subestimadas por muitos médicos. Em 1994, houve a  introdução de um código V para se referir a problemas religiosos e espirituais (V62.89) no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) versão IV, o DSM-4, o que proporcionou uma acomodação significativa do funcionamento religioso e espiritual dos clientes no psicodiagnóstico contemporâneo. O DSM é o manual norte-americano, da Associação Americana de Psiquiatria, que constitui referência oficial usado para diagnosticar condições de saúde mental. O DSM também é usado internacionalmente como padrão em pesquisas.

A título de esclarecimento, de acordo com o DSM-IV, a categoria Z71.8 (Problema Religioso ou Espiritual) deve ser usada quando o foco de atenção é um problema envolvendo esta esfera da subjetividade humana. Assim, o código V permite a identificação explícita de um foco religioso ou espiritual não patológico no tratamento. O código V aumenta a conscientização do clínico sobre o domínio religioso e espiritual do funcionamento dos pacientes. Mencionei que não se tratava da CID-10 e sim do DSM, porém na CID-10 também se usa o código de diagnóstico CID-9-CM V62.89, que significa outro estresse psicológico ou físico, não classificado em outros itens.  Portanto, cada diagnóstico de saúde mental tem um código correspondente da Classificação Internacional de Doenças (CID) desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  A versão mais recente do código – CID-10, foi lançada em outubro de 2015. Por outro lado, a versão atual do DSM, o DSM-5,foi  oficialmente publicada em  maio de 2013 (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2014). 

Helena destacou que essa situação descrita no caso estudado envolve a alteridade na relação médico-paciente, em que o “Outro” é um ser absolutamente distinto do “eu”. A título de esclarecimento, alteridade é um termo filosófico, e é diferente de empatia, que é uma virtude importante que liga e desencadeia uma ponte afetiva entre o profissional de saúde e o paciente, que dá lugar a um sentimento de aceitação, fazendo com que o indivíduo necessitado de tratamento se sinta mais à vontade para expressar suas necessidades. A alteridade, por outro lado, representa o estado ou qualidade de ser outro, de ser de outra forma, de ser diferente e, portanto, é um conceito usado estritamente no sentido do outro em uma relação de dois. Na tradição fenomenológica é geralmente alteridade é um conceito entendido como a entidade em contraste com a qual uma identidade é construída, e implica a capacidade de distinguir entre eu e não-eu e, consequentemente, assumir a existência de um ponto de vista alternativo. Assumir isso implica em aceitar a condição da existência de outras opiniões, culturas, saberes, crenças, aparências e formas de ser. A constituição do sujeito (subjetividade) ocorre no âmbito da alteridade, pois o sujeito (eu) está em relação com o outro (alter). A influência do olhar alheio sobre o eu é um constituinte relevante da subjetividade e é controlada pelo inconsciente, que recebe informações externas e determina a forma pela qual é possível responder ao outro. 

No caso relatado, Helena acrescentou ainda que um gatilho pode ter sido disparado em um quadro que poderia ser de natureza psicótica. No contexto da doença mental, "gatilho", ou estressor, é um termo frequentemente usado para significar algo que provoca ou piora os sintomas. Trata-se de uma ação ou situação que pode levar a uma reação emocional adversa, como um evento de vida negativo, como luto, estresse agudo, trauma entre outros.

A título de esclarecimento, a palavra psicose é usada para descrever condições que afetam a mente, onde houve perda de contato com a realidade, e assim, os pensamentos e percepções de uma pessoa são perturbados, havendo dificuldade em entender o que é real e o que não é. Um episódio psicótico agudo pode ser único, muitas vezes de início súbito, recorrente, ou sinalizar o início de uma psicose crônica. Azevedo falou de um transtorno mental menor, como a ansiedade associada ao abandono pelo namorado da universidade.

A título de esclarecimento nosológico, salienta-se que os transtornos mentais se dividem em duas categorias: transtornos psicóticos e transtornos não psicóticos. Transtornos psicóticos, como esquizofrenia e transtorno bipolar, podem causar delírios, alucinações e outros sintomas de psicose. Os transtornos não psicóticos, que costumavam ser chamados de neuroses, incluem transtornos depressivos e transtornos de ansiedade, como fobias, ataques de pânico e transtorno obsessivo-compulsivo. Os transtornos mentais não psicóticos costumam ser menos graves do que os psicóticos.

Abraão falou da sequência do relato do caso, que não se apresentou com ordenação cronológica em relação a determinado evento, então ele percebeu que a continuidade da descrição da história perdeu a linearidade. Isso confundiu o entendimento das crises que ocorreram com a paciente.

Rafael falou também sobre gatilho estressor que pode ter desencadeado as crises da paciente, e lembrou do filme de terror “O Exorcismo de Emily Rose”, baseado na história da vida real de Anneliese Michel, uma jovem alemã que se acreditava estar possuída por forças sobrenaturais e passou por vários exorcismos para tentar se livrar da possessão demoníaca. Criada por uma família devotamente católica, ela começou a ter convulsões aos 16 anos e recebeu o diagnóstico de epilepsia do lobo temporal, passando a  tomar vários medicamentos para controlar as convulsões. No entanto, seu comportamento cada vez mais errático, e sua família começou a procurar ajuda fora do campo médico-científico. Eu diria que ela teve um transtorno mental que piorou com o tempo. As pessoas naquela época (meados da década de 1970) não sabiam muito sobre doenças mentais e aquela família era altamente religiosa, então se chegou à ideia da possessão, com envolvimento de sacerdotes católicos que, de certa forma, legitimaram a natureza sobrenatural do quadro. As pessoas encontram refúgio em sua crença e fé, e na história do filme, a religião explicava as alucinações. Foram realizados quase 70 exorcismos em Anneliese, Os exorcismos são rituais que são realizados desde os tempos bíblicos para expulsar espíritos malignos de pessoas ou lugares.

Ciência e religião têm sido consideradas em polos opostos por séculos. Alguém poderia pensar que as crenças de um paciente não deveriam interromper ou prejudicar um diagnóstico médico adequado. No entanto, crenças dos pacientes e suas famílias com transtorno neurológico ou psiquiátrico podem afastá-lo da realidade, resultando em consequências fatais.

Flávia falou do transtorno mental como foco principal do caso relatado e o atraso na gravidez também como um gatilho, um evento estressante vital. Antônio Alberto falou que nessa situação, a consulta com um psicólogo sobre a gravidez e sobre os problemas comportamentais e psíquicos apresentados, sob sigilo profissional, se ela não quisesse, naquele momento, que outras pessoas soubessem de sua gravidez, sobretudo sua família, pois sua família tinha crenças arraigadas e conservadoras sobre o comportamento sexual das mulheres, o que representava um tabu para a própria paciente. 

Isabelle falou de um caso ocorrido na comunidade em que uma mulher apresentou alucinações visuais  e auditivas logo após o seu casamento, quando foi morar no sítio, longe de sua família. Ela começou a ouvir ruídos estranhos e vultos de figuras, enquanto o marido não tinha essas experiências sensoriais no início, mas que também passou a ter as mesmas alucinações posteriormente. A cerimônia do casamento é um dos antigos ritos de passagem, remanescente na sociedade contemporânea, apesar do crescente número de uniões livres, em que o vínculo conjugal se forma sem a intervenção da Igreja ou do Estado. Este ritual parece sobreviver na atualidade e envolver psicologicamente os noivos e suas famílias de origem, marcando transição individual, familiar e social. Na perspectiva do ciclo de vida familiar, as mudanças assinaladas pelos ritos de passagem, incluindo o casamento, não afetam apenas o indivíduo o qual se submete ao rito, mas sua família inteira, provocando um aumento do estresse familiar nestes períodos.

Gabriel lembrou que no caso da paciente do caso relatado, ela foi ao terreiro de candomblé e não ao médico, e não deve ter sido uma sobreposição de terapêuticas (oficial e tradicional), mas poderiam ser associadas. José Felipe concordou e destacou que a fé auxilia no processo de recuperação.

José Felipe continuou comentando que as  manifestações psíquicas e as preocupações da paciente, aflita por uma situação que não conseguia solucionar, estão imersas na sua subjetividade, que é difícil de compreender por profissionais que seguem o modelo biomédico.  Ele salientou também que há comportamentos que fogem ao padrão visto nos livros de medicina. José Felipe ainda mencionou que os critérios diagnósticos do DSM não são  suficientes para explicar a negação da paciente para a busca de assistência médica. 

Bianca comentou que é importante olhar para além do paciente e perceber seu contexto familiar e social. Ela lembrou de um caso ocorrido na comunidade em uma família onde uma adolescente sempre se sentiu desajeitada sob a exigência de que sua postura fosse diferente. No início do  início do nível médio ela teve um surto, como se tivesse havido uma “virada de chave” muito rápida, enquanto ela também sofria de bullying na escola. Carlos concordou que é sempre preciso considerar o contexto familiar.

Jerrimarque salientou a influência do modelo predominantemente biomédico que foca na doença e segue protocolos e que não considera questões subjetivas. Helena voltou a falar sobre a psicossomatização sob estresse e traumas psicoemocionais, com supervalorização dos sintomas físicos e a falha do modelo biomédico em dar conta dessas questões. Jerimarque  ainda mencionou que no texto recomendado para leitura, refere-se a uma crítica ao capitalismo e seus reflexos na medicina. O principal autor do capítulo do livro (GONZÁLEZ-REY, 2015)foi um psicólogo cubano de espectro ideológico à Esquerda, e era essencial que considerasse a  questão econômica de classes.  Se a sociedade deixa as pessoas doentes, a solução óbvia seria lidar com as doenças da saúde precária no nível social. Mas o que tende a acontecer é que  muitas vezes faz com que os recursos financeiros sejam usados para lidar com as consequências. Se os procedimentos para lidar com as consequências são eles mesmos uma fonte de lucro, então a tentação será desviar a discussão das causas e soluções sociais para um padrão autoperpetuante focado em tecnologias médicas, drogas, terapias e afins. Jerrimarque colocou o contraponto de que o Capitalismo também tem reflexos benéficos nessa conjuntura, pois impulsiona a inovação, a tecnologia e o avanço científico. Assim, é importante pensar em termos de equilíbrio, sem considerar o Capitalismo como o grande e eterno “vilão” das sociedades, nem que tudo se reduza à luta de classes.

Gabriel considerou que nessa situação, o médico fica refém da tecnologia e o texto lido mostra que os avanços biotecnológicos estão passando pelo que todas as outras disciplinas científicas emergentes experimentam, que são os  desafios de definir seus limites éticos. O custo crescente dos cuidados de saúde – e o custo dos medicamentos em particular – é um problema crescente.

Gabriela fez sua contribuição à discussão, mas eu não consegui registrar. Após esta participação não foi capturada a tempo. A partir desta fala, Sérgio voltou a participar resgatando a questão da competência cultural na superação da medicalização, e que uma abordagem centrada na pessoa e a adoção de um atendimento holístico.

Passou-se, então, à discussão do caso 2, que será descrito em seguida.

Relato resumido do Caso 2

Paciente do sexo masculino, 50 anos, foi admitido no pronto-socorro com dor de cabeça, náuseas e dormência do braço esquerdo nas últimas horas. O neurologista realizou um exame físico completo e não encontrou discrepâncias no seu estado neurológico, mas o paciente insistiu que ele estava tendo uma dor de cabeça como se a sua cabeça fosse “explodir” e que seu braço esquerdo estava completamente dormente. Para excluir a possibilidade de uma condição grave, o neurologista indicou uma tomografia computadorizada (TC) do cérebro que foi realizada em pouco tempo. O radiologista não encontrou alterações patológicas na TC. Após leitura detalhada do prontuário deste paciente, percebeu-se que ao longo dos 15 meses anteriores esse paciente já havia sido admitido com muitas diferentes condições no mesmo hospital. Ele tinha sido admitido com uma forte dor no peito e falta de ar 15 meses antes, com ECG e exames de sangue excluindo infarto do miocárdio naquele momento. Na ocasião, o paciente começou a vomitar e sua dor no peito piorou, realizando-se uma angiografia pulmonar de urgência, para excluir a possibilidade de embolia pulmonar, descartada pelo pneumologista. O paciente estava se sentindo bem no dia seguinte e recebeu alta do hospital dois dias depois. Dois meses depois, o mesmo paciente foi encaminhado pelo seu médico com sintomas de dor no pescoço, rigidez do pescoço e vertigem. Ele foi novamente enviado para o neurologista, que pediu uma TC da coluna cervical, que mostrou alterações espondilodegenerativas leves, mas ausência de alteração discal grave. Três meses depois, esse paciente foi internado no setor de emergência por uma perda de visão no seu olho direito que durou algumas horas. O oftalmologista não encontrou alterações no exame. Não havia anormalidades oculares em exames anteriores. 

Aberta a discussão do segundo relato de caso, Manoel falou do efeito placebo, que pode ocorrer em pacientes sugestionáveis, e que muitos deles se sentem melhor na consulta com o médico em quem confiam. O efeito placebo pode ser definido como qualquer melhora de sintomas e doenças, ou sobretudo a redução de sintomas subjetivos resultantes de intervenções e medicamentos inertes farmacologicamente. O psicanalista francês Michel Balint, que tem importantes contribuições à medicina e ao campo da saúde, também é conhecido pela criação de uma máxima a respeito da prática médica: “O remédio mais usado em medicina é o próprio médico, o qual, como os demais medicamentos, precisa ser conhecido em sua posologia, reações colaterais e toxicidade” (BALINT, 2007).

Ainda a título de esclarecimento nosológico, de acordo com o DSM-V, a característica central da hipocondria é a preocupação com o medo de ter uma doença médica grave baseado em interpretações errôneas de sensações corporais benignas (ou menores), enfatizando uma "convicção de doença" que persiste apesar de avaliação médica adequada e garantia de boa saúde. O DSM-5 redefiniu a hipocondria, que passou a ser denominada de transtorno somatoforme. Talvez o sinal mais facilmente observável seja a tentativa persistente de buscar informações e garantias sobre os temidos sintomas ou doenças. Indivíduos com esta condição podem entrar em contato com médicos e serviços de saúde - o que, no caso relatado, foi um serviço hospitalar de urgência - repetidamente. Historicamente, a hipocondria tem sido considerada resistente a tratamento psicológico. Para hipocondríacos, o efeito nocebo pode até surgir, o que é o oposto do efeito placebo. Como a hipocondria faz as pessoas se preocuparem tanto com a doença, um nocebo não o torna melhor porque ele não acredita que o fará.

Frequentemente dispensados ​​pelos médicos, os hipocondríacos são atormentados por sintomas indescritíveis que sugerem uma doença. Eles vão ao médico para obter um diagnóstico e não aceitam que não tenham alterações ditas reais. Às vezes eles conseguem obter um rótulo - geralmente o errado - e às vezes são prejudicados por exames e tratamentos desnecessários e invasivos. Os hipocondríacos são geralmente considerados simuladores, mas nada poderia estar mais longe da verdade. Os hipocondríacos não produzem voluntária ou conscientemente seus sintomas físicos; eles acreditam fervorosamente que estão fisicamente doentes e ficam frustrados quando dizem que não estão. Embora não seja encontrado substrato orgânico para os sintomas do paciente, as queixas dele, em essência, existiam; ele estava doente e se sentia mal.

A terapia cognitivo-comportamental e o controle do estresse são os pilares do tratamento da hipocondria ou transtorno somatoforme. Da mesma forma, participar de técnicas de atenção plena, como meditação, pode ajudar os pacientes a controlar os sintomas. 

Além disso, Fernandes acrescentou que o uso de práticas integrativas e complementares em saúde (PICS) podem ser empregadas para a hipocondria. Por outro lado, consultas regulares com um profissional de saúde que usa PICS podem ajudar a aliviar os medos relacionados à saúde devido à regularidade das visitas, à garantia de um profissional e ao foco no bem-estar e nos comportamentos saudáveis. 

Ao mencionar que parece existir preconceito de muitos médicos em relação às PICS, Abraão perguntou por que existem tais preconceitos, chamando atenção de que existem riscos para os pacientes que têm doenças graves e retardam o tratamento convencional. A título de esclarecimento, a medicina complementar e alternativa está sendo cada vez mais usada por médicos de cuidados primários no Brasil, tendo sido incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), embora este uso não tenha sido estudado em detalhes e as barreiras no caminho de seu uso pelos médicos não tenham sido exploradas. A título de esclarecimento, o termo PICS envolve o uso de plantas medicinais (fitoterapia), homeopatia, medicina tradicional chinesa (acupuntura), medicina antroposófica e termalismo-crenoterapia. A medicina complementar e alternativa é um termo abrangente que descreve uma série de sistemas de saúde, modalidades e práticas que geralmente não são consideradas parte da medicina convencional. Como forma de cuidado espiritual e pastoral, os serviços de capelania também são considerados uma modalidade de medicina complementar e alternativa. É nesse sentido que as atitudes dos profissionais de saúde e o conhecimento sobre PICS podem afetar a opção de uma abordagem de saúde multidisciplinar, integradora e holística.

Contudo, o uso de PICS entre pacientes com câncer é generalizado e parece estar aumentando. Nem sempre fica claro se os pacientes usam essas terapias como uma “alternativa” ao tratamento oncológico padrão ou como adjuvante ao tratamento convencional que recebem. Abraão citou o exemplo do conhecido empresário e magnata americano Steve Jobs, que buscou atenção médica convencional tardiamente no caso do câncer de pâncreas que foi a causa de sua morte. O “pensamento mágico” de Jobs pode ter definido seu brilhantismo nos negócios, mas pode ter sido sua queda na luta contra o câncer. Steve Jobs acabou se arrependendo da decisão que havia tomado anos antes de rejeitar a cirurgia potencialmente salvadora de sua vida em favor de tratamentos alternativos como acupuntura, suplementos dietéticos e sucos. Embora ele tenha finalmente aceito a cirurgia e buscado métodos experimentais de ponta, eles não foram suficientes para salvá-lo.

Manoel falou das diretrizes médicas também, e que estas podem induzir a erro, exemplificando o uso dos antiarrítmicos a medicina baseada em evidências e mostra que medicamentos antiarrítmicos em longo prazo podem ser arritmogênicos, pois evidências científicas revelaram que arritmias potencialmente fatais são induzidas por drogas antiarrítmicas. 

João Victor mencionou que as pessoas não procuram as PICS porque confiam, então é importante que em casos mais graves para pessoas que em outras situações de adoecimento, acreditaram em terapias alternativas e responderam bem, podem insistir em usar PICS no caso que é mais grave. João Max concordou e disse ser preciso lembrar que essa credibilidade para casos de outros problemas no futuro precisa ser considerada como potencialmente deletéria, e portanto, é necessário manter o equilíbrio e a racionalidade, na medida do possível. 

Rafael destacou que nos dois casos apresentados não houve acolhimento dos pacientes, escuta atenta ou continuidade do cuidado. Thiago concluiu que  manter o meio termo também se aplica a não supervalorizar sintomas de pacientes com hipocondria, mas também, em casos agudos e de urgência, é importante descartar a gravidade da situação clínica.

É importante salientar que não existe uma resposta correta para as questões colocadas, que é importante é  reflexão feita sobre os casos clínicos apresentados, a partir da leitura do ensaio teórico proposto aos alunos.

Concluindo, constatei que os alunos contemplaram os objetivos e os pontos-chave da discussão. Eles compararam e contrastaram pontos de vista alternativos que surgiram durante a discussão e encontraram pontos para levar como conhecimento e que podem ser aplicados a situações futuras.

 

Referências citadas no presente texto de devolutiva

Associação Americana de Psiquiatria. (2014). Manual diagnóstico e estatísticos de transtornos mentais :DSM-5 (5a ed.; MIC Nascimento, Trad.). Porto Alegre, RS: Artmed

Balint  M. O médico, seu paciente e a doença. Tradução de Roberto de Oliveira Musachio. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2007.


Gonzaléz Rey F, Bizerril. J. Saúde, cultura e subjetividade: uma referência interdisciplinar Brasília: UniCEUB, 2015, capítulo 1. 

4 de agosto de 2022

CUIDADO INTERDISCIPLINAR EM CASO COMPLEXO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

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O Projeto Terapêutico Singular (PTS) é um instrumento de cuidado baseado na singularidade do sujeito que visa à integralidade do atendimento e a autonomia do sujeito frente a uma situação de saúde com corresponsabilização e reintegração social. Para pacientes cuja situação envolve múltiplos fatores complexos, o PTS organiza o cuidado, trazendo o usuário do serviço de saúde e a sua família para a discussão. Registrou-se, neste vídeo, um colóquio com mestrandos de saúde da família do PROFSAUDE/polo UFPB, em que eles discutem, de forma interdisciplinar, um caso complexo de violência sexual infantil e estabelecem metas de avaliação para o PTS construído coletivamente. O caso complexo em questão não é real, e foi elaborado por Flávia do Bonsucesso Teixeira na UFCSPA/UNA-SUS, enfocando a história de Natália, uma adolescente de 14 anos, sobrevivente de violência sexual.


5 de novembro de 2019

Semio-Quiz: Erupção cutânea dolorosa e ulcerações nas extremidades

Figura 1

Paciente do sexo feminino, 59 anos, branca, apresentou erupção cutânea pruriginosa e dolorosa nos cotovelos, sobrepondo-se aos seus nódulos reumatoides. Seus antecedentes patológicos são de artrite reumatoide soropositiva agressiva (AR) , diabetes mellitus tipo 2 mal controlado, hipotireoidismo e fibromialgia. Faz uso de leflunomida e prednisona. No entanto, ela frequentemente descontinuava os medicamentos e não comparecia às consultas agendadas. Múltiplas outras drogas antirreumáticas modificadoras de doenças foram tentadas antes da combinação atual. Esses medicamentos incluíram metotrexato, hidroxicloroquina, sulfassalazina, adalimumabe e infliximabe. A erupção cobriu seus nódulos reumatoides nos cotovelos e antebraços, e piorou, aumentando em tamanho e gravidade, envolvendo as extremidades inferiores desde que ela interrompeu o uso de etanercepte. Fumou um maço de cigarros por dia durante vários anos e abusava de várias substâncias psicoativas.
Ao exame físico, a paciente apresentava múltiplos nódulos em um padrão linear envolvendo as extremidades superiores, inclusive cotovelos, antebraços e articulações metacarpofalangianas múltiplas de ambas as mãos (Figura 1, acima)
Nenhuma placa ou erupção cutânea petequial foi observada.
Nos dois anos seguintes, vários nódulos associados à AR apareceram, juntamente com uma piora na erupção cutânea (Figura 2).

Figura 2

Ela permaneceu inconformada com o regime de drogas. Novas ulcerações nas extremidades inferiores apareceram ao longo do tempo, que foram gerenciadas por cirurgiões vasculares, os quais encontraram evidências de gangrena seca. Pequenas ulcerações também estavam presentes na ponta dos dedos (Figura 3).
Figura 3

Qual dos seguintes é o diagnóstico mais provável?
- Vasculite induzida por drogas
- Estado de hipercoagulabilidade com trombose da pele
- Celulite
- Vasculite reumatoide
- Dermatite de estase
- Embolia séptica

Fonte: 
Mank VMF, Roberts JR. A 59-Year-Old Woman With a Painful Rash and Fingertip Ulcerations. Medscape, 11 de out de 2019. Disponível em: https://reference.medscape.com/viewarticle/919631?src=wnl_casechlg_191105_mscpref_reader&uac=258527DG&impID=2151393&faf=1
Tradução nossa.

22 de agosto de 2016

Primeira Anamnese: Ótimo Começo II

Primeira anamnese realizada por Matheus Souza, aluno do quarto período do curso de Medicina da UFPB no Módulo de Semiologia Médica

IDENTIFICAÇÃO
        Homem, 36 anos, masculino, branco, em união estável, agricultor, natural de... e procedente de..., usuário apenas do Sistema Único de Saúde.

          QUEIXA PRINCIPAL
Tossindo muito há nove dias.

          HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL
Paciente refere tosse crônica produtiva com expectoração espessa, purulenta, fétida e sem sangue há cerca de 10 anos, que se iniciou sem motivo aparente e tem tido curso recorrente com intervalos de melhora indefinidos. Esta tosse vinha acompanhada de dispneia com "chieira", cujo som parecia com o "choro de rato novo", cefaleia, dor torácica em aperto e de intensidade 6 (1 a 10) em ambos hemitórax e que não irradia, além de febre súbita e de curta duração. Há dois meses, o paciente foi medicado para tuberculose, e ele declarou tomar uma dose de quatro comprimidos ao dia às 7 horas da manhã, porém não soube especificar os nomes dos medicamentos. No entanto, ele relata não ter obtido melhora. Há nove dias houve agravamento repentino, levando-o ao internamento, que se estende há sete dias no Hospital Universitário.
O paciente declara que a tosse surge e piora com o esforço físico e com decúbito lateral, seja esquerdo ou direito. Ocorre melhora parcial da tosse quando se deita em decúbito dorsal e quando toma Ambroxmel. Para a dor, o paciente tem se automedicado com dipirona, paracetamol e Buscopan durante momentos de crise, relatando melhora parcial. O paciente não soube referir as doses.
Realizou hemograma, exame da creatinina e ureia, teste de VDRL, exame de urina e de fezes, exames de ferro e de função hepática, pesquisa de BAAR em exame de escarro e raios-X do tórax após a atual internação. Todos estes exames foram inalterados ou negativos, com exceção dos raios-X, que mostrou infiltrado parenquimatoso intersticial e alveolar, comprometendo os campos pulmonares inferiores, um pouco mais acentuado a direita, além de lesão cavitária no lobo superior esquerdo, sugerindo pneumopatia inflamatória infecciosa específica (tuberculose) [mostrou laudo].
O paciente afirma que a tosse apresenta melhora, mas precisou se afastar de seu trabalho e tem anorexia intensa, relatando, então, perda de 26 kg no último ano, astenia e fraqueza nas pernas.


INTERROGATÓRIO SISTEMÁTICO
Sintomas gerais: refere perda de 26 kg em 1 ano, febre, calafrios, astenia, sudorese e anorexia.
Pele e fâneros: refere sensibilidade à exposição solar. Mas nega prurido, lesão cutânea, alopecia, alterações da pele, anormalidades nos pelos e na aparência ungueal.
Cabeça e pescoço: dor de cabeça temporofrontal durante crise de tosse, cervicalgia, nega movimento limitado do pescoço, pulsações anormais e tumorações cervicais.
Olhos: nega alterações oculares, incluindo: dor ocular, alteração na acuidade visual, diplopia, fotofobia, lacrimejamento, secreção conjuntival, prurido, inchaço, ardência, hiperemia ocular, escotomas visuais, visão turva, sensação de olho seco, sensação de corpo estranho, alucinações visuais, nistagmo, fotopsias.
Ouvidos: nega otalgia, otorreia, otorragia, transtorno na acuidade auditiva, zumbido, uso de aparelho auditivo, exposição a ruídos ambientais excessivos, má higiene.
Nariz e seios da face:  refere dor na região nasomaxilar, rinorreia aquosa e rinolalia. Mas nega prurido nasal, espirros, obstrução nasal, alterações de olfato, cacosmia, parosmia, epistaxe e gota pós-nasal.
Cavidade oral: refere odontalgia recorrente. Mas nega sialose, halitose, dor na glândula salivar, glossalgia, dor na articulação temporomandibular, trismo, ulcerações ou sangramentos, xerostomia.
Garganta: refere pigarro e ronco. Mas nega dor de garganta, odinofagia, disfagia alta e alterações na voz.
 Mamas: nega mastalgia, nódulos, ginecomastia, secreção mamilar.
Respiratório: refere dor torácica em aperto em ambos hemitórax que não irradia relacionada a uma tosse produtiva de alta frequência e intensidade, chieira bilateral com sibilância durante dispneia, expectoração mucopurulenta verde e espessa, dispneia súbita ao esforço físico e ao deitar de lado, vômica, mas nega hemoptise.
Cardiovascular: refere dispneia de pequenos esforços, dispneia paroxística noturna. Mas nega dor cardiovascular, precordialgia, palpitação, síncope, cianose, edema, claudicação intermitente, veias varicosas e úlceras na perna.
Digestório: refere epigastralgia, pirose e eructação pós-alimentar, soluços isolados. Nega dor retroesternal, disfagia baixa e regurgitação. Nega dor abdominal, hérnias e tumorações, alterações do hábito intestinal e aspecto das fezes, náusea, êmese, hematêmese, dispepsia, icterícia, diarreia, esteatorreia, distensão abdominal, flatulência, melena, hematoquezia, tenesmo evacuatório, obstipação intestinal, sangramento anal e prurido anal.
Rins e vias urinárias: nega dor lombar, vesical ou perineal, estrangúria, incontinência, modificação do jato urinário, eliminação de cálculos durante a micção, gotejamento terminal, urina com mal cheiro, alterações de cor, aspecto, volume e ritmo urinário.
Genital: nega dor, lesão, nódulo testicular, priapismo, hemospermia, corrimento uretral, disfunção erétil, ejaculação precoce, ausência de ejaculação, anorgasmia, diminuição de libido, ausência de uso de preservativos e exames recentes de próstata ou PSA.
Sistema hematopoietico: nega palidez e hemorragias.
Endócrino: nega dor, nódulo, bócio, alterações morfológicas, aumento de peso, fácies anormais, acúmulo de gordura localizada,  hiperpigmentação.
Coluna, ossos articulações e extremidades: refere dor lombossacral, rigidez pós-repouso e crepitação articular no ombro esquerdo. Nega artralgias, dor em tendão ou bursa, deformidades ósseas, sinais inflamatórios e limitação de movimento.
Músculos: refere fraqueza muscular, dificuldade para andar ou subir escadas e espasmos musculares. Nega atrofia muscular e câimbras.
Sistema nervoso: refere tontura e leve tremor nas pernas ao esforço. Nega obnubilação, coma, vertigem, convulsão, epilepsia, ausências, amnésia, distúrbios de marcha, sono, motricidade, sensibilidade ou de qualquer função cerebral superior.
Psiquismo: nega distúrbios de consciência, níveis de atenção, orientação, pensamento memória comportamentais, alteração na vontade e humor, choro constante.

ANTECEDENTES PESSOAIS FISIOLÓGICOS
Condições de gestação e nascimento: a gestação foi acompanhada de pré-natal e não teve viroses, o parto foi transvaginal, eutócico e a termo, com assistência obstétrica. O paciente nasceu normal, e é o mais novo de 5 irmãos.
-Desenvolvimento neuropsicomotor: não referiu alterações ou anormalidades no desenvolvimento de sua dentição, nem no desenvolvimento de suas habilidades neuropsicomotoras.
Imunizações: o paciente não recorda suas imunizações da infância, mas refere ter feito muitas imunizações durante  sua vida, porém não soube especificar quais.
-Desenvolvimento sexual e reprodutivo: paciente relata início da puberdade aos 13 anos e primeira relação sexual aos 16 anos, é heterossexual e refere vida sexual ativa apenas com a parceira, com uso ocasional da camisinha.

     ANTECEDENTES PESSOAIS PATOLÓGICOS
Doenças da infância: paciente refere ter tido sarampo e caxumba e não soube referir as outras.
Doenças na vida adulta: o paciente nega histórico de hepatite, malária, tuberculose, hipertensão arterial, diabetes, asma, doenças sexualmente transmissíveis, cardiopatia, artrose, osteoporose, litíase renal, gota, acidente vascular encefálico e epilepsia.
Antecedentes alérgicos: o paciente nega qualquer tipo de alergia.
Antecedentes cirúrgicos: o paciente nega qualquer tipo de cirurgia.
Antecedentes traumáticos: o paciente nega qualquer tipo de traumatismo.
Hospitalizações anteriores: nega qualquer internação anterior.
Hemotransfusões: paciente nega qualquer tipo de transfusão.
- Drogas ilícitas, anabolizantes ou anfetaminas: paciente nega uso de qualquer dessas drogas.
Medicamento de uso contínuo: o paciente tem usado Buscopan, dipirona, paracetamol para alívio da dor e Ambroxmel para alívio dos sintomas relacionados à tosse. Ele afirma ter comprado sem recomendação médica.

     ANTECEDENTES FAMILIARES
Mãe: morreu devido a alguma cardiopatia aos 76 anos.
- Pai: morreu devido a acidente vascular encefálico aos 84 anos.
Irmão: morreu devido a alguma cardiopatia com 43 anos de idade.
Tia: uma de suas tias é hipertensa.
Cônjuge: 35 anos, saudável sem doenças aparentes.
-Outros antecedentes: família há casos de enxaqueca, hipertensão arterial,doenças arteriais coronarianas, acidente vascular encefálico, úlceras, colelitíase. Porém não há casos de diabetes, tuberculose, câncer, alergias e dislipidemias. Paciente refere não ter problemas do lar e afirma ter casos de alcoolismo na família.

      ANTECEDENTES SOCIAIS
Condições de habitação e higiene: mora em casa de tijolo em zona rural, com 3 quartos, com saneamento básico, esgoto e água encanada, trata a água que consome e costuma botar fogo no lixo.
Condições de alimentação: paciente relata rica dieta sem aparente insuficiência de carboidratos, proteínas, gorduras e vitaminas, que porém, tem sido reduzida ao longo do agravamento da doença. Refere ingerir cerca de uma ou mais garrafas de água por dia. Sua acompanhante declara se preocupar em moderar o sal em sua comida.
- Nível de instrução: primeiro grau incompleto.
História ocupacional: agricultor, trabalha no roçado, 8 horas por dia, sente-se sobrecarregado fisicamente ao fim do dia, mas não se sente pressionado ou estressado.
Religião: católico.
Fonte e renda familiar mensal: a fonte de renda vem do auxílio doença há 10 anos e do bolsa família, somando uma renda de 700 reais ao mês.
Relações interpessoais: paciente refere haver brigas na família em relação a herança. Declara que não tem muitos amigos, mas não se sente isolado nem sozinho.
Problemas psicossociais: o paciente refere que está feliz devido ao fato de não trabalhar e dedicar a vida ao lazer. Declara-se conformado pela morte do pai e do irmão. Tem boas expectativas sobre sua alta e melhora da doença.
Tabagismo: refere nunca ter fumado.
Consumo de álcool: refere tomar 1 garrafa por dia atualmente e ter bebido a primeira vez aos 12 anos de idade.
Hábitos relacionados a parasitoses: refere banho de rio, açude e lagoa quando lavava cavalos há muito tempo atrás e contato com cães. Nega ter tido contato com triatomíneo.
Atividade física: nega qualquer tipo de atividade física desde quando a tosse e dor torácica se agravaram.
Sono: costuma dormir 8 horas por dia e em dias de "fraqueza" costuma dormir o dia quase todo.
Entretenimento: o paciente refere que seu lazer consiste em beber.
Viagem para zonas endêmicas: só viajou para esta cidade por causa da busca de tratamento.


HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS BASEADAS NA ANAMNESE
- Topográfica: Sistema respiratório
- Sindrômica: Síndrome respiratória - Infecciosa, cavitária, supurativa
- Etiológica: Tuberculose; abscesso pulmonar; pneumoconiose; bronquiectasia
- Secundários: Síndrome consumptiva


EXAMES COMPLEMENTARES - Raios-X do tórax em PA e broncoscopia.

- Diagnóstico definitivo: Aspergiloma pulmonar (colonização intrapulmonar pulmonar aspergilar)


O paciente assinou Termo de Consentimento Livre e Esclarecido permitindo a publicação de sua anamnese e exames.