4 de setembro de 2022

COMPETÊNCIA CULTURAL NO CONTEXTO DA SAÚDE

O objetivo desta sala de aula invertida foi reconhecer a importância da competência cultural nos cuidados de saúde, compreendendo os seus componentes e partilhando exemplos, com base na leitura de um texto abordando o tema da competência cultural no contexto da saúde

A competência cultural ganha cada vez mais destaque na discussão sobre a qualidade dos cuidados de saúde no Brasil, que tem uma população diversificada, demandando uma gama de necessidades de saúde em rápida evolução, sistemas de crenças, valores e identidades culturais. A competência cultural é um componente crítico da prática da medicina porque garante o respeito pelo paciente e sua família. Compreender os valores, crenças e antecedentes de um paciente pode abrir uma porta para uma melhor comunicação e construir a base de um forte relacionamento médico-paciente, que leva a melhores resultados de saúde. Portanto, é necessário que o profissional de saúde compreenda que o conhecimento dos fatores socioculturais que afetam as interações e comportamentos é fundamental na sua prática. Ao mostrar compreensão e  respeito pelas múltiplas dimensões da diversidade, o profissional de saúde pode reconhecer e atuar considerando perspectivas diversas e concorrentes como um recurso para aprendizagem, cidadania e trabalho. Ao desenvolver a competência cultural, ele pode reconhecer e abordar adequadamente o preconceito em si e nos outros, e aprender a interagir efetivamente com pessoas de diversas origens.

Nesse encontro com a turma 111 de graduação em Medicina da Universidade Federal da Paraíba, no módulo de “Diversidade Étnica e Cultural na Medicina” empregando a técnica da sala de aula invertida. Os alunos leram um texto recomendado (GOUVEIA et al., 2019) antes do dia da sala de aula para se preparar para uma experiência de aprendizado ativa na sala de aula. O conceito central apresentado no artigo fora da sala de aula, e peça aos alunos que reflitam sobre o tema individualmente e, em seguida, discutiu-se mais detalhadamente com os colegas na classe.

A discussão na sala de aula começou com a menção ao problema da competência cultural anular a própria cultura, destaque colocado por Sergio, que ainda  comentou que, na realidade, parecia impossível pôr em prática todos os requisitos de competência cultural considerados no texto estudado. Foi levantado o exemplo da mutilação genital feminina, que envolve a remoção parcial ou total da genitália externa ou outra lesão nos órgãos genitais femininos por razões não clínicas. Trata-se de uma prática que não traz benefícios para a saúde de meninas e mulheres, o que constitui uma violação dos seus direitos humanos. Foi salientado, na discussão, que essa prática também viola os direitos de uma pessoa à saúde, segurança e integridade física, constituindo uma tortura e tratamento cruel, desumano ou degradante. Então, qual seria o papel de um médico diante dessa prática de mutilação na comunidade que ele assiste. Como deveria ser fortalecida a resposta do setor de saúde em uma situação de desrespeito aos direitos humanos como essa? É uma pergunta que não tem uma resposta fácil. É uma prática que faz parte da cultura de um povo, contudo se há comprometimento de direitos humanos dessas meninas, é importante que órgãos como a Organização Mundial da Saúde desenvolvesse e implementasse diretrizes, ferramentas, treinamento e políticas para garantir que os profissionais de saúde possam fornecer assistência médica e aconselhamento a meninas e mulheres que enfrentam essa prática mutilante.  

Isabelle lembrou de experiências relacionadas a essa prática de mutilação das meninas e que foram partilhadas por uma amiga sua que trabalhava na organização internacional dos Médicos sem Fronteiras.

Abraão discordou de Sérgio, no sentido de que esses são exemplos extremos, e não são instrutivos, considerando que é preciso muito tato quando uma prática cultural arraigada em um povo afeta diretamente à saúde, e que nesse caso, o profissional precisa intervir. Ele continuou afirmando que geralmente espera-se demais do médico, que às vezes demora uma vida inteira para compreender uma cultura. Prosseguindo em sua contribuição para a discussão, levantou a questão de quando a cultura é um problema, ou seja, quando a cultura impacta a saúde de uma coletividade… Então, o que se pode fazer, do ponto de vista do profissional da saúde?

É reconhecido o fato de que os comportamentos culturais têm implicações importantes para a saúde humana. A cultura, um sistema socialmente transmitido de conhecimento compartilhado, crenças e/ou práticas que variam entre grupos e indivíduos dentro desses grupos. As pessoas de uma determinada cultura têm um desejo inato de se conformar às normas e valores socialmente aceitos do seu grupo. Com o passar do tempo, algumas dessas normas tornam-se padrões aos quais todos os membros da comunidade devem aderir. O desvio desses padrões é visto como absurdo, errado ou francamente anormal. No entanto, muitos desses costumes culturais promovem comportamentos com consequências negativas para a saúde.

No caso em questão na discussão, a mutilação genital de meninas em determinadas culturas, tal prática tem despertado preocupação mundial devido às suas profundas consequências deletérias sobre a saúde, capacidade reprodutiva e bem-estar psicológico das mulheres. Coloca-se em citação direta, o que Ogundipe (2020, p. 2) escreveu sobre a mutilação genital feminina (MGF), considerando que essa prática jpa foi citada anteriormente nas discussões da turma:

É uma prática cultural comum em partes da África, Ásia e Oriente Médio. Parte ou todo o órgão genital feminino externo é cortado como uma prática cultural que se acredita reduzir a libido e aumentar a castidade das mulheres. Mais de 200 milhões de meninas e mulheres, principalmente das áreas mencionadas, sofreram esse tipo de mutilação. Este procedimento geralmente é feito por atendentes tradicionais usando dispositivos não estéreis em meninas desde a infância até cerca de 15 anos de idade. Além do risco de infecções pela forma anti-higiênica do procedimento e do equipamento não estéril utilizado, pode haver sangramento grave, lesões no trato urinário, bem como aumento subsequente do risco de parto complicado e morte do recém-nascido. O paradoxo da prática é que, em vez de promover a castidade sexual como acreditam os praticantes, a MGF na verdade causa relações sexuais dolorosas e dificuldades para alcançar a satisfação sexual. Não tem absolutamente nenhum benefício para a saúde das mulheres e tem sido associado à depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e baixa autoestima.

Ogundipe (2020) também referiu como se deve abordar as práticas culturais com consequências adversas para a saúde. Para a MGF, que foi declarada um problema de saúde pública devido à prática generalizada da cultura e ao grande número de meninas e mulheres cuja saúde física, psicológica e reprodutiva foi prejudicada, esse autor recorre ao apelo de uma resposta colaborativa internacional à prática envolveu a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O referido autor citou ainda esforços que poderiam  erradicar a MGF, incluindo os seguintes: envolvimento internacional mais amplo para impedir a MGF; órgãos internacionais de monitoramento e resoluções que condenam a prática; e estruturas legais e apoio político crescente para acabar com a MGF (isso inclui uma lei contra a MGF em 26 países da África e do Oriente Médio, bem como em 33 outros países com populações migrantes de países praticantes de MGF). 

Ogundipe (2020) lembrou que, embora os esforços sustentados e colaborativos já tenham resultado na redução da prevalência da prática cultural, se as próprias comunidades que praticam a MGF decidirem abandonar a prática cultural, a MGF poderá ser erradicada. Quando os indivíduos influentes e as partes interessadas são motivados a apreciar os efeitos nocivos da prática cultural, eles podem se envolver na influência de outros em suas comunidades, o que deve ser muito bem planejado, gradual e implantado de forma neutra e não ofensiva. Neste sentido, sem serem abertamente críticos de certas práticas culturais, as pessoas das comunidades podem ser conscientizadas sobre o impacto de determinada prática na saúde usando métodos sutis, como dramatização, filmes e literatura, de forma cuidadosamente preparados.

Sérgio interveio assegurando a importância de mitigar riscos por meio do uso de  instrumentos limpos, o que poderia ser orientado pelo profissional de saúde da comunidade em que se pratica a MGF.

Helena comentou, neste sentido, que a atitude de um médico reflete o ideário da categoria, e que o profissional pode se sentir impotente diante da situação, e minimizar os danos pode significar que ele está praticando o ato de cuidar dos usuários do seu território, mas não pode chancelar o comportamento danoso das pessoas na comunidade em que trabalha e quando se depara com atitudes insalubres e prejudiciais que fazem parte da cultura local. Ela exemplificou esse aspecto controverso com o caso da toxicomania, o que pode constituir um dilema moral para os profissionais de saúde. Redução de danos é um termo amplo que se aplica a políticas, programas e práticas que visam minimizar as consequências sanitárias, sociais e econômicas do abuso de substâncias psicoativas. A ideia por trás da redução de danos não é necessariamente eliminar o abuso de substâncias, mas diminuir seus efeitos nocivos. A redução de danos reconhece que muitas pessoas continuarão a abusar de drogas e se envolver em outros comportamentos perigosos, apesar dos esforços de prevenção. Também aceita que muitas pessoas não querem ou não podem procurar tratamento. Mas, embora algumas pessoas que usam substâncias possam não necessariamente precisar de tratamento, é útil que elas estejam cientes dos recursos que podem ajudar a minimizar os danos do uso de drogas. Outro exemplo foi referente a costumes do Sertão Nordestino no Brasil, onde existe uma prática tradicional de se aplicar estrume de vaca ou cinzas de carvão sobre o coto umbilical do recém-nascido.

Helena afirmou ainda que as pessoas confundem a dimensão de compreender e de se enquadrar em atitudes relacionadas à cultura. Ela e L. H. Fernandes exemplificaram uma situação observada na comunidade, em que uma usuária do serviço de atenção primária convenceu seu marido diabético idoso e de baixa escolaridade a tomar corticosteróide porque esta classe de fármaco havia sido usado com bom resultado por outra pessoa conhecida. Este problema está relacionado à literácia em saúde, que não se limita à capacidade de ler e escrever, mas também a aptidão para falar, ouvir, identificar conteúdos informativos apropriados, ser capaz de lutar por direitos pessoais, da coletividade e pelo acesso à educação em saúde e ao acesso e boa qualidade de atendimento no sistema de saúde. L. Azevedo lembrou que muitas tradições religiosas envolvem limitações específicas na alimentação, desde a Quaresma no Cristianismo até o Ramadã Islâmico, e que ainda que ainda inexistam conclusões definitivas sobre os efeitos dessas práticas de jejum na  saúde humana, sabe-se que uma redução obrigatória de quilocalorias não é bem tolerada por muitos indivíduos. 

João Max mencionou um traço cultural etíope que também tem impacto sobre  saúde, mas eu não consegui registrar sua observação a tempo.

José Victor salientou que é importante reconhecer um limite entre ética e competência cultural. Competência cultural e tomada de decisão ética são dois conceitos separados, mas intrinsecamente relacionados, que são centrais para os serviços prestados por todos os profissionais de saúde. A diversidade cultural implica um desafio ético, por diferentes razões. Uma é que existem diferenças nas percepções morais e julgamentos morais entre as culturas e, consequentemente, surge uma tensão entre o universalismo moral (princípios ou padrões éticos universais) e o relativismo cultural moral (normas éticas locais ou culturais como fonte exclusiva de padrões éticos). O debate sobre o relativismo ético e a ética universal ainda está em aberto, e tem consequências importantes tanto para a ética médica quanto para a gestão intercultural. Alguns optam por aceitar o relativismo ético, enquanto outros oferecem fortes argumentos contra isso.

Sérgio assinalou uma situação em que um paciente idoso com diagnóstico de COVID-19 e que não aceita, que mesmo se for clinicamente indicado, ser submetido a uma intubação orotraqueal para ventilação mecânica. Ele perguntou se esse paciente teria esse direito e qual seria a tomada de decisão do médico. Os idosos podem representar um grupo específico de pacientes de alto risco para desenvolver COVID-19 com deterioração clínica rapidamente progressiva. De fato, em indivíduos mais velhos, a imunossenescência e os distúrbios comórbidos são mais propensos a promover tempestade de citocinas induzida pelo vírus, resultando em insuficiência respiratória com risco de vida e envolvimento multissistêmico. A necessidade médica de hospitalização é determinada principalmente pela presença de uma condição de saúde aguda de gravidade suficiente para que seja necessária uma intervenção diagnóstica ou terapêutica contínua, ou monitoramento cuidadoso. Muitos médicos desejam respeitar os desejos do paciente de não aceitar determinada conduta determinada pela equipe médica, em virtude do direito do paciente à autodeterminação ou autonomia, enquanto tentam fazer o que acham melhor para o paciente (agir com beneficência). Na prática, gerenciar esse problema apresenta mais complicações do que simplesmente identificar e priorizar os princípios éticos relevantes. A comunicação médico-paciente e o consentimento informado são relevantes para o manejo prático. O consentimento informado na decisão de não aceitar uma conduta médica indicada criteriosamente em um quadro agudo é um dos elementos mais importantes do cuidado para os pacientes que tomam essa decisão. Uma decisão informada significa que o paciente chegou à decisão, conjuntamente com seu médico, sem ser submetido a coerção e com total compreensão dos riscos, benefícios e alternativas da decisão a ser tomada.

Jerrimarque ponderou que a assinatura do termo de consentimento informado em um caso como esse, de atendimento de emergência, geralmente é usado para proteger, ou eximir de culpabilização, o hospital e o médico, e não para proteger o paciente. Ele exemplificou com um evento ocorrido em sua família, em que um paciente caiu da própria altura e foi levado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) ao hospital. Esse paciente era um homem sertanejo, estoico, que só se envolvia com serviços de saúde em situações extremas. 

Bianca lembrou de uma experiência vivida em práticas de uma liga estudantil, em que um paciente diabético admitido em um hospital apresentava glicemia muito elevada e  não queria ficar internado. Inicialmente recebeu orientação e informações dos riscos de uma médica que tentou dialogar com ele, e depois, com um outro médico do serviço, que tratou de fazer o paciente assinar um termo de consentimento informado e deixá-lo ir para casa sem mais diálogo.

Sérgio também se recordou de um paciente diabético que não aderia ao tratamento, embora já estivesse com problemas renais e de retina por causa da doença. Sérgio, então, em busca de uma solução para o caso, ponderou que um “choque de realidade” seria uma forma de fazer a pessoa passar a aderir ao tratamento, possibilitando a modificação da forma como ele enxergava a doença. Mas esta conduta poderia piorar a situação, pois um paciente fortemente resistente à terapêutica provavelmente não responderia positivamente ao ser submetido a uma coerção sob a forma de ameaça. Esse paciente deve entender e aceitar o que precisa fazer antes de seguir as recomendações médicas. L. F. Fernandes também falou das dificuldades para convencer seu avô a buscar tratamento e concordou que era um processo complexo motivar determinadas pessoas com personalidade difícil e crenças negativas arraigadas sobre a necessidade de aceitar assistência em saúde.

As crenças de saúde dos pacientes são afetadas por sua literácia (alfabetização) em saúde, e essas crenças também contribuem para a (não) adesão. Assim, a alfabetização em saúde dos pacientes é fundamental para sua capacidade de adesão. É claro que a melhor maneira de os médicos facilitarem o envolvimento de seus pacientes nos cuidados varia entre as culturas. É importante verificar também que distúrbios psicológicos são frequentemente comórbidos com doenças crônicas, aumentando suas taxas de morbidade e mortalidade associadas, e muitas vezes não são reconhecidas ou tratadas. 

Marina aludiu à importância de não desistir de pacientes considerados difíceis.

Rafael também compartilhou a vivência de uma situação em que uma paciente que era médica, ao ter o diagnóstico de câncer de mama avançado, optou por não iniciar o tratamento apropriado para a doença. Honrar as preferências do paciente é um elemento crítico na prestação de cuidados nesse caso, considerando que, sendo médica, a paciente pode entender que muitas formas de tratamento em casos de câncer avançado são fúteis. Por outro lado, é importante também avaliar se essa paciente não está sofrendo de um transtorno depressivo que a está deixando sem esperanças.

Flávia participou da discussão, mas eu não consegui registrar sua fala.

Após finalizar a aula, Alberto perguntou sobre evidências de que os estudantes de medicina frequentemente ficam mais frios no final do curso de graduação, e passam a se importar menos com o paciente, como se desenvolvesse uma  “couraça”. À medida que os alunos avançam na faculdade de medicina, espera-se  que o envolvimento empático no atendimento ao paciente melhore, mas não é sempre o que acontece. A empatia é geralmente considerada como uma capacidade afetiva: a capacidade de ser sensível e preocupado com o outro e uma capacidade cognitiva: a capacidade de compreender e apreciar a perspectiva da outra pessoa.

17 de agosto de 2022

CUIDADOS PALIATIVOS: DESCRITORES USADOS POR ESTUDANTES DE MEDICINA

 

Figura 1 - Nuvem de palavras gerada com as palavras indicadas pelos alunos sobre sua ideia a respeito de cuidados paliativos

A partir da introdução da aula de hoje, no primeiro dia de aula do semestre letivo, gerei uma nuvem de palavras que meus alunos da disciplina de Cuidados Paliativos, escreveram, em pedaços de papel, palavras descritoras do que  expressariam pensando nos  significados que associavam ao conceito de cuidados paliativos. Pedi para que eles não se identificassem e devolvessem os papéis com as palavras-chave escolhidas.

A nuvem de palavras gerada demonstrou a imagem da Figura 1. Foram escritas 134 palavras (após filtrados artigos, preposições, conectivos), observando-se que as palavras mais frequentes foram “conforto” (12 vezes), “vida” (11), “qualidade” (10), “morte” (9), “alívio” (8) e “amenizar” (8).

Uma nuvem de palavras é uma representação visual da frequência das palavras. Quanto mais frequentemente um termo aparecer dentro do texto que está sendo analisado, maior será o tamanho em que a palavra aparecerá na imagem gerada. As nuvens de palavras são uma ferramenta simples para identificar o foco do material escrito. A análise da nuvem de palavras escolhidas pelos alunos mostrou que, em primeiro lugar, as duas palavras mais destacadas foram “conforto” e “vida”. A palavra vida foi acompanhada de qualidade, ou seja, qualidade de vida, mas as palavras foram contabilizadas separadamente. É interessante que os alunos tenham priorizado os termos conforto e qualidade de vida como descritores do atendimento paliativista.

Os cuidados paliativos visam proporcionar o máximo conforto aos pacientes. Estes geralmente apresentam diagnóstico de uma doença avançada e recebem determinado tipo de assistência que não mais objetiva à cura, mas o controle da os sintomas de forma paliativa, para proporcionar maior qualidade de vida e conforto. A qualidade de vida em cuidados paliativos inclui os conceitos de cuidado compassivo e de morrer com dignidade.

Relacionados a conforto e qualidade de vida, também aparecem proeminentemente, na nuvem de palavras, os termos alívio, dignidade e empatia (da equipe de cuidados).  Dignidade e qualidade de vida são complexas e subjetivas e cada uma significará coisas diferentes para pessoas diferentes, mas em geral,  incluem bem-estar físico, social, psicológico e espiritual.

Os cuidados paliativos foram definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) como uma abordagem que promove a qualidade de vida dos pacientes e suas famílias, no enfrentamento  de uma doença com ameaça à continuidade da vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, identificação  precoce, para controle da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

Paliar significa confortar, aliviar sintomas, ouvir, respeitar, compartilhar, acolher, seguir o paciente e seus  familiares até o fim e após a vida. Sob este ponto de vista, fornecer o máximo conforto ao paciente é um dos principais objetivos dos cuidados paliativos. Conforto, do latim “confortare”, significa fortalecer, corroborar, prover, consolar, aliviar, cuidar, ajudar e auxiliar . O conforto pode ser descrito como um complexo e multidimensional, e consiste em um construto subjetivo, positivo e individual, como experiência, que pode ser vivida em situações de adoecimento e/ou tratamento do indivíduo, e o fim desejável está no cuidado ao paciente. Define-se o conforto como a condição vivenciada por pessoas que recebem medidas de conforto (COELHO et al., 2018). É o imediato e experiência holística de satisfazer (ativamente, passivamente ou cooperativamente) as necessidades dos três tipos de conforto — alívio, tranquilidade e transcendência — nas quatro dimensões da experiência humana (física, psicológico, espiritual, ambiental e social). Alívio também foi um dos termos mais frequentes na nuvem de palavras, e pode ser definido como a condição de uma pessoa que teve uma necessidade específica atendida; tranquilidade, como condição de calma e contentamento; e transcendência, como condição em que o indivíduo supera problemas e sofrimentos.

Os cuidados paliativos visam melhorar a qualidade de vida de pessoas com doenças graves, aliviando os sintomas e o estresse com uma abordagem holística focada na mente, corpo e espírito.

 Referências

Coelho, A., Parola, V., Escobar-Bravo, M. et al. Comfort experience in palliative care: a phenomenological study. BMC Palliat Care 15, 71 (2016). https://doi.org/10.1186/s12904-016-0145-0

World Health Organization (WHO). National cancer control programmes: policies and managerial guidelines. 2.ed. Geneva: WHO, 2002.

4 de agosto de 2022

CUIDADO INTERDISCIPLINAR EM CASO COMPLEXO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

#projetoterapeuticosingular #atençãoprimária #saudedafamilia #abusoinfantil #interdisciplinaridade #unasus #profsaude #ufpb 

O Projeto Terapêutico Singular (PTS) é um instrumento de cuidado baseado na singularidade do sujeito que visa à integralidade do atendimento e a autonomia do sujeito frente a uma situação de saúde com corresponsabilização e reintegração social. Para pacientes cuja situação envolve múltiplos fatores complexos, o PTS organiza o cuidado, trazendo o usuário do serviço de saúde e a sua família para a discussão. Registrou-se, neste vídeo, um colóquio com mestrandos de saúde da família do PROFSAUDE/polo UFPB, em que eles discutem, de forma interdisciplinar, um caso complexo de violência sexual infantil e estabelecem metas de avaliação para o PTS construído coletivamente. O caso complexo em questão não é real, e foi elaborado por Flávia do Bonsucesso Teixeira na UFCSPA/UNA-SUS, enfocando a história de Natália, uma adolescente de 14 anos, sobrevivente de violência sexual.


21 de julho de 2022

MAPAS CONCEITUAIS E APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA - Parte 2

#mapasconceituais #aprendizagemsignificativa #ensinoaprendizagem #ccmufpb

Vídeo com a Parte 2 da exposição sobre noções sobre mapa conceitual e sua fundamentação, a aprendizagem significativa.

20 de julho de 2022

COMUNICAÇÃO DE RISCO EM SAÚDE PÚBLICA - Parte 1

#comunicaçãoderisco #saúdepública #ufpb

Esta apresentação é a primeira parte sobre comunicação de risco em saúde pública , que atende a algumas necessidades complexas dos indivíduos e coletividades em situações de crise. A comunicação de riscos à saúde pública envolve a disseminação sistemática de informações para diversos públicos (por exemplo, indivíduos, comunidades e instituições) facilitando sua tomada de decisão informada e independente sobre a existência, natureza e/ou gravidade dos riscos e perigos que afetam a saúde, a segurança, a saúde e o ambiente.


15 de julho de 2022

MAPAS CONCEITUAIS E APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA - Parte 1

Nesta apresentação, exponho algumas noções importantes sobre mapa conceitual e sua fundamentação, a aprendizagem significativa.

16 de junho de 2022

CURSOS LIVRES EM DIVERSIDADE NA SAÚDE PARA ESTUDANTES DE GRADUAÇÃO EM MEDICINA

#diversidadenasaude #graduaçãoemmedicina #ufpb

A necessidade de abordar questões e desafios persistentes em relação à competência cultural e às disparidades étnico-raciais, de gênero e de outros grupos minorizados socialmente na saúde tem sido crescentemente enfatizada, porém ainda é incipiente a sistematização do ensino de competência cultural em saúde no Brasil. É imprescindível que a educação médica atenda a essa demanda em todo o país. A competência cultural na educação médica é definida como um conjunto de atitudes, conhecimentos e habilidades necessários para os profissionais interagirem efetivamente com populações cultural e etnicamente diversas. Trata-se do relato de uma experiência em um contexto educacional particular e em um momento igualmente especial, com o impacto da imersão emergencial no ensino on-line que possibilitou discussões reflexivas sobre o preconceito, a discriminação e o estigma no contexto da atenção à saúde. O presente trabalho tem o objetivo de apresentar o relato de experiência de três cursos livres ministrados na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para estudantes de graduação em medicina durante períodos letivos suplementares.

1 de junho de 2022

EXAME DE CABEÇA E PESCOÇO: INSPEÇÃO E PALPAÇÃO DE LINFONODOS

O exame clínico dos linfonodos inclui inspeção e palpação de todos os principais grupos de linfonodos clinicamente relevantes. Este breve vídeo do "AMBOSS: Medical Knowledge Distilled" mostra a inspeção e a palpação dos linfonodos superficiais da cabeça e do pescoço. #semiologiamedica

8 de abril de 2022

COMPETÊNCIA CULTURAL NA SAÚDE: DEVOLUTIVA DE ATIVIDADE DE PROBLEMATIZAÇÃO

DEVOLUTIVA – UNIDADE I

Apresento uma devolutiva aos meus alunos do Módulo de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina, do segundo período da graduação em medicina da Universidade Federal da Medicina (UFPB). Esta atividade foi realizada em grupos e empregada com finalidades avaliativas somativas e formativas. As temáticas foram as seguintes: Introdução ao Estudo da Diversidade Étnica e Cultural na Medicina; Competência Cultural e Diversidade na Saúde; Diversidade Humana e Subjetividade na Saúde; Igualdade, Equidade, Inclusão e Interseccionalidade de Minorias na Saúde; e Diversidade e Saúde Mental.
A presente devolutiva foi projetada para fornecer um feedback a partir do nível de compreensão e desenvolvimento da atividade colaborativa de aprendizagem em quatro grupos de nossos alunos. Isso ajudará a planejar a próxima unidade e analisar o alcance dos objetivos de aprendizagem.
Uma atividade de avaliação formativa monitora e orienta o aprendizado do aluno ao longo de um módulo. É diferente da avaliação somativa, que avalia a aprendizagem em um determinado momento e geralmente é atribuída uma nota, que foi alta nos quatro grupos. O uso de uma avaliação formativa pode fornecer muitas informações sobre o que está e o que não está fazendo sentido para os alunos. Também ajuda os alunos a avaliar onde estão no que se refere ao desenvolvimento de habilidades e competências no módulo e a tomar decisões sobre o que trabalhar e estudar com mais cuidado.
Esta avaliação foi baseada em atividade colaborativa de aprendizagem em quatro grupos de alunos do módulo, seguindo metodologia da problematização, a partir da análise de um a situação-problema para cada grupo.
Em seguida, apresento os enunciados e devolutivas para cada grupo. 

Grupo 1 - ENUNCIADO

Pedro Farias, um paciente negro de 32 anos, desempregado, considerado um “passageiro habitual” do hospital (termo usado para descrever aqueles pacientes que continuam vindo ao hospital pelo mesmo motivo, muitas vezes sendo considerados como usuários de drogas) por médicos do pronto-socorro. Cada vez que Pedro vinha reclamando de dores de cabeça extremas, recebia medicação para a dor e o mandavam para casa. Nesta última internação, ele foi internado na UTI, onde a médica Isadora havia acabado de começar a trabalhar. Quando ela o ouviu descrito como um “passageiro habitual”, perguntou a um colega por que ele era denominado assim. Foi-lhe dito: “Ele não tem nada melhor para fazer; não sei por que ele acha que podemos suprir sua dependência de morfina”. Embora a intuição da Dra. Isadora lhe indicasse que algo mais podia estar acontecendo com aquele paciente, ela observou suas tatuagens, seu comportamento rude e pensou que os colegas tinham razão. Ela encaminhou o paciente para fazer uma tomografia computadorizada do crânio no andar de cima do hospital, já que o protocolo para cefaleia aguda grave preconizava a realização desse exame. Enquanto era conduzido pela enfermeira e o maqueiro para o setor de radiologia, Pedro sofreu uma herniação cerebral por aumento súbito da pressão intracraniana e morreu. Na necrópsia, descobriu-se que ele tinha uma forma rara de meningite e realmente sofria de fortes dores de cabeça.

Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado). 


Estigma é mais que estereótipo negativo. Estigma e estereótipo são frequentemente usados ​​para descrever comportamentos negativos na sociedade que são direcionados a grupos específicos de pessoas. O dicionário Oxford define estigma como “uma marca de desgraça associada a uma circunstância, qualidade ou pessoa específica”, enquanto um estereótipo é definido como “uma imagem ou ideia amplamente aceita, mas fixa e simplificada, de um tipo específico de pessoa”. Os alunos do Grupo 1 realizaram uma análise abrangente e bem fundamentada da situação-problema apresentada, mas não desenvolveram o conceito de vulnerabilidade, destacado entre os Pontos Chave pelo grupo. Também faltou representar estigma como uma “marca” extremamente negativa para os alvos da discriminação.
Embora as duas definições pareçam semelhantes, e são, existem algumas diferenças marcantes entre as duas. Um estigma é sempre negativo e se desenvolve por causa de um estereótipo. Os estereótipos, embora muitas vezes errados ou parcialmente errados, nem sempre são negativos. Estigma é quando alguém o vê de uma forma negativa porque você tem uma característica ou traço pessoal que se acredita ser, ou na verdade é, uma desvantagem (um estereótipo negativo).
Embora os profissionais médicos se esforcem pelo tratamento igual de todos os pacientes, as disparidades nos cuidados de saúde são altamente prevalentes. Os estereótipos culturais podem não ser conscientemente endossados, mas sua mera existência influencia como as informações sobre um indivíduo são processadas e leva a vieses não intencionais na tomada de decisões, o chamado “viés implícito”. Toda a sociedade é suscetível a esses preconceitos, inclusive os médicos. O uso de drogas é vivenciado como barreira em todas as etapas do atendimento hospitalar. Intervenções para diminuir o estigma e melhorar nossa consistência e abordagem no manejo do doente com dor aguda no pronto-socorro são necessárias para melhorar a qualidade do atendimento e as experiências de cuidado daqueles que podem ou não estar usando drogas.
Pedro foi alvo de estereotipagem e estigmatização, ao ser rotulado como um toxicodependente em suas admissões anteriores no hospital. Se ele não tivesse sofrido estigmatização, que permeou o raciocínio clínico da médica assistente da ala de terapia intensiva, onde ele se encontrava, talvez sua vida pudesse ter sido salva. Esse caso deve ter deixado uma forte impressão em Isadora, a referida médica, que pode ter aprendido a lição de que nunca mais deveria julgar um paciente por sua aparência e confiar mais em sua intuição e olho clínico, não descartando a possibilidade de uma doença grave e aguda no paciente, nem se deixar influenciar pelos outros com base em estereótipos altamente negativos e estigmatização, diante de um doente que ala sequer conhecia.
Embora os avanços científicos nas últimas décadas tenham mostrado que o vício em drogas é uma doença crônica, a visão de que é uma “falha moral” permanece predominante e o estigma associado é persistente. Muitos pacientes sofrem consequências negativas significativas como resultado de preconceito e ignorância. Em muitos desses casos, estar em tratamento foi por si só a base para uma resposta discriminatória. Embora suposições como essas possam não ser diretamente mal-intencionadas, elas podem ter sérias consequências. Na prática médica, essas crenças e estereótipos inconscientes influenciam a tomada de decisão médica
O fato de grande parte do comportamento associado à doença da adicção ser criminalizado muda o cenário tanto para médicos quanto para pacientes no que diz respeito à forma como é tratado. Os profissionais de saúde – mesmo os bem-intencionados – que não reconhecem que o estigma pode ter consequências catastróficas para os pacientes que buscam ajuda no serviço de saúde, não estão atendendo aos melhores interesses de seu paciente ou aderindo ao princípio de “primeiro, não cause danos”.
a contribuição do viés implícito para as disparidades nos cuidados de saúde poderia diminuir se todos os médicos reconhecessem sua suscetibilidade a ele e praticassem deliberadamente a tomada de perspectiva e a individuação ao prestar cuidados ao paciente. Metade dos médicos brancos acredita que mitos como os negros têm pele mais grossa ou terminações nervosas menos sensíveis do que os brancos. Um especialista analisa como noções falsas e preconceitos ocultos alimentam o tratamento inadequado da dor das minorias.
A iniciativa educacional destacou a importância de usar terminologia e linguagem apropriadas ao escrever ou retratar indivíduos com transtornos por uso de substâncias ou indivíduos que estão em recuperação. Esta abordagem ajudou a promover uma apresentação realista da questão, livre de conotações tendenciosas e discriminatórias.
Soluções que podem ser apontadas para combater o estigma nos serviços de saúde são conduzir a análise das atitudes da equipe em relação a questões de saúde relacionadas a drogas nos serviços de saúde, além de realizar treinamento anti-estigma para as equipes de saúde.

Grupo 2 - ENUNCIADO
O relato em primeira pessoa, a seguir, é de uma estudante de medicina que está em treinamento em serviço em um hospital universitário. 

Eu sou estudante de medicina doo internato e estou passando pelo rodício de Pediatria no hospital universitário (HU). Durante uma consulta de pediatria no HU, eu estava acompanhando a preceptora e a residente e aprendendo a realizar um exame físico de um recém-nascido. Enquanto seguia os pediatras até o quarto do paciente, notei que a mãe do bebê, uma mulher de 30 anos, estava sentada ao lado do berço conversando com o marido. A preceptora começou a explicar o que é importante observar em um bebê, o que procurar no exame físico, e passou a me fazer perguntas sobre as causas de pneumonia e meningite no período neonatal. Enquanto conversávamos, a mãe do paciente veio até o berço. Em uma tentativa de acolhê-la em nossa conversa, eu disse “olá” e comecei a parabenizá-la por seu lindo filho. Assim que terminei a frase, a mãe disse “obrigada”, mas notei que ela franziu a testa e seu comportamento mudou um pouco – ela parou de sorrir e parecia nervosa. Perguntei-me o que havia feito de errado, mas logo percebi que essa família era de origem indígena, e minhas palavras complementares destinadas a ganhar a confiança da mãe acabaram lhe causando angústia. Lembrando-me do que aprendi sobre a cultura indígena do “mau-olhado” e ergui o braço direito com a mão fechada, movendo-a até a altura da testa do recém-nascido e com a boca entreaberta sugeri que estava pronunciando algo, então e olhei para a mãe. A mudança na expressão dele foi drástica –sorriu para mim e acenou com a cabeça. Ela não disse nada, mas seu sorriso e aceno de cabeça tacitamente comunicaram sua gratidão por evitar o “quebranto” para seu bebê. Aprendi isso na disciplina de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina no P3. A esta altura da minha comunicação com a mãe, a preceptora e a residente já tinham se afastado do berço, mas a funcionária administrativa do setor de neonatologia me olhou de forma assombrada...
 
Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado), interpretando com base no estudo do processo de desenvolvimento da competência cultural.

A análise feita pelo grupo foi muito boa, atendendo às expectativas de resposta e colocada no escopo da teoria da competência cultural, incluindo a menção à humildade cultural com sua conceituação. Contudo, na fase de teorização, dois pontos chave não foram desenvolvidos: “entendimentos distintos do processo saúde-doença” e  “comunicação inadequada”.
Durante este período desafiador como é o internato médico, enquanto o estudante de medicina está aprendendo a se tornar um médico na prática, muitas vezes é fácil se concentrar no estudo de doenças e abordar um paciente com a perspectiva de ter que descobrir o que está errado com ele e como corrigi-lo. Mas o estudante de medicina não pode apenas se preocupar em lembrar de listas de doenças, suas múltiplas causas, apresentações, diagnósticos, tratamentos, efeitos colaterais de tratamentos e muito mais. O que os estudantes de medicina e médicos muitas vezes esquecem é que a estrutura de crenças de um paciente e de sua família pode ser uma parte muito importante de sua vida e, a menos que esse aspecto seja respeitado, eles não formarão uma relação de confiança com a equipe de saúde para ajudar a resolver o mistério de sua própria condição de saúde-doença. Portanto, o conhecimento da cultura é uma ferramenta essencial que deve ser compreendida e lembrada ao lado da anatomia, patologia, fisiopatologia e semiologia médicas.
O estudante de medicina precisa saber identificar considerações multiculturais do cuidado em saúde. O cuidado de uma criança recém-nascida no entorno de pacientes que fazem parte de grupos culturalmente diversos está permeado por crenças, mitos e costumes resultantes da tradição cultural de uma família. Esse momento contém um leque de crenças compartilhadas por pessoas que integram diferentes grupos, sobretudo em comunidades tradicionais com a indígena. Portanto, é preciso que os médicos se apropriem do conhecimento intercultural para promover o cuidado que as pessoas necessitam e compreendem, mesmo se isso envolve rituais e aspectos mágico-religiosos.
A cosmovisão acerca dos aspectos simbólicos, como fórmulas de rezas e sinais gestuais, é concebido no meio popular como “mau-olhado”, e remontam a uma tradição oral de tempos remotos, em que as pessoas recorrem a rezadeiras e rezadores, investidos de uma memória cultural arquetípica. O fenômeno chamado de “mau-olhado” ocupa a centralidade das práticas de muitas práticas de saúde na população.
 
Grupo 3 - ENUNCIADO
O relato em terceira pessoa, a seguir, é de uma mulher em tratamento de toxicodependência em tratamento de substituição com Suboxone, que procura um pronto-socorro por causa de dor intensa no quadril. 

Fátima tem 55 anos e vive em Guarabira, é viúva, seu parceiro de longa data morreu recentemente, e agora está morando sozinha. Quando Fátima era mais jovem ela costumava tomar uma bebida depois do trabalho e usar Cannabis sativa, "mas não em excesso". Seu companheiro passou a usar heroína e Fátima também começou a usar essa droga nos últimos anos, e está agora no programa de tratamento de substituição de uso de narcóticos. Ela contraiu hepatite C há 25 anos pelo uso da droga. Seu companheiro morreu de cirrose por hepatite C há um ano. No momento, Fátima está em tratamento com Suboxone, para sua toxicodependência de heroína e de morfina, sendo acompanhada por um psiquiatra, e sente que está indo bem.

Ontem, Fátima acordou às 22h30 com uma dor intensa em queimação no quadril. Ela tentou aliviar a dor com compressas quentes e frias. Por volta da 1h da manhã, embora sempre fizesse o possível para não ir ao hospital, Fátima ficou preocupada com a possibilidade de que algo grave estive acontecendo com o quadril e que ficasse sem andar, então decidiu ir ao hospital geral da cidade. Ao chegar à emergência, ela descreveu seus sintomas para a enfermeira da triagem, onde se iniciou o procedimento habitual de atendimento com perguntas sobre uso de medicamentos. Nesse momento, a enfermeira parou, olhou para Fátima, mudou de tom e disse: “Ah, você está usando Suboxone? E tem hepatite C? Tudo bem, então, não diga mais nada”, aludindo à busca de alívio da dor na emergência, sugerindo que Fátima era apenas uma drogadita procurando opioides. Mas ela tinha seu suprimento de Suboxone para uma semana e mais uma caixa trancada no seu armário. Ela não estava procurando alívio ou drogas; ela queria ver um médico para descobrir o que havia de errado com ela. Sentindo-se julgada, Fátima se virou e saiu do pronto-socorro, com dor, raiva e imaginando o que seria necessário para ver um médico e ser tratada como uma paciente “normal”. “Só aquele olhar” foi o suficiente para ela ir embora porque podia ver que seria uma perda de tempo, e que ela não seria levada a sério.

Fátima ainda estava com fortes dores na manhã seguinte e chegou à unidade básica de saúde cedo, conseguindo ver seu médico imediatamente, que diagnosticou o problema como herpes zoster. O clínico geral prescreveu-lhe uma receita para herpes, e ela perguntou se esta nova medicação podia ser usada com o Suboxone. Era uma conversa que ela não queria ter depois com o farmacêutico local, mesmo sabendo que este iria perguntar se ela estava em uso de outro medicamento ao dispensar esta nova prescrição. Por causa dos olhares que ela recebia quando dizia às pessoas que estava em uso de Suboxone, Fátima muitas vezes evitava contar sobre o uso crônico desse medicamento. Ela estava se sentindo doente, só e com vergonha.

Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado).

 
A análise da situação-problema feita pelo grupo 4 atendeu às expectativas de respostas, com seleção de pontos chave essenciais e coerentes com a questão proposta. Entretanto dois pontos chave pontuados não foram desenvolvidos: “incompetência cultural” e “vulnerabilidade”.
Ficou evidente o entendimento da questão do estigma em torno da saúde mental que torna difícil para muitos pacientes procurarem atendimento profissional em saúde quando precisam, correndo o risco de serem envergonhadas ou julgadas com base em sua condição.
Esse estigma é reforçado pelo estereótipo de que as pessoas com doença mental são hostis ou incompetentes, embora esse não seja o caso. Estigma refere-se a atitudes extremamente negativas (preconceito) e comportamento igualmente negativo (discriminação) em relação a pessoas usuárias e drogas e problemas de saúde mental.
O estigma inclui ter ideias e julgamentos fixos – como pensar que pessoas com uso de drogas e problemas de saúde mental não são normais ou não são como nós; que causaram seus próprios problemas; ou que eles podem simplesmente superar seus problemas se quiserem
temer e evitar o que não entendemos – como excluir pessoas com uso de drogas e problemas de saúde mental de partes habituais da vida e de direitos ao atendimento médico de qualidade.
O conceito de subjetividade desempenha um papel fundamental neste caso. Ao expor brevemente a necessidade de uma compreensão mais profunda da saúde mental, que vai além de uma dimensão biológica, destaca-se a dimensão subjetiva de complexos processos de mudança e as respostas individuais e coletivas. Aproximar-se do conceito de subjetividade pode oferecer os meios para compreender melhor as diferentes formas de sofrimento como resultado de subjetividades socialmente produzidas. Essas subjetividades em todas as suas contradições, pode ter consequências diretas para o reconhecimento dado às necessidades de pessoas com problemas de saúde mental.

Grupo 4 - ENUNCIADO
O relato em terceira pessoa, a seguir, é de uma mulher jovem com diagnóstico de depressão e ansiedade generalizada em tratamento eficaz, que tem restrições de atendimento pelo dentista diante de uma cirurgia odontológica. 

Joana tem 28 anos, atendente de telemarketing, vai ao dentista para uma consulta por dor de dente. Ela tem diagnóstico de depressão, ataques de pânico e ansiedade generalizada de longo prazo, em uso de antidepressivo e terapia cognitivo-comportamental. Joana se sente bem ultimamente e a terapia está sendo eficaz. Ela teve licença por causa de seu quadro psíquico há um ano, mas se sente controlada e voltou a trabalhar normalmente.

O dentista afirma que ela precisará realizar uma cirurgia no terceiro molar no seu tratamento. O dentista lhe diz que acha que ela não está mais preparada para tratá-la por causa de sua condição de “portadora de doença mental”. O dentista justificou essa decisão afirmando que ela poderia ter um ataque de pânico durante o procedimento e ele não estava seguro de realizar a cirurgia.

Aos alunos do Grupo de Trabalho: Analisar a situação-problema apresentada, de acordo com a metodologia da problematização, seguindo os passos do Arco de Maguerez (adaptado).


O grupo 4 desenvolveu uma análise consistente e acurada da situação-problema proposta, incluindo a questão da interseccionalidade (gênero; problema de saúde mental). Todavia, a interseccionalidade não produz uma soma de disparidades na saúde, mas as multiplica, o que é muito pior. Por outro lado, chamo atenção para a distinção entre os conceitos de empatia e alteridade, que foram empregados como se fossem sinônimos. No entanto, na alteridade, uma pessoa reconhece alguém como outro indivíduo diferente dela, enquanto na empatia, uma pessoa reconhece o outro diferente dela, mas também compartilha seu afeto, coloca-se na perspectiva do outro para entender seus pensamentos ou sentimentos. "A relação Eu-Outro" é uma relação "reflexiva" entre "individualidade" e "alteridade" (alter – outro). A empatia é uma forma de projeção que pode não apreender verdadeiramente a alteridade do outro, podendo ser distorcida por preconceitos. Mas no componente cognitivo da empatia, a tomada de perspectiva do outro pode reduzir preconceitos e inibir estereótipos e preconceitos inconscientes. A empatia do médico afeta positivamente a satisfação do paciente, percepções de autoeficácia de controle, sofrimento emocional, adesão e resultados de saúde.
Na situação-problema posta ao Grupo 4, o dentista recusa a realização do atendimento odontológico de Marta devido ao possível  comportamento ansioso e de ataques de pânico que sugerem seus antecedentes pessoais patológicos na sua visão. Essa atitude sugere discriminação decorrente do estigma da doença mental. Se o dentista não puder justificar apropriadamente essa decisão e recusa em realizar a cirurgia dentária de Marta, tratando a paciente dessa maneira sem um motivo racional, ou seja, se não demonstrar que foi uma atitude apropriada e necessária na referida circunstância, essa conduta do profissional pode ser considerada como discriminatória. O estigma muitas vezes vem da falta de compreensão ou medo. Os julgamentos dos outros quase sempre decorrem de uma falta de compreensão e não de informações baseadas em fatos.
A estigmatização ainda existe dentro da própria comunidade médica. O estigma associado à saúde mental engloba discriminação e exclusão de pacientes psiquiátricos e dificulta suas oportunidades de ter uma vida mais produtiva e satisfatória. Além disso, o estigma também existe entre os profissionais de saúde e, portanto, dificulta a oferta de tratamento e cuidados.
Qualquer grau de incerteza que um profissional de saúde possa ter em relação à condição de um paciente pode contribuir para as disparidades no tratamento. O profissional depende de inferências com base no que podem ver sobre o problema que traz o paciente e no que mais observa sobre o paciente (por exemplo, antecedente de doença mental). Ele pode, portanto, agir com base em suas crenças anteriores sobre a probabilidade das condições dos pacientes, “prévios” que serão diferentes de acordo com idade, sexo, status socioeconômico e raça ou etnia. Quando esses antecedentes são considerados juntamente com as informações coletadas em um encontro clínico, ambos influenciam a decisão médica.
Além disso, os profissionais de saúde têm a obrigação de respeitar as normas éticas da sua profissão.

Imagem: Progress in Mind: world-mental-health-day-2020

23 de março de 2022

MINORIAS SOCIAIS NA SAÚDE: DIVERSIDADE, EQUIDADE, INCLUSÃO E INTERSECCIONALIDADE

#minorias #diversidade #equidade #inclusão #problematização #medicina #UFPB

Este vídeo é uma devolutiva de atividade de problematização da turma de graduação em Medicina do segundo período no Módulo de Diversidade Étnica e Cultural na Medicina, enfocando a importância da equidade, diversidade, inclusão e interseccionalidade de minorias sociais no contexto da saúde.

Esta atividade em grupos de problematização seguiu seguintes etapas em sala de aula em 14.03.22 por meio do Arco de Maguerez: 1. Partindo da observação da realidade em relação aos tópicos propostos para a identificação de situações-problema para o desenvolvimento da investigação; 2. Refletindo sobre os possíveis fatores e determinantes maiores do problema e definição dos pontos-chave da pesquisa a ser feita; 3. Investigação de cada um dos pontos-chave definidos, buscando informações na internet e analisando-as para responder ao problema, compondo assim a teorização; 4. Elaboração de hipóteses de solução para o problema; 5. Aplicação de uma ou mais das hipóteses de solução, como um retorno do estudo à realidade investigada.

21 de março de 2022

INTRODUÇÃO À ANÁLISE DE CONTEÚDO: Parte 2 de 2

#analisedeconteudo #pesquisaqualitativa

Este vídeo é a segunda parte de uma apresentação sobre os fundamentos da análise de conteúdo.

A parte 1 desta apresentação está disponível em: https://youtu.be/DEbOpNolWCo

19 de março de 2022

INTRODUÇÃO À ANÁLISE DE CONTEÚDO: Parte 1 de 2

#analisedeconteudo #pesquisaqualitativa

Pesquisadores qualitativos novatos muitas vezes se assustam com a perspectiva de realizar análise de conteúdo e, portanto, podem enfrentar muita dificuldade no início do processo. 

Este vídeo é a primeira parte de uma apresentação de noções introdutórias à análise de conteúdo, explicando os fundamentos dessa metodologia de análise. É um vídeo introdutório para aqueles estudantes que não são ainda experimentados no método e, portanto,  destina-se a estudantes de graduação e pós-graduandos recém-iniciados na pesquisa científica de abordagem qualitativa e no método da análise de conteúdo, ou seja, trata-se de uma introdução aos princípios e prática deste método.

A análise de conteúdo é um método empírico poderoso para analisar textos e expor conexões ocultas entre conceitos, revelar relações entre ideias que inicialmente parecem desconexas e informar os processos de tomada de decisão associados a muitas práticas de comunicação técnica.

Há um reconhecimento crescente do importante papel desempenhado pela pesquisa qualitativa e sua utilidade em muitos campos, incluindo o contexto da saúde.

5 de março de 2022

UMA PRIMEIRA CONSULTA MÉDICA SIMULADA NA INICIAÇÃO AO EXAME CLÍNICO

#exameclinico #consultamedica #semiologiamedica #CCMUFPB #UFPB #simulaçao #educaçaomedica

Um importante marco da graduação em Medicina é a iniciação ao exame clínico durante o quarto período do curso, quando o estudante veste um jaleco branco pela primeira vez, obtém o seu primeiro estetoscópio e realiza a primeira anamnese. Existem diferentes técnicas que podem ser usadas ​​para o treinamento de habilidades de comunicação na educação médica, sobretudo na consulta médica, que é uma ferramenta fundamental da prática clínica e cuja importância deve ser sempre reforçada nos cenários práticos de ensino-aprendizagem.

A comunicação eficaz é a pedra angular da medicina centrada no paciente e do comportamento empático, assim como na construção do "rapport". Para o treinamento de habilidades de comunicação, pacientes simulados podem ser usados ​​tanto no ensino quanto no exame de habilidades de comunicação.

Neste vídeo, os estudantes de graduação em medicina da UFPB, Gabriel Fernando Vasconcelos Teles e Iasmin Nunes Duarte, da turma 111, realizaram a primeira simulação de uma consulta ambulatorial na sua segunda semana na disciplina de Semiologia Médica, após uma aula teórica sobre consulta médica e comunicação com o paciente. Paciente simulada por Iasmin foi uma mulher de 49 anos com queixa de dor torácica. Na simulação, orientei Gabriel e Iasmin a não incluírem o exame físico. A gravação foi realizada por Thomaz Feijó de Albuquerque, da mesma turma, e com o público dos demais colegas da turma 111, em uma sala de aula do Centro de Ciências Médicas da UFPB.

Agradeço a meus alunos Gabriel, Iasmin e Thomaz pela primeira simulação e gravação de uma consulta neste semestre de 2021.2. Eles consentiram verbalmente com a publicação deste vídeo de interesse educativo, porém a qualquer momento poderão retirar seu consentimento, quando verterei esta publicitação à modalidade "privada".

14 de fevereiro de 2022

PROJETO "COMUNICAÇÃO SANITÁRIA GOVERNAMENTAL NA COVID-19": I REUNIÃO DE ORIENTAÇÃO

Reunião de orientação de grupo de pesquisa da graduação em Medicina da UFPB, com quatro graduandos do quarto período, para alinhamento de ideias e atividades. Enfoca-se, nesse projeto, a comunicação contida nas plataformas digitais oficiais de órgãos governamentais de saúde no Brasil e na Paraíba para enfrentar a pandemia da doença pelo novo coronavírus 2019 (COVID19) no cenário de gestão de risco vigente no ano de 2020. Questões relevantes e de impacto do ponto de vista técnico-científico e socioeconômico demandam a análise de “o quê” e “o como” foram externalizadas as comunicações emitidas oficialmente pelas entidades de saúde nos vários âmbitos para conhecimento e a  informação relacionada à pandemia pela população no ano de 2020.

O nosso objeto de análise neste projeto são os conteúdos da comunicação de risco na crise sanitária da COVID-19 no município de João Pessoa-PB, no estado da Paraíba e no Brasil em 2020, que foi um interstício crucial de tempo para a comunicação de risco sobre a pandemia. O objetivo geral do estudo é explorar e analisar as estratégias de comunicação de risco das autoridades governamentais de saúde quanto à pandemia de COVID-19 por meio de seus portais digitais on-line oficiais no ano de 2020.


20 de dezembro de 2021

AGRADECENDO POR 2021!...

No apagar das luzes deste ano de 2021, quero agradecer. Pela saúde, pela vida, pelo entusiasmo em aprender e compartilhar conteúdo. Quero desejar a todos e todas o melhor, quer em termos pessoais quer em termos acadêmicos. O ano de 2020 foi uma jornada imprevisível através da pandemia, e muitas outras dificuldades que tornaram a vida muito difícil para as pessoas em todo o mundo. Mas, à medida que nos aproximamos do final deste ano (faltam apenas 11 dias para 2022) odos devemos aceitar o fato de que, a cada ano que passa, devemos deixar para trás as memórias ruins. Portanto, agora, ao abraçarmos o próximo ano sejamos todos positivos, com espíritos altivos e aspirações para o futuro. Não vamos deixar que os tempos negativos nos afetem, olhando para o futuro e trabalhando duro para realizar nossos sonhos. Cada ano traz consigo novas oportunidades de se moldar no que você deseja ser. Que vocês preencham seu Ano Novo com novas aventuras, conquistas e aprendizados!

Gravei este vídeo para agradecer a todas as pessoas que se inscreveram no meu canal no YouTube neste ano de 2021. Sou muito grata por vocês terem sintonizado este canal, e agradeço seu tempo para assistir o conteúdo que tenho produzido.

Então por meio deste vídeo, agradeço aos inscritos neste canal e que me acompanharam durante este ano de 2021.